Resolvi contar rapidamente (claro que eu nao consigo fazer isso em menos de 60 linhas. Entao me desculpem os especialistas e os apressados) o que aconteceu nessa semana depois das compras, porque eu realmente quero contar as novidades mais atuais, tipo o Carnaval, por exemplo. Eu cheguei aqui na sexta, no sabado fui fazer compras e no domingo ja estava programada uma viagem do meu Gast. (Ele trabalha pra IBM, e a maior parte do trabalho ele faz em casa, mas algumas vezes ele precisa viajar para os EUA, o que por coincidencia aconteceu dois dias depois de eu ter chegado) Como ele tambem ajuda um pouco em casa, tipo buscando algumas vezes as meninas na escola/jardim e tomando conta delas, isso significou que eu teria que ja entrar no ritmo de trabalho nessa semana. Pensei: Ah, tudo bem, brasileiro é bom nisso, se vira nos trinta, da um jeitinho e consegue. O que nao estava programado no calendario minuciosamente alemao da minha familia era que a Luisa, a menorzinha (mesmo nome da minha irma cacula :-)) ficaria doente justo nessa semana. Parece que ela pegou uma virose, tipo um rotavirus alemao, entao nessa semana foi parte do meu trabalho ficar com ela enquanto a mae trabalhava, por exemplo. Depois de me estranhar um pouco e de nao querer ficar sozinha comigo, em cinco minutos ja virou minha amiga, comecou a me mostrar todos os brinquedos (e voces nao tem ideia da quantidade de brinquedos que essas meninas têm. Se fosse catalogar tudo, daria uns tres volumes, eu acho (pra cada uma) alem de levar mais tempo fazendo o catalogo do que o que elas gastam brincando com eles). Acho que a gente montou todos os quebra-cabecas que estavam na sala (so os da sala, porque se fossemos montar todos os da casa, teriamos que chamar todos os vizinhos para ajudar e ainda assim levariamos mais de uma semana (claro que nao estou exagerando)). Ela ama quebra-cabecas (Puzzle! Puzzle!) e é bem inteligente, consegue fazer muita coisa sozinha, mesmo tendo so tres anos.
Em um instante, viramos amigas de infancia (da infancia dela, é claro), mas como memória de crianca é curta, uns tres dias depois, quando ela ja nao estava doente e nao precisava mais ficar comigo, ela ja voltou a ficar com vergonha de mim. As outras maiores tambem nao ficaram muito à vontade, mas eu acredito que seja assim mesmo, no comeco. Tambem nos nao passamos muito tempo juntas, porque na verdade a minha Gast contratou uma au-pair para ter mais tempo para as criancas. O tempo que passamos juntas é indo/voltando da escola, ou seja, eu sempre falando: anda depressa, espera, sai da rua, deixa a neve no chao, estamos atrasadas e coisas do tipo. Entao acho que elas nao devem ter uma imagem muito boa de mim. Como meu Gast ficou uma semana fora, na segunda semana eu tinha tido uns tres dias de contato com ele (o que significa que estávamos juntos em casa ao mesmo tempo, nao necessariamente conversando ou se vendo), entao acho natural que a gente muitas vezes só se cumprimentasse. Entao, apessoa com quem eu mais tinha contato nessa época era a Érika. Como eu sou tímida e ela é fria, em uma semana era impossível que fossemos as melhores amigas do mundo, embora eu achasse que era um relacionamento legal e que tinha até uma certa amizade. Afinal de contas, mesmo nos conhecendo há pouco tempo, foram meses de conversa por e-mail e telefone.
Enfim, todo esse depoimento sobre meu relacionamento com a família serve para explicar porque no comeco da segunda semana a Erika me chamou pra conversar e me disse que ela e o Stefan tinham conversado e estavam pensando se eu realmente deveria ir com eles pra Áustria esquiar, depois de ela ter afirmado que eu iria com eles, enquanto eu ainda estava no Brasil, depois de ter me dito que ela tinha sapatos de esqui que nao serviam mais nela e que eu poderia usar, depois de ter falado sobre os cursos de esqui que existem lá e que eu poderia fazer, depois de eu ter criado toda uma expectativa sobre a viagem, me preparado mentalmente pra isso e quase ter ligado pra casa avisando que na próxima semana eu nao ligaria porque ia viajar. Acho que o motivo principal pra eu nao ir era que se eu fosse eles teriam que viajar com dois carros, o que significaria ela dirigir sozinha por cerca de oito horas, inclusive em partes perigosas e com mais de 20 cm de neve, o que significaria ter que colocar correntes nas rodas dos carros, o que ela nunca tinha feito antes. Enfim, eu entendo esse motivo e acho que teria aceitado muito tranquilamente se ela tivesse apenas me dito que estava com medo de dirigir. Mas esse nao foi o único motivo. Ela disse também que achava que nós (leia-se eu e a familia) nao estávamos “suficientemente entrosados para fazer uma viagem dessas”. Basicamente o que ela queria dizer e que infelizmente disse é que tinha medo que eu estragasse a viagem deles – claro que nao com essas palavras – e pra piorar a situacao disse que esse e nao o carro era o motivo principal, ou seja: “se você nao fosse tao timida, se nós já tivéssemos um relacionamento de conto de fadas – nao da cinderela -, se voce ja fosse amiga das meninas e elas te contassem segredos e preferissem sair com a Carol do que sair com a mamae, eu nao me importaria nem um pouco de viajar oito horas seguidas sem paradas debaixo de uma avalanche de neve só pra você ir com a gente. Mas como você nao preenche esses requisitos, é melhor você ficar aqui”. Tudo bem se eu já tinha me imaginado fazendo bonecos de neve com as meninas, tudo bem se eu ja tinha contado pra todo mundo no Brasil que eu ia esquiar no Carnaval, tudo bem se eu estava contando os dias pra essa viagem, já imaginando o que levar e até cogitando a possibilidade de comprar roupas de esqui -ainda bem que nao comprei. Só acho que eles deveriam ter pensado bastante antes de falar e dar certeza de que eu iria com eles.
Mas… como tudo (obrigatoriamente, mesmo que a gente ainda nao saiba) tem um lado positivo, pra me consolar a Erika me falou de um programa de atividades que existe na faculdade de esporte de Heidelberg. É assim: os estudantes da universidade podem fazer qualquer esporte que seja oferecido pela faculdade – numa gama muito ampla que inclui artes marciais, danca, teatro, entre outros – pagando simplesmente NADA. E como agora sao ferias na faculdade, tem um programa de ferias, com varios cursos sendo oferecidos. E como eu sou quase estudante lá, eu posso fazer quantos cursos eu quiser de graca! Enfim, no fim das contas, depois de fazer muitas aulas que depois vou contar detalhadamente, acabei achando melhor nao ter ido pra Áustria. Primeiro porque eu nao tenho roupa de esqui e embora ela tenha dito que me emprestaria os sapatos, nao mencionou nada sobre roupas e acho que ela na verdade tem uma resistência muito grande quanto a isso. Segundo porque a única coisa que se tem pra fazer lá é esquiar. Ou seja, se nao estiver esquiando, fica dentro de casa, entao acho que nao teria muita oportunidade de conhecer outras pessoas nem nada. Terceiro que segundo ela lá estava fazendo – 20°C e cá pra nós, acho que os + 6°C aqui sao muito mais confortáveis… É claro que se ela tivesse me falado dos cursos da faculdade de esporte antes de eu vir pra cá, teria evitado a carga excessiva de expectativa no esqui, já que essa expectativa poderia ser dividida com as aulas de danca por exemplo. E evitaria também a minha mae ter que mandar meu sapato de danca do Brasil e eu ter que usar outras roupas e nao meu quimono pra fazer artes marciais. Mas tudo bem, pelo menos ela me contou dos cursos e isso definitivamente está salvando meu carnaval e dando uma grande injecao de ânimo na minha vida social aqui em Heidelberg. Porque como meu curso de alemao comeca so em abril, antes desses cursos de esportes eu só tinha contato com minha familia praticamente. E como eu converso mais com a Erika e a gente fala em português eu quase nao falava alemao com ninguem, so com as criancas e com o Stefan, mas é muito pouco.
Eu comecei a escrever aqui um adendo sobre o fato de a Erika falar portugues, que eu nao tinha mencionado antes, mas ele acabou tomando vida própria e se tornou um post independente – ou uma página também, ainda nao resolvi. Enfim, agora sao exatamente 5:33 e eu realmente fiquei esse tempo todo escrevendo. Isso está comecando a ficar perigoso… Mas eu nao consigo me conter, é sério. Uma idéia gera outra idéia, que leva a um post, que vira outro post e por aí vai.. Já estou ficando com medo disso, mas acho que depois que as datas se normalizarem vai ficar mais tranquilo (será?)
Quem falou das batatas