Leia a Parte III aqui
Deixei pra visitar o Vaticano no meu último dia em Roma. Seria o dia mais religioso, com direito à Basílica de Sao Pedro e todas as capelas famosas a que eu tinha direito. E nada como vestir trajes adequados para a ocasiao (O quê, a Carol vestida de freira?? Pergunta-se o leitor, confuso). Explico: No Museu do Vaticano e na Basílica, é vetada a entrada de pessoas trajando camisetas regatas ou mostrando mais da metade das pernas – ou seja, a maioria dos turistas sensatos para suportar o calor de Roma. Mas sabendo das regras, tive o cuidado de me vestir de acordo, sem ombrinhos de fora e com uma saia até o joelho. Ninguém precisava saber, é claro, que minha saia tem uma abertura que faz com que ela levante vôo ao menor sinal de vento, deixando muito mais do que metade das minhas pernas à mostra. Até procurei um alfinete pra deixar a coisa mais segura. Até fita crepe tava valendo. Mas eu nao tinha incluído os itens na minha mochilinha de 20 quilos. Ia ter entao que, literalmente, segurar as pontas. Mas era isso ou usar calca, o que com o calor italiano seria quase suicídio. E é melhor morrer apedrejada pelo uso de roupas indecentes na Casa do Papa do que derreter no meio da rua, antes de alcancar os portoes.
Depois de identificar para onde eu tinha que ir e notar a quantidade de turistas que rumavam para a mesma direcao, nao pensei duas vezes antes de acelerar a marcha e brincar de quem-chegar-por-último-é-a-mulher-do-padre com eles. Tentando, é claro, fazer isso discretamente, antes que os outros percebessem minha idéia e resolvessem entrar na brincadeira. E lembrando de segurar a barra da saia. Depois de várias ultrapassagens, esperava encontrar ainda uma fila no mínimo bem gordinha. Mas nao. O dia da visita era um domingo, um dia de visitacao normal, segundo meu guia de viagem, exceto pelo fato de que o museu fechava mais cedo. O que eles nao fizeram o favor de informar é que ele ficava normalmente fechado aos domingos. E eu teria tido muito azar se eu tivesse comecado a viagem em qualquer outra semana. Mas no último domingo do mês, além de eles abrirem nao só uma excecao como o museu também, a entrada era gratuita. E depois de saber que o Panteao já tinha sido mandado pra conta do Papa – em todos os sentidos – fiquei feliz de nao precisar engordá-la ainda mais. E em uma fila com cerca de 10 turistas na minha frente andando surpreendentemente rápido, fiquei tao feliz com a notícia que até esqueci de segurar a saia por alguns momentos. O vento, que parecia estar só aguardando por um momento oportuno, nao se fez de rogado. Vuuch! E lá se foi a saia pro alto. Os turistas que tinham sido ultrapassados sorriram com um ar de vinganca, enquanto eu tentava domar novamente o pedaco de pano rebelde. Olhei receosa pro seguranca que devia estar ali pra inspecionar as roupas dos visitantes e me perguntei se ainda poderia entrar com uma roupa tao instável.
- Fica tranquila que lá dentro nao venta nao – disse ele sorrindo.
E fui apressada em direcao ao abrigo seguro. Só nao imaginava ser tao seguro assim. Equipamentos dignos de qualquer alfândega. E acredito que eles realmente revistem as pessoas e olhem minuciosamente pelo raio-x à procura de bombas, canivetes, camisinhas e quaisquer outros artefatos perigosos à integridade física e moral da Igreja. Mas nao naquele dia. Os funcionários, aparentemente desacostumados a trabalhar no domingo, preferiam bater papo, tomar café ou ficar observando os ponteiros do relógio se movendo do que efetivamente fazer um controle dos visitantes. E todos os italianos que aguardaram ansiosamente o domingo livre para visitar o Vaticano puderam entrar impunemente com todos os seus artefatos terroristas. A falta de rigor do controle fez com que se permitisse a entrada nao só de saias rebeldes, mas de shorts no melhor estilo É o Tchan e camisetas que deixavam bem mais que os ombros de fora. Os guardas pareciam apreciar a bela manha de domingo enquanto caminhavam tranquilamente pelos corredores. E nao se importavam muito se os turistas tiravam fotos abracados com as estátuas.
E que estátuas! Os corredores estavam repletos delas, enfileiradas, como se aquilo fosse na verdade um depósito, nao uma exposicao. Cada centímetro das paredes, teto e piso estavam cobertos por obras de arte, de mosaicos a afrescos, numa intensidade e quantidade que faziam com que deixassem de ter valor artístico para se tornar no máximo objetos de decoracao. E era preciso um olhar muito mais cuidadoso para que tudo isso permanecesse obras de arte. E nao fazer como os outros turistas que tiravam fotos com qualquer uma (abracados de preferência) sem ter a menor nocao do que aquilo realmente era além de uma estátua. E é claro que eu nao analisei cuidadosamente cada uma delas. Precisaria de muito mais do que as poucas horas que estive lá pra isso. Mas certamente a impressao que elas e todos os outros objetos me causaram foi a de que o Papa tem muito, mas muito mais que o Panteao em sua conta. Cada centímetro do Vaticano parece falar pro visitante: - Está vendo o tanto que eu sou rico? Enquanto os turistas boquiabertos se curvam perante a soberania de uma instituicao que conquistou todo o seu poder às custas dos fiéis.
Sei que tudo o que eu digo tem resquícios muito nítidos de uma época em que eu odiava a Igreja. Hoje nem tanto. Já consigo entrar nelas. Embora assistir a uma missa seja pedir demais. Apesar de tudo, valeu a pena essa visita. E recomendo pra qualquer um que vá a Roma e tenha o mínimo de interesse por história e arte. Só lembre de deixar para o final da viagem. Porque depois de ver tantas estátuas (incluindo a Pietà, na Basílica), tantos objetos arqueológicos (incluindo uma múmia de verdade sem as bandagens no museu egípcio), tantas pinturas e afrescos (incluindo o teto da Capela Sistina, que parece que vai realmente cair sobre você), você acaba achando que todo o resto é apenas resto.
Quem falou das batatas