Uma das minhas ilusoes de au-pair era a imagem da au-pair totalmente integrada à família, participando das suas atividades de lazer, sendo tratada realmente como uma irma mais velha e logicamente, viajando junto com a família. Sempre achei que na casa da Erika isso nao acontecia porque afinal de contas era a Erika. Mas nao é bem assim. É lógico que nao tem comparacao as duas famílias e que aqui eu me sinto incomparavelmente melhor do que na casa dela. Mas nada é perfeito. E tenho que admitir que foi uma decepcao muito grande perceber que nao, eu nao seria convidada todas as vezes que eles saíam, pior: eu raramente seria convidada e era bem provável que eu teria que ficar em casa cuidando das criancas, ou do bebê ou do cachorro. Mas pode ser até pior, porque às vezes eles levam o cachorro, que na verdade é ela. E eu fico. Nao pretendo escrever um post depressivo, nem ficar me lamentando, mas eu nao consigo evitar as comparacoes inevitáveis que surgem quando a cachorra é convidada e eles nem falam pra onde estao indo. Nao falam pra mim. Ela provavelmente sabe. E eu me pergunto quem faz mais parte dessa família, se eu ou ela e a resposta é óbvia e clara, mas nem por isso muito digerível.
E foi assim que nas últimas férias, que aqui sao no meio de maio, eles foram viajar e me deixaram aqui e nem o cachorro me fez companhia. Passaram um fim de semana na casa de um tio na floresta negra (nao, isso nao é só o nome de uma sobremesa…), e eu acho que nao custaria nada ter me levado também, já que nao teriam gastos extras com hospedagem ou transporte. Mas nao levaram. Depois foram pra Áustria e ficaram uma semana lá, deixando pra mim uma listinha com tarefas a serem feitas, entre elas, claro, passear com a cachorra, que dessa vez também nao foi convidada. Fico pensando às vezes que se toda vez que eles chegassem eu fosse correndo até eles, pulasse e latisse, eles talvez me chamassem pra próxima viagem. Mas acho que o mais provável seria eu acabar no hospício ou pior, no vôo mais próximo, o que me leva a procurar outras opcoes. E minhas opcoes eram simplesmente tentar me divertir – de preferência nao fazendo compras – enquanto eles estavam fora. Tentei encontrar com a Mayara e depois de alguns desencontros e muitos tomates acabou dando certo (e eu falo mais disso depois, ela merece um post exclusivo). Queria ter ido pra Mannheim com ela, que é a maior cidade aqui das redondezas e pra onde a gente nao tinha ido juntas ainda. Que bom – pensa o leitor – ela já está comecando a pensar em outras coisas além de fazer compras!! Que evolucao! Mal sabe o ingênuo leitor que uma das principais atracoes de Mannheim nao sao os parques e monumentos históricos, mas o centro de compras. E que essa cidade é muito barata em comparacao com Heidelberg, que é uma das mais caras da Alemanha (e ainda assim eu consigo boas ofertas! Eu sou boa mesmo nisso…)
Enfim, mesmo nao tendo ido pra Mannheim com ela, nao me saiu da cabeca a idéia de ir pra lá. A última vez que eu tinha ido pra lá foi quando eu comprei meu notebook (além de umas outras bagatelas que acabaram saindo o mesmo preco dele) e exageros à parte e depois de receber o salário seguinte, já estava com saudade de passear por outras lojas que nao as que os meus pés já decoraram o caminho em Heidelberg. Só que apesar de ter me tornado uma consumista compulsiva, nao abandonei minha característica primeira de mao de vaca. E o fato é que a passagem pra Mannheim custa nada menos que 9 dinheuros, o que daria pra comprar duas bolsas, duas blusas ou um casaco, dependendo do que estivesse em promocao. E eu na verdade nunca uso o transporte público daqui, porque tenho uma bicicleta e apesar de todos os seus defeitos, de já ter me jogado no chao no mínimo três vezes, o que decididamente nao foi culpa (apenas) da inabilidade da ciclista, e de, em consequencia do último tombo, eu ainda nao poder movimentar tao bem o meu braco sem que isso me cause uma dor tao forte que eu até esqueca porque é que eu o estava movimentando (e dessa vez sem exageros), apesar de tudo isso ela me serve muito bem. E daí eu tive a brilhante idéia de juntar o útil e nem tao agradável assim ao agradável e muito útil. Ou seja: ir pra Mannheim fazer compras de bicicleta. Essa seria uma forma também de me redimir comigo mesma, por ter saído só pra fazer compras. Afinal, os 22 km pra ir e pra voltar seriam só em si um passeio e tanto. Eu estava com essa idéia desde que a ida pra lá com a Mayara nao deu certo (e isso foi no dia 23 de maio, sábado, pra situar vocês nas datas). Planejei entao que no próximo sábado, dia 30, pra comemorar meu segundo aniversário de namoro em grande estilo, eu faria esse passeio. Nao contava com o fato de que na quinta feira eu levaria o pior tombo de bicicleta da minha vida, chegando a precisar de ajuda pra levantar e sem forca suficiente no braco nem pra segurar o guidao, totalmente molhada e suja porque estava chovendo e eu fui escolher logo em cima duma poca d’água pra cair, tendo que empurrar a bicicleta ladeira acima até em casa e dando gracas a deus pelo fato do meu gastvater ser ortopedista e, como eu descobri logo depois, especialista em ombros e sabendo que mesmo se ele nao fosse suficiente pra resolver meu problema, minha Gastmutter era fisioterapeuta… Mas eu nao precisei dos servicos dela. Sobrevivi à base de Voltaren e compressas de gelo e em um ou dois dias meu braco já estava melhor (embora eu ainda amaldicoasse até a quinta geracao dos gasts quando tentava lavar as janelas – uma das tarefas da listinha – naquelas condicoes). Qualquer pessoa sensata nesse estado sabe que o melhor a fazer é ficar bastante tempo em repouso, nao fazer muito esforco, seguir rigorosamente as prescricoes médicas com compressas de gelo e três voltarens por dia. Mas – e nesse caso certamente até a Erika concordaria comigo – eu nao sou lá muito sensata. E mal consegui fazer o movimento de levantar o braco e segurar o guidao e upa-le-le! Lá vai a Carol de bicicleta pra Mannheim.
Claro que todo mundo sabe que antes de partir numa aventura dessas é necessário olhar no mapa, ver o melhor caminho a ser feito, levar comida, água e cartao de crédito. Ou seja, planejar o mínimo necessário, o que normalmente eu faco até demais. E talvez tenha sido o efeito do voltaren ou a lua ou a felicidade pelos dois anos de namoro completos ou a ânsia de fazer compras, mas dessa vez nao. Cheguei a olhar rapidinho no googlemaps e vi que se eu pegasse a rua tal e seguisse ela direto, um dia eu chegava em Mannheim. E tendo um senso de direcao perfeito como o meu, quem precisava de mapas? Afinal, era só seguir as placas e mais cedo ou mais tarde eu chegava lá. E lá fui eu seguindo as placas, admirando a paisagem, cantarolando enquanto pedalava pelos campos floridos. Nem me preocupei quando saí da rua que eu tinha planejado seguir. Lá ainda tinha uma placa indicando Mannheim e era só continuar nessa direcao. E foi seguindo essas placas que eu conheci o que os alemaes chamam de auto-bahn ou auto-pista ou rodovia com limite de velocidade bem acima dos padroes brasileiros. Talvez eu deveria ter pensado, ao me deparar com a tal pista: ok, caminho errado, meia volta volver e eu ainda acho hoje a ciclovia pra Mannheim. Mas minha reacao foi bem diferente… Caramba, eu to na autobahn! Doidimais, vambora. E lá fui eu na minha humilde bicicleta cor de rosa apostar corrida com os carros a 150 por hora. Eu estava seguindo por uma espécie de acostamento, entao nao tinha problema, né? Tava na direcao certa… Só achava desagradável todo carro passar buzinando do meu lado. Fora isso era até legal. E estava assim tranquila pedalando quando ouvi uma outra buzina, mas dessa vez bem mas perto. Tinha um carro atrás de mim no acostamento buzinando igual louco. Será que ele queria acostar? Continuei em frente pra que ele tivesse espaco suficiente, mas ele nao parava com a buzina. Entao parei, pronta pra xingar o engracadinho. E tive que engolir em seco quando virei pra trás.
Era a polícia. E o bom é que eu nem precisei dar uma de boba nem nada. Na ocasiao eu realmente era a boba. Ou louca, de ter pedalado na autobahn, correndo risco de nunca mais poder fazer compras… Voce nao sabe que é proibido nao?? Pois é, é proibido. Por isso que os carros passavam buzinando, claro! Pra me avisar. E eu achando que estava finalmente despertando o interesse dos alemaes… Os policiais foram gentis comigo, me ensinaram sobre as placas de trânsito e eu descobri que as ruas normais têm placas amarelas e pode-se andar de bicicleta, mas a autobahn tem placas azuis e só carros têm a permissao pra dirigir nela. Ou seja se você estiver de carro, pode correr. Se estiver a pé ou de bicicleta, saia correndo na direcao oposta. Acabou que eu ganhei uma carona até Mannheim. E nao pra prisao. Somente uma advertência que eles disseram que mandariam pro meu endereco e que ate hoje nao chegou. Mas nao, nao vou precisar pagar nada nem vou ser deportada por causa disso.
Descobri em Mannheim que eu tinha realmente escolhido o dia certo pra ir pra lá. Tinha festa na cidade, com várias barraquinhas de comidas, música ao vivo, bem legal. E as lojas que nao podiam faltar estavam lá, todas abertas, esperando ansiosas por mim. Mas pra mostrar pra vocês como eu nao sou movida só a promocoes, participei um pouquinho da festa sim. Ouvi algumas músicas, fiz um lanche e o meu ombro nem tava doendo tanto assim mais. E na hora de voltar pra casa, tomei o cuidado de nao cruzar com nenhuma plaquinha azul e fui seguindo o rio Neckar, que liga as duas cidades, passando pelos campos. E nem liguei de ter caído de novo bem em cima de uma poca de lama (poxa, mas essa menina dá sorte mesmo). Cheguei um pouquinho suja em casa, mas nada que um banho e uma cuidadosa limpeza das minhas sapatilhas outrora brancas nao resolva. E um bom descanso, depois de mais de 45 km e cerca de 4 horas pedalando.
Quem falou das batatas