Vinganca

27 03 2009

Na sexta-feira, um dia depois de me mudar, fui me cadastrar na Prefeitura, informando meu novo endereco. Quando voce se muda de casa na Alemanha é obrigado a fazer isso. É também uma forma, no caso das au-pairs, de eles saberem se você mudou de família ou nao. E tem uma lei pras au-pairs que determina um limite de mudancas de família. Já ouvi dizer que sao três vezes, mas acho que isso varia de acordo com o estado. Uma outra lei diz que uma au-pair pode ficar até duas semanas sem uma família, senao nao pode mais ser au-pair. Eu estava um pouco preocupada com isso, porque nao sabia quando a Erika tinha me descadastrado. Eu tinha me cadastrado na casa da Cláudia, mas também nao sabia quando la teria me descadastrado. Provavelmente eu estava no momento oficialmente sem família e tinha medo de que isso causasse problemas com o visto.

Enfim, fui lá na prefeitura, me cadastrei e pra minha alegria, deu tudo certo. Ainda faltava resolver o visto, mas eu tinha que deixar pra semana que vem. Da prefeitura, como era tudo no mesmo bairro, acabei resolvendo fazer uma visita pra nossa velha amiga… Explico: Durante a semana a Erika tinha me ligado pedindo que eu devolvesse pra ela os livros que estavam comigo e que eram da biblioteca, porque ela tinha que devolver ou pagaria multa. Eu tinha ficado com eles pra estudar pra prova e até aquele momento nao tinha tido tempo pra pensar em devolvê-los. A última coisa que eu queria era voltar à casa branca, mas já que estava no caminho, resolvi passar lá e evitar que ela ficasse me ligando o resto da outra semana.

O plano era, como sempre, entregar os livros e ir embora, quase correndo. Mas ela, como da outra vez, me convidou pra entrar. Entreguei os livros e pra minha surpresa, ela também tinha algo pra mim. Minha mae tinha me mandado meu sapato de danca e algumas roupas que eu tinha pedido pelo correio fazia mais ou menos um mês. Como na época eu nao tinha saído da casa da Erika, ela mandou pro endereco de lá. E agora finalmente minha encomenda tinha chegado. Fiquei feliz nao só por poder finalmente fazer minhas aulas de danca com um sapato próprio pra isso em vez das sapatilhas velhas que eu costumava usar, mas também porque nao iria precisar voltar lá pra buscar depois.

A casa nao estava tao desarrumada como da outra vez. O clima também nao estava tenso. E a Erika parecia até feliz quando perguntou:

– E aí? Você vai se mudar?

Eu nao fazia muita questao de contar pra ela. Mas eu também estava feliz, entao respondi, tranquilamente:

– Ah, sim, eu já me mudei…

Ela fez cara de quem nao tinha entendido direito. Franziu levemente as sombrancelhas, mas se recompôs rapidamente. E perguntou, fingindo interesse:

– Ah é? E pra onde você foi?

Bem, eu teria que contar mesmo… Mas pude observar a reacao dela se transformando quando eu disse:

– Eu fui praquela família de Handschuhsheim mesmo…

Vi o sorriso dela se desmanchando e os lábios se contraindo numa raiva controlada, quando ela perguntou surpresa, quase que gaguejando:

– Ah… A-aquela família que você visitou na semana passada?

E o leitor já deve ter entendido o motivo da surpresa dela. Ela nunca poderia imaginar que depois de todas as coisas bizarras que ela com certeza falou de mim, alguma família em sa consciencia iria me aceitar como au-pair. Talvez a consciência da minha família nao seja tao sa assim. Ou talvez seja tao sa que questionou a sanidade da consciencia da Erika antes de julgar a minha. O fato é que ter dado certo pra mim apesar dos esforcos dela em contrário, foi como um balde de água fria. E o que eu podia fazer além de responder a pergunta dela? A verdade já era boa o suficiente:

– Sim, essa família mesmo… 

E acrescentei, ao me despedir, nao sem uma pitadinha de malícia:

– Talvez a gente ainda se encontre pelo bairro…

Será que posso chamar isso de vinganca?

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Desculpas e agradecimentos

27 03 2009

Queria primeiro me desculpar pela falta de atualizacao das últimas semanas. Foram realmente bastante atribuladas, porque entre outras coisas teve três aniversários aqui em casa, uma amiga do Brasil veio me visitar, tive que fazer minha primeira apresentacao (referat) da faculdade, fiz (pra variar) muitas compras, entre as quais inclusive meu notebook, o que significa que estou aguardando ansiosamente meu próximo salário, mas tenho dinheiro suficiente para fazer algumas comprinhas – o que é ainda mais perigoso. Mas ainda vou contar detalhadamente sobre isso… Tenho primeiro que voltar quase dois meses no tempo e tentar lembrar o que aconteceu naquela época – parece tanto, tanto tempo… Agora também acho que as histórias nao vao ter tanta sequencia quanto já tiveram. vou escrever – pelo menos esse é o projeto inicial – sobre alguns temas sobre que quero falar desde que comecei esse blog e sobre os quais o rumo dos acontecimentos nao permitiram que eu escrevesse. Vamos ver se dá certo. Ainda tem uma historinha com a participacao da nosa amada antagonista, mas talvez em um próximo post… Nesse eu ainda falo dos meus primeiros dias na nova casa, das primeiras impressoes, etc. Mas chega de metalinguagem e vamos ao post:

Uma coisa que eu percebi já na casa da Erika, é que fazer faxina – ou em termos mais politicamente corretos ajudar no trabalho doméstico – é um servico muito ingrato porque seus patroes nunca vao dizer: “Nossa, como a casa está limpa hoje!” Se nao for algo que salte muito ao olhos, como a ceramica que era marrom de repente ficar branca, ninguém vai dar muita atencao e podem nem perceber se voce trabalhou ou nao. Só vao perceber sua existencia se voce deixar de fazer alguma coisa ou se fizer algo mal feito. Pelo menos com a Erika era assim. Ela tinha todo dia uma reclamacao a fazer, ainda que fosse pelas canetas que eu nao guardei. E nunca percebeu as coisas que eu fazia mesmo sem ela pedir e que eu fazia apenas para tentar agradar. Mas, se me permitem um jogo com as palavras, a Erika nao é exatamente uma pessoa agradável.

Talvez nessa nova família eu tenha me dedicado mais do que nas outras. Ou talvez eles simplesmente sejam mais gentis. Ou as duas coisas. O fato é que sempre elogiam quando eu faco algo bem feito. Lembro de um dos primeiros dias que eu tinha chegado e passei pano no balcao da cozinha. Eu nao tinha feito nada demais, nao usei nenhum produto especial, apenas pano e água. Mas parecia que eu tinha reformado a cozinha, pelo que eles falavam: “a cozinha brilha como nunca!”. Pode ser até que eles tenham combinado de falar isso ou que tenham aprendido pela experiência com as aupairs. Mas o fato é que um elogio tem um efeito psicológico tao agradável que voce passa a querer repetir o feito para receber mais. Pelo menos foi esse o efeito que teve em mim.

Depois de ter sido expulsa duas vezes de casa também, acabei desenvolvendo algumas estratégias para chamar a atencao dos patroes para o trabalho que eu faco. Assim, de vez em quando eu “esqueco” de guardar o aspirador de pó quando por exemplo eu nao precisava passar aspirador na casa e passei assim mesmo. Ou deixo pra fazer algumas coisas que nao sao exatamente atividades diárias básicas quando eles estao em casa. E eles geralmente elogiam. Trabalhar com motivacao é realmente muito diferente.

Eu nao podia apesar disso esperar que o período nessa nova casa fosse perfeito. É claro que desentendimentos existem em qualquer lugar, principalmente, quando se trata de família. Mas em geral foi muito bom esse primeiro período na nova casa. Até hoje porém nao posso deixar de comparar algumas coisas com a casa da Erika. É um impulso natural. Imagino como seria minha vida agora se eu ainda estivesse na casa dela. E sempre tenho certeza de que estou muito melhor agora. Nao posso deixar por isso de sentir uma certa gratidao por tudo que ela fez por mim. Afinal, sem ela nada disso seria possível. Obrigada, Erika!





Casa nova, vida nova

26 03 2009

Depois de ter saído pra dancar com a Mathilde na quarta feira, chegado bem tarde em casa e acordado quase na hora do almoco, percebi que finalmente tinha chegado o dia de mudar de casa. E veio como sempre o frio na barriga, por nao saber o que aconteceria em seguida. Medo, de nao dar certo de novo, de acontecer qualquer coisa que me levasse a ter que procurar outra familia. Toda hora eu pensava que poderia nao dar certo, que essa viagem deles podia ser uma mentira e que eles na verdade mudaram de idéia. E foi com esses pensamentos que eu liguei pra Marion na quinta feira. E logo percebi que nao tinha motivo de preocupacao. Ela ia me buscar na casa da Mathilde, como o combinado e tudo o que eu tinha que fazer era esperar. Foi a primeira vez que eu comprei flores pra alguém. Queria presentear a Mathilde de alguma forma, por toda a ajuda que ela tinha me dado. E queria dar um presente de “boas vindas” pra Marion. Na Alemanha é quase uma obrigacao levar alguma coisa quando se visita a casa de alguém. Geralmente flores ou vinho ou chocolate, mas levar algo é uma regra de etiqueta. Claro que é diferente no caso de voce ir morar na casa que está visitando. Mas também é um costume entre as au-pairs levar presentes do país de origem pra família. Como eu já tinha gastado meus presentes com as filhas da Erika e nao ia comprar tudo de novo, as flores foram uma forma de presentear a familia toda, inclusive a casa.

A Mathilde aproveitava cada momento pra me dar dicas de como agir, o que fazer, dizendo pra eu me dedicar ao trabalho, etc. E continuou dizendo até o momento em que eu me despedi dela e entrei no carro da Marion. O frio na barriga porém nao tinha passado e eu ficava o tempo todo pensando o que fazer, como agir, etc. E realmente me dediquei bastante. Procurava sempre algo pra fazer e nao esperava que ela me pedisse. E tudo estava correndo muito bem.

Achei uma pena porém eu nao ter tido oportunidade de conversar com a ex-aupair. Quando eu cheguei ela ainda estava lá e iria embora no dia seguinte. Mas nos nao ficamos no mesmo quarto, no primeiro dia eu dormi no porao (e eu sei que falando assim parece que eu dormi no chao, num lugar sujo e escuro. Mas os poroes da Alemanha sao um pouquinho diferentes. E era como um quarto mesmo, só que no porao) e quando eu acordei só a vi de relance enquanto ia ao banheiro. E depois que eu saí do banheiro ela nao estava mais lá. Pensei até se tinha acontecido alguma coisa, se tinha tido algum problema com ela. Parecia até que eles estavam evitando que nós duas tivéssemos contato e pensei que essa viagem deles poderia até ter sido inventada pra que eu nao me encontrasse com ela. Mas eu nao perguntei e na verdade até hoje nao sei se aconteceu alguma coisa. Mas acho que nao. E eu fiquei com um certo medo de entrar em assuntos de que talvez fosse melhor nao se falar a respeito. Também nao sei até hoje o que exatamente a Erika falou pra Marion. Mas talvez um dia eu tome coragem e pergunte. Aí eu conto pra vocês. 





Mala sem alca

23 03 2009

Eu nao queria falar pra Marion que eu ja tinha passado por duas familias. Se por uma so familia ja nao daria uma boa impressao, por duas entao era bem capaz de ela mudar de ideia. Alem disso, eu nao tinha ficado tempo suficiente em Schriesheim para que se considerasse que eu trabalhei la como au-pair. Tudo que eu disse pra Marion entao foi que fiquei na casa de uma amiga. O que nao eh de todo mentira, ja que a Mayara acabou se tornando uma amiga. Mas de qualquer forma eu queria evitar, pelo menos por enquanto que ela soubesse a verdade. O problema eh que, nao sei se voces se lembram, minhas malas ainda estavam no quarto da Mayara e eu precisaria de uma forca mais que sobrehumana pra transportar de uma cidade para outra duas malas gigantes e uma mala menor sem carro. Acho que ter me levado (e com isso minhas malas) ate a casa da Mathilde era o minimo que a Claudia podia ter feito, mas ja que ela nao fez, tinha que encontrar outra solucao.

A Mathilde nao parecia querer muito me levar ate la e tinha ate sugerido que eu combinasse isso com a Marion, quando eu como quem nao quer nada toquei no assunto com ela. So que ir com a Marion ate Schriesheim nao era exatamente a solucao ideal pra quem queria esconder isso dela. Ela poderia encontrar com a Claudia ou qualquer coisa assim, entao era melhor evitar. Sem contar que as roupas que eu tinha pegado para passar o fim de semana ja estavam acabando… E foi ai, na iminencia de ficar sem roupas usaveis e sem ninguem para buscar minhas malas, que a Claudia me ligou:

– O que aconteceu que ate agora voce nao veio buscar suas malas?

Expliquei pra ela que eu so ia poder mudar de familia na quinta-feira e talvez so entao pudesse buscar as malas.

– Mas nos tinhamos combinado que voce buscaria no fim de semana e ja é segunda-feira!

E com toda a amabilidade e cortesia que sao possiveis a uma praticante de Reiki, ela me disse que iria colocar as malas na recepcao do hotel e que se eu quisesse poderia ir de onibus pra la e buscar uma mala de cada vez… Muito pratico.

Desliguei o telefone, impressionada como uma pessoa pode ser tao compreensiva e sensata… A Mathilde e o Uwe estavam perto e disse pra eles o que ela tinha me falado. Acharam um absurdo, eh claro, eles colocarem sem mais nem menos minhas malas na recepcao, ainda mais porque minhas malas nao estavam trancadas. Eu deixaria elas ate abertas no quarto da Mayara, mesmo se tivessem jóias dentro (embora eu escondesse talvez as pulseiras =D) mas acho que na recepcao do hotel, nem se tivessem so roupas sujas. Como tambem tinham roupas limpas dentro delas, era melhor que eu fosse busca-las no mesmo dia. Mas nao precisei pensar em uma solucao. O Uwe ficou revoltado com a atitude da Claudia e mal eu tinha terminado de contar ele foi falando:

– Vamos buscar suas malas agora!

E ja foi pegando a chave do carro e saimos, rumo a Schriesheim.

Chegando la, olhei na recepcao e minhas malas nao estavam la. E fui bater la na casa da Claudia. Me atende uma Mayara que nao devia ter nem saido da cama naquele dia, muito menos ficado limpando banheiro. Ainda nao estava nessa epoca de gripe suina, mas se fosse hoje acho que iam isola-la do resto do mundo porque com certeza devia ser mais um caso. Coitada! A gente sabe que as au-pairs sao exploradas, mas as familias deviam ter um pouco de bom senso antes de coloca-las pra trabalhar em tal estado… Mas bom senso era o que mais falta nessa familia. E a Mayara estar doente foi o que levou a Claudia a decidir tirar as malas do quarto dela. Ela parecia achar que, se foi minha energia ruim que fez o filho dela tossir por dois dias, nada mais logico que a energia das minhas malas estar provocando a gripe da Mayara. E como a culpa nao era de um virus e sim minha, ela podia fazer a pobre trabalhar alem dos limites humanos. Ate perguntei pra Mayara se ela nao queria ser resgatada. Mas nao faltava tanto tempo pra ela ganhar a carta de alforria, entao podia esperar mais um pouco.

O bom disso (coitada da Mayara, eu tiro proveito ate da gripe dela!) é que eu pude levar minhas malas pra casa da Mathilde sem precisar pensar em outra solucao. O ruim eh que, alem da Mayara ter ficado doente, eh claro, uma das minhas malas perdeu a alca durante o transporte. Mas tambem, pobrezinha! Ela nao podia aguentar tanta pressao.





Quando as coisas comecam a dar certo

23 03 2009

Um dia depois a Marion me liga de novo. E diz que eu nao vou poder mudar pra lá na segunda. Ela disse que eles iriam viajar nessa semana e que por isso eu só poderia ir pra lá na quinta. Achei estranho eles viajarem assim, nao era férias nem nada e fiquei pensando se eles nao poderiam ter mudado de idéia. Mas resolvi acreditar neles. Fiquei preocupada por causa da Mathilde. Nao queria ficar lá muito tempo, acho que já estava abusando da boa vontade dela e talvez ela nao quisesse que eu ficasse tanto tempo lá. E falei com ela e com o marido que se eles quisessem eu poderia ir pra um albergue ou qualquer coisa assim. Ela pareceu considerar a idéia. Mas o marido disse imediatamente:

– De jeito nenhum, você pode ficar aqui.

Parece que no fim das contas ele nem estava mais tao incomodado. O lado bom de nao ir pra la na segunda eh que segunda ia comecar um programa da faculdade de Heidelberg pra introduzir os novos alunos no curso, explicando como funciona, etc. Eu nao tinha passado na prova, mas ainda tinha uma vaga nesse programa e queria ir, nem que fosse so pra fazer amigos. Provavelmente eu nao teria ido se tivesse me mudado na segunda, o que mudaria muita coisa…

Na segunda feira eles dividiram os alunos de acordo com o curso e com modalidade – se iam fazer o curso completo ou so um ou dois semestres. Cada um se apresentou e fez uma pergunta que queria saber. Na minha vez, expliquei que eu nao tinha passado na prova e queria saber se tinha alguma possibilidade de frequentar o curso sem ser estudante. As responsaveis pela nossa turma eram estudantes de alemao tambem e estrangeiras, sendo que uma delas era brasileira (e eu nunca vi alguem pra atrair brasileiros melhor do que eu… mas depois falo disso) e a outra falava portugues. Elas nao quiseram me responder na frente de todo mundo, mas deixaram para o fim do encontro. E disseram que eu poderia simplesmente ir as aulas, explicar minha situacao para os professores e perguntar se poderia frequentar as aulas. Se eles dissessem que sim, tudo bem. Simples assim. E mais ou menos isso que acontece na UFMG tambem. Geralmente os professores permitem ouvintes. Alguns mais babacas dizem que se o aluno eh ouvinte so pode ouvir e nao deixam os coitados participarem das aulas. Eu nao sabia como seria em Heidelberg, mas sabia que na universidade tem o que eles chamam de Gasthörer, que significa exatamente ouvinte. So que alem de ter que pagar por isso , o Gasthörer nao recebe nenhum tipo de certificado ou comprovante de que ele frequentou as aulas e so pode frequentar um tipo de aula, que eh como uma palestra e que na verdade ele poderia simplesmente entrar e assistir, sem que o professor nem ao menos notasse a presenca dele. As aulas que eu queria fazer eram de outro tipo, entao nao adiantaria muito ser oficialmente Gasthörer. Tecnicamente eu nao poderia frequentar as aulas em nenhuma hipotese sem ser estudante. Mas talvez os professores pensassem diferente. Acho que nao custava tentar.

Elas tambem falaram um pouco sobre as possiveis materias que os alunos “de curto periodo” (Kurzzeitstudenten) poderiam fazer, deram dicas sobre os professores e me falaram tambem de algumas materias que seriam boas pra mim. Perguntei se eu poderia tambem talvez ser socia da biblioteca da faculdade ou usar os computadores que tem la, que precisavam de senha para serem acessados. Talvez eu estivesse querendo demais, alem de curso de alemao de graca eu queria internet tambem? Mas elas foram super simpaticas e uma delas ainda me deu a senha dela o.O, que inclusive estou usando agora. O mais legal eh que eu nao pedi nada, ela simplesmente ofereceu “se quiser eu posso te dar a minha”. E pronto. Um viva para pessoas que ajudam au-pairs necessitadas que elas nunca tinham visto na vida! hip-hip hurra!

PS: talvez voces prefiram que eu escreva com suspense, que termine meus posts igual final de capitulo de novela das oito… mas nem sempre eh possivel. Sera que eu vou ter tanto ibope se na minha novela nao acontecer nada emocionante, se for a simples descricao de uma rotina sem graca? Ou sera que alguma coisa tem que dar errado, como diz o Genim, pra ficar mais interessante? Vamos ver o que acontece. Mas voces podem continuar conferindo, afinal de contas, eu nem mudei de familia ainda… :-)





A decisao

21 03 2009

No sábado eu ainda tinha outro encontro com a Iris. Ela disse que me ligaria no meio da semana e nao ligou, mas segundo a Claudia, se um horário é estabelecido na Alemanha, nao precisa ligar confirmando. E para que todas as pragas da Claudia nao caíssem sobre minha cabeca, resolvi ir assim mesmo. E minha vontade de ir era tanta que acabei me distraindo olhando alguns e-mails e perdi a hora. Depois de uns 15 minutos de atraso resolvi ligar pra ela e perguntar se eu ainda deveria ir. E qual nao foi minha surpresa quando ela disse:

– Ah… nao, meu marido nao está aqui e a au-pair canadense que tinhamos contatado deve vir mesmo.

Fiquei feliz, é claro. Nada pior que uma manha na casa da Iris pra estragar o dia da gente. Mais tarde descobri que ela tinha me mandado um e-mail avisando pra eu nao ir. Mas foi tao em cima da hora que nao deu tempo de ver antes de sair de casa. E olha que eu perdi a hora com isso. Acho que ela queria se vingar de todos os meus atrasos e bolou isso. Que bom que nao deu certo.

Fiquei perambulando um pouco pela cidade, respondi alguns e-mails. E descobri que nao aguentava mais falar com a familia de perto da Suica. Se antes de conhece-los já estava assim, imagina morando com eles?? E entao caiu a ficha de que a família que eu tinha visitado no dia anterior se encaixava perfeitamente nos meus objetivos e que eu nao precisava esperar até segunda-feira pra ligar pra eles. E foi o que eu fiz ao chegar na casa da Mathilde.

Peguei o telefone e já senti o conhecido frio na barriga, mas de forma tao intensa que pensei que fosse passar mal. Eu tinha feito minha decisao e agora tudo que eu queria era que eles me aceitassem apesar de tudo que a Erika certamente tinha falado pra eles. Acho que minha mao estava tremendo quando disquei o número e minha voz a acompanhou quando comecei a conversar com a Marion. Falei pra ela que já tinha conversado com algumas outras famílias, mas que tinha gostado muito da família dela e me decidido por ela.

– Fico feliz em ouvir isso, Carol. Mas ontem eu conversei com a Erika e ela me disse coisas muito ruins de você – prendi a respiracao para ouvir o que vinha em seguida. – mas eu acho que tudo tem dois lados e queria ouvir também o que você tem a dizer.

Nao falei muito, até porque estava nervosa demais pra isso. Nao falei mal da Erika também, porque eu nao preciso descer a esse nível. Mas expliquei que achava que foi muito cedo para a Erika ter tomado a decisao de me mandar embora e que o comeco era sempre mais difícil por serem tantas coisas diferentes em que prestar atencao.

Ela concordou comigo e disse que a Erika nunca tinha tido uma au-pair antes e que a primeira experiência também é mais difícil. E que ela conhecia a filha da Erika e ela nao era muito espontânea. E que ela tinha gostado muito de como eu conversei com o filho dela, quando os visitei.

– Entao você acha que pode dar certo?

– Sim! Eu acho que pode dar certo!

E combinamos que eu poderia mudar pra lá já na segunda feira.

E depois de desligar o telefone nao estava só respirando aliviada, mas pulando de alegria. E cheguei na cozinha abracando a Mathilde, na verdade quase dancei com ela ali. E estava realmente muito feliz. Parecia que finalmente esse pesadelo ia acabar. E eu nao vou dizer aqui que “somente parecia” ou qualquer coisa assim, como no suspense dos outros posts. Mas vou deixar terminar nessa sensacao de felicidade que eu estava sentindo na hora. Ainda que ela tenha durado tao pouco.

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Brincadeira, brincadeira…. Desculpem, nao resisti! =D





Isso nao acaba nunca?

21 03 2009

No mesmo dia em que visitei essa familia tive que voltar a Schriesheim pra pegar algumas roupas. A Mathilde nao podia ir la no dia pra buscar minhas malas, talvez fôssemos só na segunda e eu nao podia sobreviver todo esse tempo sem calcinhas limpas. Eu tinha “esquecido” de devolver a chave do quarto e aproveitei pra usá-la. Claro que teria sido muito mais educado bater na porta em vez de chegar abrindo, mas a Mayara nao se importou. Eu tinha olhado pela janela do quarto e parecia nao ter ninguém, e eu achava que a Mayara estava trabalhando no horário. Mas que bom que nao estava. Fiquei muito feliz em revê-la, mesmo que a gente tenha se encontrado no dia anterior, já sentia saudades de alguma forma. E eu fiquei mais ou menos uma hora sem saber se eu pegava minhas roupas, se conversava com a Mayara, se abria o guarda-roupa, (que obviamente nao tinha mais nenhuma roupa minha) ou se continuava conversando. E contei pra ela das famílias com que eu tinha conversado, do fatídico encontro com a Erika, da casa da Mathilde, enfim, todo o conteúdo dos últimos posts, mas com mais detalhes – o que rende uma conversa e tanto. Impressionante como um único dia pode gerar tanto assunto.

Mais tarde chega a Claudia, com a desculpa de saber como eu estava, mas na verdade só pra pegar a chave de volta. Continuamos conversando e eu já tinha desistido de demorar só uma hora lá. Acabei perdendo vários ônibus – e lembrem que os ônibus lá passam de hora em hora – mas estava muito feliz de conversar com ela de novo. E foi nesse momento de felicidade que meu celular tocou. “Ah, que droga, mais uma dessas famílias me ligando” – sei que eu devia ficar feliz com isso, mas eu simplesmente nao aguentava mais atender o telefone. Achei que devia ser de novo a família de perto da Suíca, que me ligava com frequencia e ficava sempre mais de meia hora conversando. Mas nao era. Fiquei surpresa ao ouvir a voz da Erika do outro lado. E eu só tinha a visto tao furiosa, tao alterada no dia que ela me colocou pra fora de casa. Mas foi até filosófica:

– O mundo pode ser grande, mas Heidelberg é muito pequena. E a familia que voce visitou hoje me ligou falando que viu uma foto com você e minhas meninas e as reconheceu. Eu vou ser bem clara com você: eu nao quero que voce divulgue fotos das minhas filhas na internet. É isso.

tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu

Curta e grossa, sem direito a defesa. Percebi todas as modulacoes de voz, a raiva contida, a vontade de explodir em um grito e a sensatez de manter sempre o controle, qualidade inerente a uma pessoa normal.

Mal pude responder que eu nao havia divulgado a foto das meninas, só havia mandado por e-mail pra uma das agências que ela mesma tinha recomendado e que exigia fotos com criancas. E essa foto nao era nem de longe a melhor que eu tinha, mas a única que consegui. Nao era também nenhuma foto pornográfica, na verdade acho que elas nunca tinham tirado uma foto tao vestidas como naquela. Nao dava nem pra ver o rosto direito, de tanta roupa… A maioria das famílias colocam fotos dos seus filhos nos sites de au-pairs, nao era uma coisa de outro mundo e nenhum motivo pra ficar tao alterada. Talvez a exposicao precoce das filhas pudesse prejudicar o desenvolvimento normal delas. Ou talvez ela simplesmente nao quisesse que as filhas fossem vistas associadas com pessoas do meu tipo. Vai saber…

Só sei que esse telefonema me trouxe uma preocupacao a mais. Entao a Marion tinha ligado pra Erika… O que será que elas tinham conversado? Depois da visita à casa da Erika, tive a certeza de que ela nao iria continuar falando o que combinamos pras famílias. E o que eu poderia esperar que ela tivesse falado estando tao furiosa comigo? “Ah, ela divulgou as fotos das minhas preciosas filhas sem minha autorizacao, mas tirando isso é uma menina de ouro!”

Claro que nao. No mínimo passou uma versao pior do que foi passada pra Claudia. O que era bastante preocupante.

Nao consegui ficar muito tempo em Schriesheim depois disso. Fomos um pouco pro bar do hotel, e depois de conversas, sucos, despedidas e de descobrir que eu tinha que esperar mais uma hora até o próximo ônibus,  acabei pegando uma carona com o cozinheiro do hotel, que ficou com tanta pena de mim depois de ouvir minha história que acabou me levando até em casa e dizendo que podia me ajudar a procurar uma família.

– Eu estou fazendo isso pra você, mas eu nao tenho nenhum interesse nisso. – ele fez questao de dizer – Eu sou casado, tenho esposa. Só quero ajudar.

Nao tinha pensado nisso (apesar de ter demorado um pouco a aceitar a carona), mas achei legal ele dizer. E me deixou em casa, em seguranca. E a minha única preocupacao, depois de lembrar do telefonema da Erika era “o que vai acontecer agora?”