O evento

28 06 2009

Leia o post anterior aqui

Quem estava coordenando a organizacao desse evento junto com o pessoal da basf no Brasil era uma moca alema chamada Sarah, que também trabalha para a Basf. Claro que dizer que alguém é alemao nao ajuda muita coisa, já que eu moro atualmente na terra deles. Mas além de ser alema, a Sarah tem um jeito bastante assim… alemao de ser. E seria até um pouquinho brasileira comparada com o alemao mais fanático. O que significa que comparando com os brasileiros ela é de qualquer forma alema demais. E como toda boa alema, ela fez questao de primar pela qualidade e eficiência do evento de uma forma que dificilmente outro alemao conseguiria.

Toda essa meticulosidade fez com que se incluíssem no programa estadia nos melhores hotéis, jantares de luxo nos melhores restaurantes, passeios cuidadosamente planejados, apresentacoes culturais exclusivas, presenca de membros da empresa com bastante destaque etc, etc, etc. Fiquei realmente impressionada ao ver o que estava programado para essa semana. Todas as atividades com horários exatos e precisamente calculados, todas as tarefas de cada membro da equipe minuciosamente descritas, todos os planos sobressalentes caso o que foi primeiramente planejado nao desse certo. Entre minhas funcoes nesse evento estava cuidar para que as coisas nao fossem assim… alemas demais e evitar que os brasileiros muitas vezes alérgicos a excesso de organizacao nao se assustassem com o andamento das coisas. Eu estava com um pouco de medo na verdade. Nunca tinha feito nada do tipo e nunca tinha lidado com tanta gente importante, ao mesmo tempo. Nao sabia como eles seriam, nao sabia como reagir, nao tinha muita idéia do que eu deveria fazer e nao conhecia ninguém do grupo convidado nem sabia muito sobre eles. De qualquer forma, nao seria um encontro solene de diretores de empresas, já que todos os homens levariam as esposas como acompanhantes… E nada como um toque feminino pra melhorar o astral de qualquer reuniao de negócios. Mas com ou sem esposas, tudo o que eu sabia sobre eles é que eram clientes importantes da Basf no Brasil, na área de agricultura. E na época que eu fiquei sabendo do evento eu nao sabia que a Basf produzia algo além de fitas cassetes. Depois fui descobrir que essa empresa tem uma grande importância em um mercado que é politica-corretamente chamado de “protecao de cultivos” e que os tais clientes importantes eram nada menos que os maiores compradores e/ou distribuidores desses produtos no Brasil. O que significa, como você já deve ter imaginado, alguns dos grandes latifundiários da nossa terrinha. Nao, eles nao devem ter pouco dinheiro.

Nao era só eu que estava ansiosa. Embora a Sarah estivesse em contato com alguns dos convidados há alguns meses, eles nao se conheciam pessoalmente, entao ela nao sabia exatamente o que esperar. E foi nesse clima de ansiedade e expectativa que fomos receber os convidados no aeroporto. Coincidentemente eles viajaram no mesmo vôo que eu quando vim pra cá, mesmo número, mesmo horário, mesma companhia, mesma cidade de origem. A única diferenca era a classe, que definitivamente nao era a mesma. A diferenca também é que o meu vôo foi bastante pontual, enquanto o deles, contrariando todos os padroes alemaes teve um atraso de cerca de uma hora. Brasileiros já sao acostumados com isso, mas a Sarah, coitada, se remexia de impaciência, pensando no que fazer, no que alterar do programa pra que desse tudo certo. Depois ficamos sabendo que o tal atraso aconteceu por causa de um engarrafamento em Sao Paulo, de onde o vôo partiu. A viagem foi na véspera do feriado de Corpus Christi e Sao Paulo para variar, estava engarrafada. Normalmente a companhia aérea nao adiaria o vôo por causa do atraso de passageiros. E o leitor pode pensar que os convidados sao tao importantes que a Tam até abriu uma excessao… Mas na verdade nao. O caso é que o engarrafamento estava tao grande que atingiu pessoas muito mais importantes para a realizacao da viagem do que qualquer convidado da Basf. Como o piloto por exemplo, que também foi engarrafado. E depois de todos sentados, garrafas (dessa vez de champagne) abertas, cintos apertados e umas 10 horas de viagem, puderam finalmente chegar ao seu destino, onde os esperava uma Alemanha calorosa, na medida do possível, com seus 17°, sem engarrafamentos. Ficamos lá, com as plaquinhas da Basf esperando os convidados e tentando reconhecer em cada rosto que passava pelo portao um certo sorriso brasileiro. Mas acho que um sorriso, mesmo que brasileiro seria difícil depois de tantas horas de viagem. Quando eles finalmente chegaram, estavam já todos juntos e fomos com eles para o ônibus, já a postos para nos transportar para o hotel.

A primeira parte do evento seria em Heidelberg e nas redondezas. Apesar de eu morar nessa cidade e nao muito longe do hotel onde os convidados ficariam, achou-se por bem que eu também ficasse no hotel, tornando o contato com os convidados mais fácil. Claro que eu nao achei ruim. E fiquei em um dos únicos hotéis da Alemanha a fazer parte dos hotéis que compoem os “pequenos hotéis luxuosos do mundo”. A minha suíte nao era exatamente a melhor do hotel, mas conseguiu ser maior do que o quarto onde moro, que tem banheiro, cozinha e varanda. Uma diária nessa modesta suíte, que deveria ser a mais barata, custa, conforme afixado na porta do guarda roupa dela, nada menos que 295 €, sem café da manha.  Só pra vocês terem uma idéia da coisa. O outro hotel em que ficaríamos em Berlim, o Ritz-Carlton, também nao deixava por menos no luxo, conforto e atendimento. E é claro que todos nós da organizacao imaginamos que os convidados estariam já acostumados com isso. Mas nao era bem assim. Fiquei surpresa ao ver que eles nao eram arrogantes como eu pensei que seriam. Pelo menos nao todos. Eram na maioria pessoas simples e descontraídas, o que tornou a viagem muito mais agradável. O grupo já tinha viajado junto nos anos anteriores com a basf, que sempre organiza essas viagens. Mas eles se demonstraram até impressionados – embora logicamente em um grau muito inferior ao meu – com o luxo dos hotéis. Um casal me disse que nunca tinham viajado de primeira classe antes de entrarem para o grupo e que normalmente ainda viajam de classe econômica. Mas que você só acha que a classe econômica é boa antes de conhecer a primeira classe. Depois que você experimenta uma vez, a outra nunca será a mesma coisa. E acho que deu pra ficar mal acostumada com o tratamento. Nos restaurantes sempre recebi bastante atencao, até pelo fato de ser vegetariana, que em momento algum foi um problema. Os garcons sempre sabiam exatamente onde eu estava sentada e nao tive que devolver o prato nem uma vez. Minha experiência no Brasil é de além de precisar perguntar umas três vezes para pessoas diferentes se o prato x tem carne ou nao e explicar que frango, peixe, presunto e formigas fazem parte da categoria “carne”, ter que garantir pro garcon que nao, eu nao quero provar nem um pouquinho e em casos mais extremos simular um ataque alérgico – ou cardíaco, dependendo da gravidade – caso eles insistam e mastigar finalmente relativamente feliz minha salada de alface sem tempero – única opcao disponível no restaurante isenta de bichinhos, embora eu ainda corra o risco de me deparar com uma lagartinha passeando pela salada.

Mas qualquer desses empecilhos tao frequentes no Brasil nao foram nenhum problema durante o evento. Claro que, nao acostumada, eu ainda perguntava para o garcom se aquele prato realmente nao tinha carne. Um deles me disse:

– Agora você nao precisa preocupar com nada. Apenas sente-se e aprecie o jantar que nós cuidamos de todo o resto.

E tomavam o cuidado nao só de eliminar a carne, mas de elaborar um prato totalmente diferente especialmente para mim. E parece que eles até ficavam mais felizes de me atender por eu ser vegetariana.

Mas acho que a melhor parte do evento nao foi o atendimento ou o conforto, mas as pessoas que conheci. Pela idade, eu seria mais ou menos uma filha pra eles. E muitos já me chamavam no final da semana de Carolzinha ou de Mineirinha (lembrando que quando falo “eles” me refiro aos casais e que esse tratamento nao tem nenhuma intencao maliciosa, como o leitor poderia pensar. Pelo menos nenhuma que eu saiba.) e falavam que iam me levar pro Brasil, etc… Essas coisas que brasileiro fala. E eu estava sentindo falta desse “calor humano” brasileiro, em um país em que as pessoas nao se tocam e quando tocam pedem desculpas. Por um momento me senti em casa. E o término da viagem deixou comigo um certo gostinho de saudade.

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Prolixidade

24 06 2009

Pra variar um pouquinho, resolvi contar detalhes demais do evento, por isso está demorando. Acho que vai ter mais de um capítulo também, mas fazer o quê! É o que dá ser prolixa. Nunca consegui fazer uma redacao de escola respeitando o limite de linhas sem ter que espremer muito a letra. Sempre ficava também por último e às vezes ainda dava um jeitinho de ficar além do tempo pra conseguir escrever mais. Como da vez que eu fingi que estava com LER na época das avaliacoes bimestrais. E o meu lado virginiana se manifesta nessas horas, querendo que saia tudo pefeito, embora dificilmente eu consiga manter meu quarto arrumado. Segundo minha professora de leitura artística oral aqui na  Terra da Batata, isso é culpa do meu ascendente em Câncer, que também nao me deixa escolher as coisas com facilidade. Mas eu espero que a conjuntura astral dessa semana esteja boa e que eu consiga terminar logo o(s) posts que comecei antes de criar outro muito maior do que o planejado que nao tem nada a ver com o assunto. O que será que a Tia Tiza tem a dizer sobre isso?





Brasilien fica na Alemanha

17 06 2009

Aqui estou de volta, depois de uma semana do que faz muito mais jus ao título “aventura de férias” do que o outro post. Claro que vocês nao tinham a menor nocao do que estava acontecendo, porque fiz questao de nao contar pra quase ninguém. Só falei pro meu namorado porque eu ligo quase todo dia pra ele e se eu ficasse uma semana sem ligar era capaz de ele acionar a polícia federal ou qualquer coisa assim… E na verdade eu tinha planejado contar gradativamente sobre isso, falar como eu fiquei sabendo, os encontros e preparativos que se sucederam até que chegasse finalmente na coisa propriamente dita. Mas pra variar um pouquinho, nao deu tempo. A coisa acabou acontecendo, terminando e eu só vou contar, como aliás muito ou tudo do que eu escrevo aqui, depois de tudo acabado. Mas vou tentar resumir um pouco do que eu tinha planejado escrever em muitos posts e transformar em um só. Vamos ver se dá certo.

Eu acho que eu nao cheguei a comentar ainda a quantidade de brasileiros que eu conheco casualmente aqui na Alemanha. Das duas uma: ou aqui tem uma quantidade de brasileiros acima do normal ou eu tenho algum tipo de magnetismo que me faz atrair todo tipo de pessoa que tem alguma coisa a ver com o Brasil. Eu nao passo uma semana sem conhecer uma pessoa assim, a ponto de irritar. Eu chego feliz pra aula de danca, comeco a dancar com algum rapazinho e três palavras ou dois passos depois vem a famosa pergunta: Você é brasileira? E a minha reacao típica: Como é que você sabe? Porque o brasileiro nao é o tipo de povo que se pode identificar facilmente como orientais ou nórdicos. Somos uma mistura tao grande que qualquer um poderia ser brasileiro, mesmo que tenha tracos orientais. Também nao acho tao fácil identificar o sotaque. Quero dizer, consigo identificar um italiano ou um americano falando alemao, mas nao sei definir bem como é o sotaque brasileiro. Talvez porque seja o meu sotaque também. Talvez pros outros brasileiros seja mais fácil identificar o sotaque do que pra mim, mas o fato é que essa cena já se repetiu tantas vezes que eu tenho vontade de sair correndo quando me fazem a tal pergunta. Isso sem contar nas vezes que eu vi brasileiros na rua, turistas, provavelmente, conversando freneticamente em brasileiro e nao me preocupei em parar pra ter certeza, já me bastam os outros acasos.

Já aconteceu por exemplo, quando eu fui fazer a prova da faculdade (dsh) de eu conhecer um brasileiro porque ele resolveu preencher a ficha dele exatamente no mesmo momento e na mesma mesa em que eu preenchia a minha. Trocamos umas duas palavras, o que foi até iniciativa minha e pronto, morreu bahia e nao nos vimos mais. Isso nesse dia. No dia da prova oral eis que eu vejo ele de novo, já um pouco impaciente, por saber da quantidade de brasileiros por metro quadrado e querendo conversar em alemao pra variar. Acabou que nós fomos selecionados como dupla pra prova oral (o que nao é escolhido por nacionalidade, foi realmente coincidência) e realmente achei que eu nao o encontraria mais, embora ele tenha resolvido pegar o resultado da prova no mesmo dia que eu e tenha brotado do asfalto no meu caminho mais umas duas vezes. Mas a importância dele se restringe a essas coincidências e eu já estou desviando um pouquinho do assunto. Só achei que seria interessante colocar isso aqui. Difícil acreditar que seja coincidência, mas foi. (embora eu ainda nao possa descartar a teoria do íma).

Mas eu achava que esses encontros com brasileiros se limitariam às coincidências de rua. Na minha primeira família, como vocês sabem, a mae era brasileira. Na segunda família a au-pair era brasileira. E na terceira família? Achei que ela realmente estava isenta de qualquer relacao com o Brasil. Mas eis que um dia eu chego em casa e encontro uma moca diferente, que eu nunca tinha visto na vida sentada à mesa com minha Gast. E eis que essa moca fala: “oi, tudo bem?” – e é claro que vocês estavam esperando uma fala muito mais significativa. E esse é o problema de traduzir todos os diálogos, que normalmente sao em alemao. Mas esse foi em português mesmo. E eu assustei. Ela completou: sim, sim, eu falo português! – toda feliz coitada, nao sabendo que eu estava já no ponto de fugir a qualquer mencao de brasileiros. E ela disse que era a irma da minha gast e que foi casada com um brasileiro, por isso falava português… Mas nao, eu nao saí correndo. E até gostei dela. E nao imaginava que justamente ela ia mudar um pouquinho o meu destino, dois meses depois.

Ela trabalha na Basf, em um setor relacionado a línguas e eventos, que nao sei definir muito bem. E um belo dia, quando eu nao estava em casa, ela veio aqui e conversou com minha gast sobre um evento que aconteceria em meados de junho. A Basf receberia um grupo de brasileiros aqui na Alemanha para fazer um passeio na regiao de Heidelberg e em Berlim. E uma das funcoes dela era encontrar uma outra pessoa, de preferência brasileira, que falasse alemao, para compor a equipe que recepcionaria os brasileiros. E perguntou cuidadosamente pra minha gast se eu por acaso nao conheceria ninguém assim. E ela respondeu imediatamente, o que me faz gostar ainda mais dela:

– Se ela conhece alguém? Mas porque nao ela mesma??

E é claro que eu aceitei. Marcamos alguns encontros para resolver os detalhes do evento, tirei alguns dias de férias para poder participar e fui, chegando somente ontem.

(desenterrando um assunto que já estava digamos… enterrado, mas que nao encontraria outra oportunidade pra falar dele além dessa… em um dos encontros com a Petra, a irma (até tento nao citar nomes, mas chega num ponto que fica confuso demais. Mas eu nao vou falar mal dela) conversamos sobre minha primeira família e em um determinado ponto da conversa ela faz uma cara de assustada e diz:

– por acaso ela chama Erika?

Claro que quem assustou foi eu depois dessa pergunta. Acabei descobrindo que minha adorada primeira gast estudou com o ex-marido da Petra. E que ele tinha uma impressao bastante peculiar sobre ela, o que fez com que a Petra se lembrasse dela apesar de nao tê-la conhecido pessoalmente:

– Complicada, muito complicada.

No mesmo dia conto a coincidência pra minha Gast e ela me conta do encontro das duas na reuniao da escola:

– Eu acho que ela é bem… complicada.

E eu pude dormir feliz com a certeza de que nao sou eu quem precisa de tratamento.)

E é claro que pra variar um pouquinho eu me estendi demais nessa miscelânea de assuntos e vou ter que deixar pra outro post a descricao detalhada do evento. Mas vale a pena esperar.





Aventura de férias

10 06 2009

Uma das minhas ilusoes de au-pair era a imagem da au-pair totalmente integrada à família, participando das suas atividades de lazer, sendo tratada realmente como uma irma mais velha e logicamente, viajando junto com a família. Sempre achei que na casa da Erika isso nao acontecia porque afinal de contas era a Erika. Mas nao é bem assim. É lógico que nao tem comparacao as duas famílias e que aqui eu me sinto incomparavelmente melhor do que na casa dela. Mas nada é perfeito. E tenho que admitir que foi uma decepcao muito grande perceber que nao, eu nao seria convidada todas as vezes que eles saíam, pior: eu raramente seria convidada e era bem provável que eu teria que ficar em casa cuidando das criancas, ou do bebê ou do cachorro. Mas pode ser até pior, porque às vezes eles levam o cachorro, que na verdade é ela. E eu fico. Nao pretendo escrever um post depressivo, nem ficar me lamentando, mas eu nao consigo evitar as comparacoes inevitáveis que surgem quando a cachorra é convidada e eles nem falam pra onde estao indo. Nao falam pra mim. Ela provavelmente sabe. E eu me pergunto quem faz mais parte dessa família, se eu ou ela e a resposta é óbvia e clara, mas nem por isso muito digerível.

E foi assim que nas últimas férias, que aqui sao no meio de maio, eles foram viajar e me deixaram aqui e nem o cachorro me fez companhia. Passaram um fim de semana na casa de um tio na floresta negra (nao, isso nao é só o nome de uma sobremesa…), e eu acho que nao custaria nada ter me levado também, já que nao teriam gastos extras com hospedagem ou transporte. Mas nao levaram. Depois foram pra Áustria e ficaram uma semana lá, deixando pra mim uma listinha com tarefas a serem feitas, entre elas, claro, passear com a cachorra, que dessa vez também nao foi convidada. Fico pensando às vezes que se toda vez que eles chegassem eu fosse correndo até eles, pulasse e latisse, eles talvez me chamassem pra próxima viagem. Mas acho que o mais provável seria eu acabar no hospício ou pior, no vôo mais próximo, o que me leva a procurar outras opcoes. E minhas opcoes eram simplesmente tentar me divertir – de preferência nao fazendo compras – enquanto eles estavam fora. Tentei encontrar com a Mayara e depois de alguns desencontros e muitos tomates acabou dando certo (e eu falo mais disso depois, ela merece um post exclusivo). Queria ter ido pra Mannheim com ela, que é a maior cidade aqui das redondezas e pra onde a gente nao tinha ido juntas ainda. Que bom – pensa o leitor – ela já está comecando a pensar em outras coisas além de fazer compras!! Que evolucao! Mal sabe o ingênuo leitor que uma das principais atracoes de Mannheim nao sao os parques e monumentos históricos, mas o centro de compras. E que essa cidade é muito barata em comparacao com Heidelberg, que é uma das mais caras da Alemanha (e ainda assim eu consigo boas ofertas! Eu sou boa mesmo nisso…)

Enfim, mesmo nao tendo ido pra Mannheim com ela, nao me saiu da cabeca a idéia de ir pra lá. A última vez que eu tinha ido pra lá foi quando eu comprei meu notebook (além de umas outras bagatelas que acabaram saindo o mesmo preco dele) e exageros à parte e depois de receber o salário seguinte, já estava com saudade de passear por outras lojas que nao as que os meus pés já decoraram o caminho em Heidelberg. Só que apesar de ter me tornado uma consumista compulsiva, nao abandonei minha característica primeira de mao de vaca. E o fato é que a passagem pra Mannheim custa nada menos que 9 dinheuros, o que daria pra comprar duas bolsas, duas blusas ou um casaco, dependendo do que estivesse em promocao. E eu na verdade nunca uso o transporte público daqui, porque tenho uma bicicleta e apesar de todos os seus defeitos, de já ter me jogado no chao no mínimo três vezes, o que decididamente nao foi culpa (apenas) da inabilidade da ciclista, e de, em consequencia do último tombo, eu ainda nao poder movimentar tao bem o meu braco sem que isso me cause uma dor tao forte que eu até esqueca porque é que eu o estava movimentando (e dessa vez sem exageros), apesar de tudo isso ela me serve muito bem. E daí eu tive a brilhante idéia de juntar o útil e nem tao agradável assim ao agradável e muito útil. Ou seja: ir pra Mannheim fazer compras de bicicleta. Essa seria uma forma também de me redimir comigo mesma, por ter saído só pra fazer compras. Afinal, os 22 km pra ir e pra voltar seriam só em si um passeio e tanto. Eu estava com essa idéia desde que a ida pra lá com a Mayara nao deu certo (e isso foi no dia 23 de maio, sábado, pra situar vocês nas datas). Planejei entao que no próximo sábado, dia 30, pra comemorar meu segundo aniversário de namoro em grande estilo, eu faria esse passeio. Nao contava com o fato de que na quinta feira eu levaria o pior tombo de bicicleta da minha vida, chegando a precisar de ajuda pra levantar e sem forca suficiente no braco nem pra segurar o guidao, totalmente molhada e suja porque estava chovendo e eu fui escolher logo em cima duma poca d’água pra cair, tendo que empurrar a bicicleta ladeira acima até em casa e dando gracas a deus pelo fato do meu gastvater ser ortopedista e, como eu descobri logo depois, especialista em ombros e sabendo que mesmo se ele nao fosse suficiente pra resolver meu problema, minha Gastmutter era fisioterapeuta… Mas eu nao precisei dos servicos dela. Sobrevivi à base de Voltaren e compressas de gelo e em um ou dois dias meu braco já estava melhor (embora eu ainda amaldicoasse até a quinta geracao dos gasts quando tentava lavar as janelas – uma das tarefas da listinha – naquelas condicoes). Qualquer pessoa sensata nesse estado sabe que o melhor a fazer é ficar bastante tempo em repouso, nao fazer muito esforco, seguir rigorosamente as prescricoes médicas com compressas de gelo e três voltarens por dia. Mas – e nesse caso certamente até a Erika concordaria comigo – eu nao sou lá muito sensata. E mal consegui fazer o movimento de levantar o braco e segurar o guidao e upa-le-le! Lá vai a Carol de bicicleta pra Mannheim.

Claro que todo mundo sabe que antes de partir numa aventura dessas é necessário olhar no mapa, ver o melhor caminho a ser feito, levar comida, água e cartao de crédito. Ou seja, planejar o mínimo necessário, o que normalmente eu faco até demais. E talvez tenha sido o efeito do voltaren ou a lua ou a felicidade pelos dois anos de namoro completos ou a ânsia de fazer compras, mas dessa vez nao. Cheguei a olhar rapidinho no googlemaps e vi que se eu pegasse a rua tal e seguisse ela direto, um dia eu chegava em Mannheim. E tendo um senso de direcao perfeito como o meu, quem precisava de mapas? Afinal, era só seguir as placas e mais cedo ou mais tarde eu chegava lá. E lá fui eu seguindo as placas, admirando a paisagem, cantarolando enquanto pedalava pelos campos floridos. Nem me preocupei quando saí da rua que eu tinha planejado seguir. Lá ainda tinha uma placa indicando Mannheim e era só continuar nessa direcao. E foi seguindo essas placas que eu conheci o que os alemaes chamam de auto-bahn ou auto-pista ou rodovia com limite de velocidade bem acima dos padroes brasileiros. Talvez eu deveria ter pensado, ao me deparar com a tal pista: ok, caminho errado, meia volta volver e eu ainda acho hoje a ciclovia pra Mannheim. Mas minha reacao foi bem diferente… Caramba, eu to na autobahn! Doidimais, vambora. E lá fui eu na minha humilde bicicleta cor de rosa apostar corrida com os carros a 150 por hora. Eu estava seguindo por uma espécie de acostamento, entao nao tinha problema, né? Tava na direcao certa… Só achava desagradável todo carro passar buzinando do meu lado. Fora isso era até legal. E estava assim tranquila pedalando quando ouvi uma outra buzina, mas dessa vez bem mas perto. Tinha um carro atrás de mim no acostamento buzinando igual louco. Será que ele queria acostar? Continuei em frente pra que ele tivesse espaco suficiente, mas ele nao parava com a buzina. Entao parei, pronta pra xingar o engracadinho. E tive que engolir em seco quando virei pra trás.

Era a polícia.  E o bom é que eu nem precisei dar uma de boba nem nada. Na ocasiao eu realmente era a boba. Ou louca, de ter pedalado na autobahn, correndo risco de nunca mais poder fazer compras… Voce nao sabe que é proibido nao?? Pois é, é proibido. Por isso que os carros passavam buzinando, claro! Pra me avisar. E eu achando que estava finalmente despertando o interesse dos alemaes… Os policiais foram gentis comigo, me ensinaram sobre as placas de trânsito e eu descobri que as ruas normais têm placas amarelas e pode-se andar de bicicleta, mas a autobahn tem placas azuis e só carros têm a permissao pra dirigir nela. Ou seja se você estiver de carro, pode correr. Se estiver a pé ou de bicicleta, saia correndo na direcao oposta. Acabou que eu ganhei uma carona até Mannheim. E nao pra prisao. Somente uma advertência que eles disseram que mandariam pro meu endereco e que ate hoje nao chegou. Mas nao, nao vou precisar pagar nada nem vou ser deportada por causa disso.

Descobri em Mannheim que eu tinha realmente escolhido o dia certo pra ir pra lá. Tinha festa na cidade, com várias barraquinhas de comidas, música ao vivo, bem legal. E as lojas que nao podiam faltar estavam lá, todas abertas, esperando ansiosas por mim. Mas pra mostrar pra vocês como eu nao sou movida só a promocoes, participei um pouquinho da festa sim. Ouvi algumas músicas, fiz um lanche e o meu ombro nem tava doendo tanto assim mais. E na hora de voltar pra casa, tomei o cuidado de nao cruzar com nenhuma plaquinha azul e fui seguindo o rio Neckar, que liga as duas cidades, passando pelos campos. E nem liguei de ter caído de novo bem em cima de uma poca de lama (poxa, mas essa menina dá sorte mesmo). Cheguei um pouquinho suja em casa, mas nada que um banho e uma cuidadosa limpeza das minhas sapatilhas outrora brancas nao resolva. E um bom descanso, depois de mais de 45 km e cerca de 4 horas pedalando.





sao as águas de marco fechando o verao…

7 06 2009

Engracado, agora que eu “atualizei” o blog, to com vontade de contar uns causos mais antigos…

Bem, seguindo a lista de posts que eu tinha feito, o próximo assunto que eu teria pra falar agora seria sobre o mes de marco. Porque marco?? o leitor se pergunta aflito – você já nao tinha atualizado, agora vai querer voltar tudo atrás de novo?? Sim, mas na verdade nao é exatamente um caso, é simplesmente uma observacao filosófica sobre alguns acontecimentos da minha vida absolutamente absurda e inútil, o que significa que eu vou falar e refalar sobre um assunto que nao interessa a ninguém exceto a mim mesma e que nao passa na verdade de um monte de constatacoes infundadas com um pseudo fundo de verdade. E isso quer dizer que se você quiser parar de ler nesse exato momento eu vou entender perfeitamente e nao vou achar que você gosta menos de mim por causa disso. E talvez voce passe até a gostar menos se por um acaso continuar a ler (nao por que eu vou revelar lados muito mais sombrios da minha personalidade do que o consumismo desenfreado, mas porque simplesmente ao terminar a leitura talvez você pare e exclame: nao acredito que eu perdi meu precioso tempo lendo essa besteira! ). Entao, pra evitar exclamacoes do tipo e todas as inimizades por elas desencadeadas, aviso que o seguinte post é talvez o mais inútil e absurdo que eu já escrevi aqui (e talvez por isso mesmo nao consigo deixar de escrever) e que você nao deve se sentir de forma alguma obrigado a seguir em frente.

Bem, a escolha foi sua.

Nao me lembro exatamente quando eu comecei a marcar minha vida por datas. Talvez tenha sido na fase que eu descobri um significado muito maior para alguns períodos do ano do que o que normalmente é atribuído a eles. E talvez nessa época, que coincide exatamente com o meu período místico, de que vira e mexe eu falo por aqui, mas nunca explico direito, eu me sentisse tao incrivelmente especial na minha grandiosa insignificância que comecei a observar a coincidência de alguns acontecimentos relativamente importantes ou em alguns casos muito importantes na minha vida com essas tais datas. E comecei a perceber como algumas coisas aparentemente tinham a tendência de se repetir em certas épocas do ano. Passado o período místico, digamos que eu nao me sinto mais tao especial devido a essas coincidências, mas elas ainda acontecem. E talvez o que se passe de diferente comigo é que minha vida apresenta um número de acontecimentos importantes acima do normal, o que é suficiente pra que se estabeleca um padrao entre eles. E eu sei que nessa frase eu passei a impressao de achar que eu sou mais importante do que todo o resto da humanidade, mas eu me explico: Acredito que a maioria dos meus leitores tenha uma certa rotina ou que sua vida se estabeleca dentro de alguns parâmetros: você tem um emprego, se já tiver idade suficiente pra isso, ou um estágio, se já está na faculdade, ou simplesmente ainda estuda. Você segue uma religiao ou uma filosofia qualquer ou nao segue nada. Você tem um namorado ou namorada ou está solteiro, mas de qualquer forma tem amigos e tem sua família. Dentro desses parâmetros se estabelece uma rotina: voce levanta de manha (ou mesmo que nao seja tao de manha assim, quando eu lembro de uma certa amiga gaúcha…), vai pra escola/trabalho, faz alguma atividade regular ou encontra com alguém ou volta pra casa. A rotina se baseia nisso e, por ser rotina tem a tendência de permanecer assim por um tempo considerável. Pelo menos na maioria dos casos. No meu nao. Claro que eu também tenho rotinas, mas acho que elas mudam com uma frequencia muito maior do que o esperado. Ou no mínimo já mudaram em uma proporcao muito exagerada pra muito pouco tempo de vida, considerando que eu nao sou tao velha assim. Mas chega de abstracoes e vamos a exemplos concretos.

Acho que talvez tudo tenha comecado no meu aniversário de 16 anos. Porque exatamente nesse dia eu dei o meu primeiro beijo. Um pouquinho velha pros parâmetros atuais, eu sei. Mas eu queria que esse momento fosse digamos… especial. E de certa forma foi. Apesar de nao ter durado nem um mês foi a primeira coisa que eu pude chamar de namoro. Foi também nessa época que eu tomei a decisao que mudou completamente a minha vida, de entrar pro Colégio Militar. Nada seria como é hoje se eu nao tivesse tomado essa decisao, feito a inscricao pra prova no último dia possível e conseguido, ao contrário de todas as expectativas, me classificar entre as dez vagas existentes. E se você já nao tivesse entrado na minha vida antes desse mês, provavelmente nunca mais entraria, independente de onde tenhamos nos conhecido, o que dá à minha decisao uma importância muito maior do que ao tal beijo (e na verdade provavelmente eu nao teria tomado essa decisao  se nesse dia nao tivesse chovido, o que me faz voltar àquele tema de destino, efeito borboleta, etc. Mas aí eu já me estenderia demais). E talvez você esteja se perguntando porque é que eu estou falando de setembro se o tema inicial era o mês de marco. Acontece que é justamente nesses dois meses que se concentram algumas mudancas muito importantes na minha vida. Setembro, além de me deixar mais velha, também tem outra peculiaridade (nao, nao é o 7 de setembro), que é a mudanca de estacao, do inverno pra primavera, na época muito mais significativa pra mim do que hoje. O outro equinócio é justamente em marco, na mudanca do verao para o outono. E é também nessa época o início do ano astrológico, que comeca no signo de áries. Sei que isso já tá ficando místico demais, mas pra explicar esses fenômenos, eu tenho mesmo que falar isso tudo (e olha que eu nem estou descrevendo com detalhes as simbologias…)

Avancando mais um pouquinho no tempo, em marco do próximo ano (mais precisamente no exato dia da mudanca de estacao) foi o comeco de um relacionamento muito importante, que também mudou minha vida em vários aspectos. Esse mesmo relacionamento acaba terminando em setembro do mesmo ano e é também em setembro que acontece uma importante mudanca de pensamento ou de perspectiva em mim, o que acaba levando a uma mudanca radical de filosofia de vida. No próximo marco (e também exatamente no dia do equinócio), já com outra filosofia, outro início de relacionamento também bastante importante, o qual entre idas e vindas e voltas também termina em setembro do mesmo ano, mês em que eu comeco oficialmente o que eu poderia chamar de meu primeiro emprego nao-oficial. Marco seguinte acontece a retomada de contato com uma pessoa muito especial que eu nao via já há algum tempo e que também muda bastante o rumo das coisas. Em setembro, nada com data muito marcada, mas entre as coisas que aconteceram nessa época estao a saída do que eu poderia chamar de  meu primeiro emprego quase oficial, uma outra mudanca de filosofia, embora nao tao radical quanto a anterior e o comeco de um certo interesse por uma pessoa que eu nunca pensei que fosse me interessar. Marco traz o término do relacionamento com essa mesma pessoa, comecado em dezembro e nenhum novo relacionamento, embora tenha sido nesse mês também que eu entrei na faculdade (o que eu nao poderia chamar de destino, já que a Federal sempre comeca as aulas nessa época). Mas em setembro desse ano comeca um relacionamento muito importante, além de ter sido o mês em que eu comecei o meu primeiro emprego oficial, fugi de casa e comecei o que me levaria a tentar abrir minha primeira empresa. O próximo marco é turbulento entre términos, comecos, vindas e voltas e compra das minhas primeiras acoes (ou foi em fevereiro?). Já em setembro acontece uma mudanca profissional e eu vou pro meu primeiro pré-emprego oficial, sendo que em marco do próximo ano acontece a transformacao de pré-emprego para emprego propriamente dito, embora tenha sido também em marco que eu decidi nunca trabalhar nele. Em setembro eu tomo a decisao importante de ir trabalhar em uma certa família na Alemanha em vez de me tornar estudante em Colônia, o que também era uma possibilidade. E em marco desse ano, acho que eu nao preciso descrever a quantidade de mudancas que ocorreram… e nao sei se vocês repararam na data dos posts, mas a decisao de ir para a família em que estou agora foi tomada exatamente no dia do equinócio (que aqui é de  primavera). Coincidência?

Nao sei até que ponto essa regra se aplica. E nao sei até que ponto os meus pensamentos influenciam pra que essas mudancas acontecam exaamente nessas datas. Nao sei se elas realmente acontecem “por acaso” ou se só acontecem nessas épocas porque eu já espero que acontecam. Mas essa coisa de datas influenciou até pra que eu terminasse um namoro uma vez, porque “ele já terminaria de qualquer jeito mesmo…”. Por sorte eu percebi a tempo o grande erro que eu estava cometendo. E vocês podem reparar que a partir de certo ponto da minha narracao nao tem mais nenhuma mudanca de relacionamento. Mas sim, os empregos continuam mudando. E de certa forma já era esperado que isso acontecesse. Mas eu nao estava esperando muito por isso. Como eu disse, vim pra cá achando que realmente ficaria na mesma família do comeco ao fim, entao nao sei até que ponto eu posso ter influenciado todas essas mudancas. E realmente nao sei porque eu resolvi contar tudo isso aqui ou porque acabou ficando muito mais pessoal do que deveria, mas eu simplesmente tinha que escrever sobre isso. Nao sei bem o que o futuro me reserva. Acho que nao preciso ter medo quanto a relacionamentos, mas como diz a Mayara: “de uma coisa você pode estar certa: eu vou te ligar em setembro”.





Hoje

3 06 2009

Andei pensando qual seria minha desculpa agora pra ficar tanto tempo sem escrever: nao tem mais festas nesse mês, tive bastante tempo livre, tenho computador com internet no meu quarto… O que aconteceu? Depois de horas de muita reflexao, que poderiam ter sido aproveitadas para escrever mais um post, cheguei à conclusao de que tudo nao passa na verdade de uma grande preguica. Eu simplesmente nao aguento mais nem pensar no fato de que eu teria que regressar dois meses no tempo e relembrar o que eu estava fazendo, o que aconteceu em tal dia, descrever com detalhes etc, etc, etc. Cheguei a fazer uma lista com a ordem dos posts que eu teria que escrever pra atualizar meu blog. Bem se eu fosse atualizar até o dia de hoje, teria que acrescentar mais no minimo uns 5 itens à lista que já nao era pequena. E até eu escrever todos esses 5, já teria mais uns 7 ou 9 esperando pra serem escritos. E provavelmente voltaria pro Brasil com um dever de casa de tres meses de atraso. Mas eu nao quero isso e acho que voces também nao. Entao, meus caros leitores, devido às circunstâncias anteriormente citadas, tenho o dever e a honra de informar-lhes que a partir de hoje, dia 3 de junho de 2009, todos os posts que porventura sejam publicados nesse blog o serao com a data atual. (tem até um novo template como edicao comemorativa, voces repararam? Bem na verdade está ainda em fase de testes. Se nao agradar muito, eu mudo :-)) Eu ainda tenho muita coisa pra contar desses dois meses sem notícias, mas vou fazendo isso aos poucos, talvez quando surgir um assunto semelhante ou quando nao tiver mais assunto. Mas nao consigo mais deixar de escrever o que eu quero só porque existem outros assuntos com prioridade de data…

Bem, algumas pessoas me perguntaram o que está acontecendo agora, o que eu estou fazendo, onde eu estou, etc. Acho que com tantas idas e vindas, voces comecaram a pensar que eu devo mudar de família todo mês. Mas nao é bem assim. O normal do programa de au-pair é que a menina (ou em casos mais isolados o menino) vai pra família, eles se dao super bem, ou mesmo que nao se deem tao bem assim, o/a au-pair fica lá por um ano, mais ou menos, dependendo dos níveis de saudade, paciência e de quanto estao pagando. Eu é que nao sou lá muito convencional e resolvi dar um rolé por algumas famílias, sabe como é, pra aprender mais da cultura alema em diferentes ambientes. Claro que foi tudo planejado. Mas agora, depois de uma intensa pesquisa nos âmbitos familiares, encontrei uma familia que se encaixa perfeitamente nos meus padroes científicos e oferece muito material para análise. Assim sendo, terei que permanecer mais tempo aqui do que apenas um mês ou uma semana para poder estudá-la a fundo. Sei que provavelmente voces vao pensar que mais material para analise que minha primeira família oferecia é impossível de encontrar em outra. Maaas, como eu nao estudo psicologia e sim letras, a estadia lá nao ia me ajudar muito. Mas se você leitor estuda psicologia e está pensando em fazer um estágio no exterior, posso até indica-lo para ir pra casa branca (embora eu ache que você teria mais chances sem qualquer indicacao minha). Mas chega de papo furado. O que eu quero dizer é que estou aqui ainda em heidelberg, na mesma família que eu contei por último. Nao bati em nenhuma crianca, nao envenenei o cachorro, fiz questao de perguntar qual a tomada certa pra ligar o aspirador de pó e guardo todas as canetas que encontro espalhadas. Enfim, tenho sido uma boa menina e eles têm sido uma boa família. Claro que de vez em quando existem alguns atritos, mas isso acontece em qualquer família – escolhida ou nao.

Estou estudando também, como já contei pra alguns e nao sei exatamente com que clareza eu contei isso aqui. Mas vocês devem se lembrar que eu fiquei sabendo que eu poderia frequentar as aulas da faculdade como ouvinte. Tudo o que eu teria que fazer era ir até a aula, explicar a situacao e perguntar ao professor se eu poderia acompanhar as aulas. Bom, eu fiz isso e estou frequentando cinco matérias desde o comeco de abril. É um pouco difícil de acompanhar as aulas sendo au-pair porque nao se tem tanto tempo livre assim. Quero dizer: eu tenho meu horário de trabalho aqui e tenho tempo suficiente pra ir a todas as aulas, mas nao tenho muito tempo pra fazer deveres de casa, por exemplo. Em algumas matérias eles valem pontos e sao determinantes para se conseguir nota na matéria ou nao. Como eu sou ouvinte e nao posso por isso ter nenhum certificado comprovando que eu frequentei as aulas, nunca fiz nenhum dever de casa, o que é bastante ruim quando se tem o objetivo de aprender a língua. Eu na verdade nem sei mais qual é o meu objetivo aqui. Talvez em algum ponto da história tenha sido aprender alemao. Mas pra ser bem sincera, acho que só vim pra cá por que era o jeito mais alcancavel no momento de morar em outro país. Sempre tive vontade de fazer um intercâmbio e acho que a experiência de morar em outro país é válida independente de quais sejam as metas envolvidas. Mas eu nao sou exatamente o tipo de pessoa que faz alguma coisa pra melhorar o currículo e muito provavelmente eu nao vou trabalhar nessa área de letras, o que faz com que ter ou nao um certificado da faculdade seja de certa forma irrelevante – até porque as matérias daqui normalmente nao sao reconhecidas no Brasil. E isso significa que eu ainda nao resolvi se vou tentar de novo entrar (dessa vez oficialmente) na faculdade no próximo semestre, se vou simplesmente continuar como ouvinte, se tento fazer uma graduacao normal aqui em vez dessa de curto tempo, se deixo pra tentar uma pós graduacao ou qualquer coisa assim depois que eu formar… Enfim, tenho muitas possibilidades e enquanto por um lado eu acho que o que eu teria que pagar pra me tornar estudante poderia ser muito melhor aproveitado se eu pagasse qualquer outra coisa, por outro lado, acho uma pena passar esse tempo todo aqui sem um comprovantezinho qualquer de tudo que eu estudei, mesmo que eu nao vá utilizá-lo. Queria que meus amigos da letras dessem uma opiniao sobre o assunto, mas eles andam tao sumidos daqui que acho que vou ter que me decidir sozinha. Mas bem, ainda tem tempo. Nao muito, mas tem.

Além de trabalhar e estudar eu estava há algum tempo fazendo muitas aulas de danca. Tango, jazz, rock, salsa e até uma aula de teatro. Mas aí comecei a achar que era coisa demais pra uma pessoa só. Acho que estava ficando muito cansada, nao sei, e em uma semana particularmente difícil entre cólicas, lua minguante e crise depressiva, matei várias aulas. E nao voltei mais. Hoje continuo só no tango que eu amo de paixao e na salsa que eu me sinto obrigada a ir pela dívida de gratidao com a Mathilde. Mas acho que vou abandonar também porque, por mais que eu goste da mathilde, as aulas dela ficaram muito chatas depois que acabaram as férias. Parece que só tem iniciantes e pra quem já sabe dancar dá preguica ir em aulas assim. Mas acho que meus horários acabaram ficando muito vazios sem todas essas aulas. E adivinhem como é que eu preencho esses horários vagos??? É triste… e eu me sinto muitas vezes como a pessoa mais fútil do mundo por fazer isso, mas algumas vezes nao consigo fazer diferente e de certa forma talvez isso tenha se tornado uma compulsao. Já falei em alguns posts sobre minhas compras aqui, das bolsas e dos casacos, lembram? Bem, aquelas foram circunstâncias específicas, mas talvez nessa época já se pudesse vislumbrar o que estaria pra acontecer. E o fato é que hoje passo meu tempo livre fazendo compras ou no mínimo passeando pelas lojas em busca de alguma promocao. Pelo menos isso. Nao compro nada caro. Só compro algo depois de ter certeza que eu gosto, que eu vou usar, que é bonito e que o preco realmente vale muito a pena (e talvez todas essas condicoes que eu estabeleco sejam apenas uma forma de eu nao sentir minha consciencia muito pesada depois das compras. Mas tem funcionado). Aqui tem um nome pra isso, que agora nao me lembro direito, mas é algo como “cacadora de ofertas”. O grande problema é que aqui tem muitas ofertas! Eu encontro tanta coisa barata que eu simplesmente nao consigo resistir. Isso, aliado ao fato de que eu recentemente me dei conta do tanto que eu me vestia mal, fez com que em cerca de dois meses eu comprasse mais roupas e sapatos do que já comprei em uma vida inteira. O que é no mínimo preocupante, quando se pensa no limite de bagagem. Mas eu tenho fé e esperanca de que quando eu atingir a meta imaginariamente estabelecida para o meu vestuário eu vou conseguir finalmente ocupar meu tempo livre com coisas mais nobres e elevadas. Se é claro, eu nao encontrar uma outra promocao no caminho.