De cafés e amizades

10 07 2009

Às vezes incomoda tanto nao ter alguém pra conversar sobre as coisas mais sérias e mais banais, pra abracar quando se está triste ou apenas carente, pra encontrar a qualquer hora e sorrir sem medo de ser mal interpretada, e se expressar livremente, sem as barreiras e as vergonhas que tanto limitam e emperram. Tive a sorte aqui de poder contar com alguns bons amigos que passaram e deixaram boas lembrancas. A primeira, que merecia um post só pra ela como eu tinha prometido, mas que acabou sendo engolida por todos os outros acontecimentos que embora nao mais importantes, tomaram algum tempo, é a Mayara. A Mayara foi por algum tempo, nao tao longo como eu gostaria, uma grande amiga, sempre presente seja para conversar, reclamar do trabalho escravo ou simplesmente fazer compras. Uma amiga de muito boas risadas. Mas, como vocês devem se lembrar, nós apenas nos conhecemos porque ela já estava com o vôo marcado de volta pro Brasil. E tivemos apenas pouco mais de dois meses de contato antes dela ir embora. No último mês dela aqui, como o trabalho dela era muito mais escravo do que o meu, conseguimos nos encontrar apenas uma vez, apesar das tentativas e planos de por exemplo irmos pra Mannheim juntas. Mas era pelo menos alguém com quem eu sempre podia contar em meus planos, ainda que esses nao fossem concretizados. Foi bom enquanto durou. Mas vou sentir saudades de alguém pra brincar de casinha, pra se dobrar de rir de qualquer história sem graca só pelo mineirês do sotaque, pra conversar ora em português ora em alemao, conforme faltem as palavras de uma ou outra língua. Aprendi muita coisa com ela. Nao só as coisas que ela tinha pra me contar sobre a Alemanha e as experiências dela aqui, mas coisas sobre o Brasil que eu nao imaginava. Além de algumas expressoes idiomáticas bastante… peculiares, como negrinho e mumu, por exemplo. Juntando isso com o vocabulário sulista que eu já conhecia, o resultado é uma frase com significado muito mais inocente do que a mente impura do leitor é capaz de conceber. Se eu dissesse por exemplo que peguei o cacetinho e fiz mumu com o rabo quente enquanto ele comia o negrinho, o leitor certamente iria pensar que eu mudei o estilo literário e resolvi escrever romances pornos. Talvez por isso que os gaúchos tenham toda essa fama. Às vezes eles sao apenas mal interpretados… Mas vou deixar a sua imaginacao inferir os possíveis significados da frase que fica aqui sem traducao. Alguém se habilita?

Mas o fato de a Mayara ser gaúcha, traz alguns problemas muito além das diferencas linguísticas. É engracado pensar como a gente conhece algumas pessoas. Como que a gente veio se conhecer justo aqui na Alemanha… Agora que ela está no Brasil, estamos bem distantes, assim como estou distante de tantos amigos. A diferenca é que quando eu voltar pro Brasil, esses amigos estarao todos de novo perto. A Mayara nao. E uma viagem para encontrá-la levaria mais tempo de ônibus do que o que eu gastaria no meu vôo de volta pra casa, contando tempos de conexao e espera no aeroporto. E isso é alguma coisa. Foi por isso que ao me despedir dela, nao foi uma despedida normal de “a gente se vê daqui a alguns meses”. Nao sei quando ou se vou encontrá-la de novo e isso fez com que a despedida fosse muito mais triste. E de certa forma, às vezes parece mais fácil e mais plausível que a gente volte a se encontrar na Alemanha do que no Brasil, onde tudo é tao longe.  Claro que quero vê-la novamente e devo tentar fazer isso no Brasil, viajar para se encontrar ou qualquer coisa assim, o que nao seria má idéia. Mas é muito incerto pensar nisso. Depois que ela foi embora, ficou de certa forma um vazio, como se eu nao soubesse mais como preencher minhas horas livres ou nao soubesse no mínimo como planejá-las. É claro que tenho outros amigos além dela, mas é diferente. A maioria dos meus amigos eu conheci nas aulas de danca, ou seja, dancando. E como na danca de salao o normal é que as mulheres dancem com homens – a nao ser em caso de escassez extrema de homens no mercado, quando é possível ver mulheres dancando juntas – embora a recíproca nao seja verdadeira e em caso de escassez de mulheres é possível ver no máximo vários homens dancando sozinhos – e considerando que na minha aula de danca há quase sempre o mesmo número de mulheres e de homens, é possível inferir que meus amigos sao praticamente só homens. O que torna as coisas um pouquinho mais complicadas.

Uma das licoes do Grande Manual de Relacionamentos da Alemanha diz que quando um homem está interessado em uma mulher ele nao pode chegar atacando logo de cara, como acontece no Brasil. Eles precisam se conhecer primeiro, o que acontece normalmente através de um simples e inocente café. O homem chega para a mulher e pergunta: – Você gostaria de tomar um café comigo? (o que nao precisa ser necessariamente um café, pode ser capuccino, chocolate, suco e até mesmo água, mas a pergunta mágica é sempre a mesma) Dependendo do café, se foi bom pros dois ou nao, eles podem repetir a dose, com um outro café na próxima semana, por exemplo e assim sucessivamente, até que os dois se conhecam o suficiente e tenham certeza da reciprocidade dos sentimentos. Isso dura em média uns 5 cafés, o que vai depender da frequência com que o casal em questao se encontra, podendo variar de uma semana a dois meses. O engracado é que entre esses cafés, enquanto ainda nao se tem certeza do que vai dar essa relacao, eles dificilmente vao tentar algo além dos cafés. Entao é muito comum acontecer de um alemao chamar a menina pra ir na casa dele – lembrando que aqui a partir dos 18 anos o normal é morar sozinho – e eles ficarem jogando dominó, assistindo televisao, conversando, sem que nenhuma sugestao além seja feita, nenhum contato físico seja estabelecido. Até o momento em que eles se sentem confiantes o suficiente para chamá-la para, digamos, tomar um café no quarto.

Apesar de saber de tudo isso, sempre foi difícil pra mim aceitar tomar um café com alguém. Nao necessariamente esse café significaria um interesse explícito. Poderia ser sim, apenas um início de amizade e mesmo que nao fosse, dificilmente eu correria o risco de ser atacada no primeiro café. Mas saber que esse é o primeiro passo de todo esse ritual de acasalamento, fez com que eu sempre recusasse os cafés, inventasse uma desculpa, falasse que nao tinha vontade. E sendo todas as pessoas com que eu mais tinha contato homens, a conclusao óbvia é que eu fiquei sem amigos.

Sempre achei que isso seria fácil, ficar sozinha. Nao imaginava que seria tao doloroso ter o tempo livre e nao ter o que fazer com ele além de fazer compras, ficar com a família – o que acaba equivalendo a trabalho – ou simplesmente ficar sozinha. Tive a felicidade que acho que nem todos que saem do Brasil têm de receber algumas visitas brasileiras. Quando a Renata e a Nat passaram por aqui, ainda que tenha sido por tao pouco tempo, deixaram comigo essa sensacao gostosa que a gente tem quando percebe que é querida e que existem pessoas no mundo pra quem a gente é importante. Mas elas vieram e se foram e com elas essa sensacao também. Estava bastante deprimida até algum tempo atrás, quando os meus amigos e a minha família do Brasil resolveram meio que esquecer que eu existo. A questao é que pra mim é muito mais fácil – em outras palavras muito mais barato – telefonar pro Brasil do que o contrário, o que significa que sou sempre eu quem ligo pra lá e de certa forma sou a responsável por manter contato com eles. Mas eu gosto também de saber que meus amigos se preocupam comigo e adoro quando eles escrevem um e-mail, deixam um comentário, um recado, ou até em alguns casos bem esparsos, me ligam. E foi numa época assim, em que eu estava totalmente sozinha e deprimida, me sentindo a última pessoa da terra da batata, que todos ao mesmo tempo resolveram esquecer que eu existo. Nenhum e-mail, nenhum recado, nenhuma alma viva pra ler os meus desabafos no blog. Telefonema? Nem sabia mais como era o toque do meu telefone… Foi numa dessas que eu dei por mim e percebi que já era hora de aceitar tomar alguns cafés.

E acabei descobrindo um outro lado da vida na Alemanha: os alemaes. E nao só os alemaes, mas os italianos, americanos e até chineses, que frequentam o curso de alemao. Foi só aceitar tomar um café que todos os meus colegas e até alguns professores resolveram comecar a sair e marcar vários encontros. E eu fui junto. E agora resolvi seguir um dos mandamentos da Nat para intercâmbios bem-sucedidos: “Aceite ir pra qualquer lugar que te chamarem, mesmo que seja na padaria da esquina”. Pra qualquer lugar nao sei se aceitaria, mas por tudo que eu já vivenciei só nesse tempinho, devo dizer que a Alemanha tem coisas muito mais interessantes que padarias…

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Para nao tentar entender

5 07 2009

E eis que de repente escuto o que eu mais queria ouvir de quem eu menos esperava. Sem precisar de qualquer esforco, sem qualquer impulso da minha parte. Espontâneo. E mal consigo disfarcar minha surpresa, que de tao intensa ofusca a felicidade. Estarrecida diante do mundo que se abre ante os meus olhos, titubeio e apenas tento entender. E sinto que talvez o comeco desse novo mundo represente o fim definitivo do que já foi e já era o meu mundo anterior. E nao sei se fico feliz pelo novo mundo, se choro a morte do velho, se devo nutrir qualquer esperanca de nao abandoná-lo definitivamente. E sei que de certa forma ele nunca seria o mesmo, que como o rio sempre se renova. E nao sei bem para onde direcionar agora minha saudade. Sinto pelo que já foi ou pelo que será. Mas nao pelo que é agora, porque esse eu já nao conheco.