Todos os caminhos levam a Roma – Parte Final

29 09 2009

Leia a Parte III aqui

Deixei pra visitar o Vaticano no meu último dia em Roma. Seria o dia mais religioso, com direito à Basílica de Sao Pedro e todas as capelas famosas a que eu tinha direito. E nada como vestir trajes adequados para a ocasiao (O quê, a Carol vestida de freira?? Pergunta-se o leitor, confuso). Explico: No Museu do Vaticano e na Basílica, é vetada a entrada de pessoas trajando camisetas regatas ou mostrando mais da metade das pernas – ou seja, a maioria dos turistas sensatos para suportar o calor de Roma. Mas sabendo das regras, tive o cuidado de me vestir de acordo, sem ombrinhos de fora e com uma saia até o joelho. Ninguém precisava saber, é claro, que minha saia tem uma abertura que faz com que ela levante vôo ao menor sinal de vento, deixando muito mais do que metade das minhas pernas à mostra. Até procurei um alfinete pra deixar a coisa mais segura. Até fita crepe tava valendo. Mas eu nao tinha incluído os itens na minha mochilinha de 20 quilos. Ia ter entao que, literalmente, segurar as pontas. Mas era isso ou usar calca, o que com o calor italiano seria quase suicídio. E é melhor morrer apedrejada pelo uso de roupas indecentes na Casa do Papa do que derreter no meio da rua, antes de alcancar os portoes.

Depois de identificar para onde eu tinha que ir e notar a quantidade de turistas que rumavam para a mesma direcao, nao pensei duas vezes antes de acelerar a marcha e brincar de quem-chegar-por-último-é-a-mulher-do-padre com eles. Tentando, é claro, fazer isso discretamente, antes que os outros percebessem minha idéia e resolvessem entrar na brincadeira. E lembrando de segurar a barra da saia. Depois de várias ultrapassagens, esperava encontrar ainda uma fila no mínimo bem gordinha. Mas nao. O dia da visita era um domingo, um dia de visitacao normal, segundo meu guia de viagem, exceto pelo fato de que o museu fechava mais cedo. O que eles nao fizeram o favor de informar é que ele ficava normalmente fechado aos domingos. E eu teria tido muito azar se eu tivesse comecado a viagem em qualquer outra semana. Mas no último domingo do mês, além de eles abrirem nao só uma excecao como o museu também, a entrada era gratuita. E depois de saber que o Panteao já tinha sido mandado pra conta do Papa – em todos os sentidos – fiquei feliz de nao precisar engordá-la ainda mais. E em uma fila com cerca de 10 turistas na minha frente andando surpreendentemente rápido, fiquei tao feliz com a notícia que até esqueci de segurar a saia por alguns momentos. O vento, que parecia estar só aguardando por um momento oportuno, nao se fez de rogado. Vuuch! E lá se foi a saia pro alto. Os turistas que tinham sido ultrapassados sorriram com um ar de vinganca, enquanto eu tentava domar novamente o pedaco de pano rebelde. Olhei receosa pro seguranca que devia estar ali pra inspecionar as roupas dos visitantes e me perguntei se ainda poderia entrar com uma roupa tao instável.

– Fica tranquila que lá dentro nao venta nao – disse ele sorrindo.

E fui apressada em direcao ao abrigo seguro. Só nao imaginava ser tao seguro assim. Equipamentos dignos de qualquer alfândega. E acredito que eles realmente revistem as pessoas e olhem minuciosamente pelo raio-x à procura de bombas, canivetes, camisinhas e quaisquer outros artefatos perigosos à integridade física e moral da Igreja. Mas nao naquele dia. Os funcionários, aparentemente desacostumados a trabalhar no domingo, preferiam bater papo, tomar café ou ficar observando os ponteiros do relógio se movendo do que efetivamente fazer um controle dos visitantes. E todos os italianos que aguardaram ansiosamente o domingo livre para visitar o Vaticano puderam entrar impunemente com todos os seus artefatos terroristas. A falta de rigor do controle fez com que se permitisse a entrada nao só de saias rebeldes, mas de shorts no melhor estilo É o Tchan e camisetas que deixavam bem mais que os ombros de fora. Os guardas pareciam apreciar a bela manha de domingo enquanto caminhavam tranquilamente pelos corredores. E nao se importavam muito se os turistas tiravam fotos abracados com as estátuas.

E que estátuas! Os corredores estavam repletos delas, enfileiradas, como se aquilo fosse na verdade um depósito, nao uma exposicao. Cada centímetro das paredes, teto e piso estavam cobertos por obras de arte, de mosaicos a afrescos, numa intensidade e quantidade que faziam com que deixassem de ter valor artístico para se tornar no máximo objetos de decoracao. E era preciso um olhar muito mais cuidadoso para que tudo isso permanecesse obras de arte. E nao fazer como os outros turistas que tiravam fotos com qualquer uma (abracados de preferência) sem ter a menor nocao do que aquilo realmente era além de uma estátua. E é claro que eu nao analisei cuidadosamente cada uma delas. Precisaria de muito mais do que as poucas horas que estive lá pra isso. Mas certamente a impressao que elas e todos os outros objetos me causaram foi a de que o Papa tem muito, mas muito mais que o Panteao em sua conta. Cada centímetro do Vaticano parece falar pro visitante: – Está vendo o tanto que eu sou rico? Enquanto os turistas boquiabertos se curvam perante a soberania de uma instituicao que conquistou todo o seu poder às custas dos fiéis.

Sei que tudo o que eu digo tem resquícios muito nítidos de uma época em que eu odiava a Igreja. Hoje nem tanto. Já consigo entrar nelas. Embora assistir a uma missa seja pedir demais. Apesar de tudo, valeu a pena essa visita. E recomendo pra qualquer um que vá a Roma e tenha o mínimo de interesse por história e arte. Só lembre de deixar para o final da viagem. Porque depois de ver tantas estátuas (incluindo a Pietà, na Basílica), tantos objetos arqueológicos (incluindo uma múmia de verdade sem as bandagens no museu egípcio), tantas pinturas e afrescos (incluindo o teto da Capela Sistina, que parece que vai realmente cair sobre você), você acaba achando que todo o resto é apenas resto.

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Todos os caminhos levam a Roma – Parte III

23 09 2009

Leia a Parte II aqui

Ver o Coliseu da janela do aviao foi bem diferente do que vê-lo de perto. Vendo de cima nao pude deixar de compará-lo com o estádio de futebol que se erguia por perto. E meu único pensamento possível foi: É pequeno, né? Mas nao é. É realmente grandioso. E só nao posso compará-lo por dentro com um estádio porque minha única base de referência seria o Independência. E a última – ou foi a única? – vez que entrei lá, pra assistir ao jogo histórico Santa Tereza X Atlético, foi só porque o meu irmao estava jogando. Num campeonato mirim, é claro. E claro que nao pelo Atlético, como ele ia gostar que eu ressaltasse. E considerando que eu devia ter mais ou menos a metade do tamanho que eu tenho hoje, o estádio pareceu digamos, um pouco maior do que é na verdade. Nao, definitivamente isso nao é base de referência. Mas, como estudos recentes indicam que os antigos romanos nao jogavam futebol, a comparacao é mais do que dispensável.

Esse dia tinha sido reservado para visitar a Roma Antiga (quer dizer, a parte mais antiga dela, porque parece na verdade que cada construcao da cidade pertence a algum período histórico). Isso significa que eu vi uma quantidade de ruínas tao grande que comecei a achar normal. E descobri nesse dia, que a maior parte das ruínas de Roma se escondia ainda embaixo das casas atuais. O que significa que quando as casas anteriores eram destruídas os romanos apenas jogavam entulho por cima e construíam por cima desses restos suas novas casas. Pelo menos foi o que eu entendi. E a impressao que se tem, quando andamos pela cidade é de que a qualquer momento pode aparecer uma ou outra ruína. O que realmente acontece. Você está passeando tranquilamente pela cidade entre prédios modernos (ou no mínimo nao tao antigos), carros barulhentos e vendedores ambulantes e eis que de repente nao se sabe como nem porque, brotam no chao toneladas de resquícios da Roma Antiga. E você é obrigado, ainda que por poucos segundos, a parar o que estava fazendo e prestar atencao naquele pedaco de história jogado no meio da rua. Nem que seja pra tirar uma foto e continuar andando. A sensacao é de estar caminhando por um sítio arqueológico permanente, onde até as criancas devem precisar de uma autorizacao especial pra cavar buracos no quintal de casa.

Mas o que mais me daixava fascinada nessas ruínas eram os templos. Sempre adorei mitologia grega e romana e era louca para conhecer um verdadeiro templo antigo. Ficava imaginando todas as estátuas que deveria ter, como seria adornado, se havia ainda alguém que cultuasse esses deuses, se eles seriam realmente ainda deuses além de personagens da mitologia. E fiquei feliz de saber que ainda existia um templo antigo inteirinho em Roma. O Panteao, como o nome diz, foi construído para a adoracao de todos os deuses e é segundo a Wikipedia o único edifício antigo que se encontra em perfeito estado de conservacao. Pelo menos era o que eu achava antes de entrar nele. E me deixou realmente chateada descobrir que, independente da história de um monumento, independente do seu significado e simbolismo, independente de tudo o que ele representou e poderia representar, ele pode ser friamente reduzido a mais uma propriedade da Igreja Católica. Assim, ao entrar no Panteao, me vi cercada nao por estátuas dos deuses, mas de santos. No lugar de todo o simbolismo histórico foram pendurados crucifixos. No altar onde eram realizadas as oferendas aos deuses hoje sao rezadas missas. E percebi que todos os antigos devotos tinham morrido junto com a Roma Antiga. No seu lugar ficaram apenas velhas beatas e iludidos que como eu achavam que as antigas crencas eram imunes à ruína. Mas depois de ficar sabendo que nem o Panteao escapa do domínio eclesiástico, resolvi descobrir finalmente o que mais se escondia por trás das posses da Sua Santidade.

[Continua…]







Todos os caminhos levam a Roma – Parte II

20 09 2009

Leia a Parte I aqui

Saindo de tardezinha do camping, resolvi ir aos lugares de Roma que se podia visitar à noite, como as pracas e fontes.

– É bom que tem menos gente – pensava eu com meus botoes.

Chegando na Piazza Spagna, famosa por sua escadaria onde os turistas gostam de se sentar, o que, sabe-se lá porque é uma tradicao do lugar, fiquei assustada ao constatar que nao existia mais escada. No lugar dela resolveram empilhar dezenas, centenas de pessoas que se espremiam e se acotovelavam para disputar o que talvez um dia tenham sido os degraus da escada, mas que estavam agora ao que parece irremediavelmente soterrados por corpos. Vivos, é claro. O que tornou minha escalada ainda mais difícil. Mas depois de passar por algumas dúzias de cabecas, consegui finalmente atingir o alto da escadaria, no pórtico de uma igreja que tinha uma bela vista de Roma e estranhamente, muito menos turistas do que a tal escada. Talvez eles fossem desistindo de subir no meio do caminho. Ou talvez sentar na escada fosse mesmo por si só um evento turístico. Ainda que os próprios turistas nao soubessem o motivo.

Fui fazer uma caminhada entao entre os muitos prédios históricos de Roma. Meu objetivo era chegar na Fontana di Trevi, retratada em um dos meus filmes preferidos, Elsa & Fred. Nesse filme, a personagem realiza seu sonho de se banhar na Fontana di Trevi, inspirada pelo filme La Dolce Vita. De madrugada, a fonte está deserta, contando apenas com a presenca de outro personagem que assiste à cena e um gatinho. E é engracado como as imagens dos filmes ficam na nossa mente. Nao era de madrugada naquela hora, mas já de noite, numa hora em que todos os alemaes sensatos já estariam na seguranca dos seus lares. Mas parecia que na Itália as coisas eram um pouquinho diferentes. E só de olhar para a fonte, pude perceber que as cenas mostradas nos dois filmes seriam impossíveis nos dias de hoje. Por alguns momentos tive a sensacao de que todos os turistas sentados na escadaria de Spagna resolveram pegar um atalho e sentar antes de mim na beira da fonte. E se a fonte nao fosse tao grande, tao maior do que aparenta ser nos filmes, também nao daria para vê-la. Mais tarde eu descobri que nem os cartoes postais conseguem fotos dos monumentos de Roma sem nenhum turista aparecendo. Só em producoes cinematográficas mesmo… Muitos turistas cumpriam o ritual de jogar uma moeda na fonte para assegurar que voltariam à cidade. Eu, que ainda nao sabia se queria voltar ou nao, achei melhor comprar um sorvete que jogar meu dinheiro na água.

Eu sempre precisava pegar o metrô pra voltar pro Camping. E toda vez que eu chegava na estacao tinha a sensacao de estar indo na direcao errada. Sempre esperava que o metrô viesse de um lado e na verdade vinha de outro. Depois percebi que os metrôs de Roma sao no sentido contrário dos carros, ou seja, viajam sempre à esquerda, enquanto os carros, à excecao da Inglaterra e de algumas ruas estranhas de Curitiba, dirigem à direita. Eu tinha entao sempre que tomar cuidado pra nao entrar no metrô errado e acabar voltando pro lugar de onde eu tinha vindo. E juntando isso à hitória da moeda, comecava lentamente a entender porque é que costumam dizer que “todos os caminhos levam a Roma”.

Continua…






Pós Aniversário

18 09 2009

Foi bom, no fim das contas. Apesar da manha cinza e vazia, o dia foi se preenchendo de muitas cores e sabores mais que coloridos. Um amigo, talvez o único aqui, me convidou pra tomar café da manha às 2 da tarde, às 4 minha família preparou uma festinha bem no estilo alemao pra mim, com bolo feito em casa, velinhas e suco de maca. Ganhei um curso de tango de 8 semanas, um romance sobre danca e dois ingressos para uma apresentacao do Cirque du Soleil em novembro, já com as passagens de trem. Conversei longamente com minha Gast, como amiga. Contamos histórias, trocamos confidências e ela me deu alguns conselhos que serao certamente úteis. Fui dancar à noite e, como tradicao da danca, ganhei uma “Valsa”, que na verdade nao é valsa, é tango, mas uma música em que todos os homens dancam com a aniversariante. E apesar da vergonha de dancar na frente de todo mundo e da sensacao de estar errando todos os passos, foi bom. Cheguei em casa cansada e com a sensacao de ter aproveitado bem o dia.

Quanto às mudancas que o aniversário sempre me reserva, dessa vez nao foi diferente. E as mudancas que se alinham agora talvez mudem definitivamente o curso da minha história. Mas talvez seja melhor assim. E nao tenho como saber se nao tentar. Se eu vou contar? Aí já é outra história…





23

17 09 2009

Queria escrever um post bonito e animado sobre o dia de hoje. Queria falar da festa que vou fazer, dos amigos que vou encontrar, dos presentes que vou ganhar, dos telefonemas que vou receber. Queria falar que apesar do frio que fez toda a semana e da chuva que caiu, o sol brilhou hoje mais forte e eu acordei com uma vontade imensa de abracar o mundo todo, tamanha a minha felicidade. Queria falar que meu amor me trouxe café da manha na cama e que me acordou cantando baixinho no meu ouvido. E que minha família me recebeu com abracos, surpresas e presentes. E que eu encontrei com cada um dos amigos de quem eu sinto tanta falta agora. Mas nao posso.

Hoje nao tem festa, nao tem amigos, nao tem presentes. Hoje o dia amanheceu nublado e feio como todos os outros dessa semana e nao tem nenhum indício de que hoje seja um dia especial pelo menos para uma pessoa nesse planeta. Hoje eu acordei triste e me senti sozinha e abandonada.

Os amigos que eu tanto queria encontrar nao existem aqui. E nao tem ninguém que eu pudesse convidar se resolvesse fazer uma festa. Mas nao tem festa. E sinceramente nao sei bem se quero comemorar.

Recebi várias mensagens de amigos meus que resolveram falar ao mesmo tempo o quanto gostam de mim, o quanto sentem minha falta e que perguntam quando eu vou voltar. E pela primeira vez em todo esse tempo, tenho vontade de responder: hoje. E de entrar no primeiro aviao para o Brasil só pra dar um abraco apertado em cada um deles. E poder dizer pessoalmente o quanto eu gosto deles também. Mas eu nao posso.

Vou ter que esperar cinco meses ainda até que isso possa acontecer. E usar, enquanto isso, as ferramentas que eu tenho pra falar com eles. E esse blog é talvez a principal delas.

Obrigada a todos vocês que me escreveram. Obrigada pelo carinho que têm demonstrado. Obrigada por serem sempre, apesar de toda essa distância, tao amigos. E obrigada acima de tudo por me lembrarem que eu tenho sim, afinal de contas, algo que comemorar. Amo vocês.





Todos os caminhos levam a Roma – Parte I

15 09 2009

Roma nunca foi exatamente a cidade dos meus sonhos. Na verdade nunca tive tanta vontade assim de conhecê-la. Mas acho que seria quase criminoso se eu fosse pra Viterbo e nao conhecesse Roma, ja que as duas sao tao próximas. Assim, desde que eu decidi viajar pra Viterbo, Roma foi embutida no pacote, assim como algumas outras cidades italianas, de que ainda vou falar. Vista de cima, parecia uma cidade normal, à excecao de duas ou três ruínas que se destacavam dos outros prédios, mas nao tinha muita diferenca do que eu já vi aqui na Alemanha. Mas com os pés em chao firme, as diferencas em relacao à terra da batata já puderam ser percebidas nos primeiros minutos. Eu tinha resolvido viajar de calca e tênis, por causa do volume e peso que esses itens fazem na bagagem, rigorosamente controlada pela Ryanair. Mas foi só sair do ar condicionado do aeroporto pra nao desejar outra coisa além de poder tirar aquela roupa logo. Que calor! Eu, acostumada com o verao morno de Heidelberg, que até entao eu achava quente, quase derreti nas primeiras horas em contato com o sol italiano. Nem parecia brasileira. Mas como boa brasileira resolvi, pra economizar, pegar o transporte público pra ir pro centro de Roma.

– Tem três opcoes – falou a mulher do caixa – pegar um ônibus e depois um metrô, pegar um ônibus e depois um trem ou pegar um micro-ônibus que te leva direto.

– Qual é a mais barata?

Sentada na beira da calcada, os 15 minutos que eu deveria esperar pelo ônibus pareciam horas inteiras. E fiquei lá até perceber que mesmo pro tempo objetivo estava demorando demais. Depois de nova consulta ao horário dos ônibus vi que o ônibus que eu estava esperando já deveria ter chegado há 25 minutos e que eu devia esperar mais 40 para o próximo. E desiludida com o sistema de transporte italiano, acabei desistindo e comprando passagem pro micro-ônibus, que estava saindo naquele momento. E depois de entrar até evitei olhar pela janela pra nao ver o outro ônibus, tao esperado, chegando.

Chegando no centro de Roma, a primeira impressao que eu tive da cidade foi a mesma que eu tenho quando vou ao centro de Belo Horizonte. A de que ainda falta muito tempo até que os habitantes da regiao evoluam a ponto de aprender como se usa uma lata de lixo. Mas nao sei se minha comparacao foi justa… Talvez eu esteja apenas acostumada com a organizacao e limpeza alemas, a ponto de ficar chocada com um nível de sujeira que provavelmente é inferior ao de BH. Mas sei que a limpeza das ruas é uma das coisas que mais encanta os italianos que vao pra Alemanha, além da pontualidade dos ônibus.

E é claro que nao se pode ter uma impressao muito boa de qualquer lugar quando se carrega cerca de 20 quilos nas costas debaixo de um sol de 35 graus. Mas depois de pegar um metrô e mais um ônibus, chegar no camping onde eu fiquei hospedada, tomar um banho e vestir uma roupa mais adequada às condicoes climáticas da regiao, pude aproveitar melhor as belezas da cidade.

Continua…






Carol de Viterbo

14 09 2009

De todas as cidades que planejei visitar, a única que tinha um motivo concreto era Viterbo. Sempre tive vontade de conhecer a cidade de onde vem meu nome. Carol de Viterbo. Como se fosse uma origem. O nome nao é nada comum no Brasil. Todas as pessoas com esse nome que eu conheco sao da minha família. E mesmo quando nao as conheco, é só conversar mais dois minutos pra descobrir tios e primos em comum. E que sao de Sabará. Belo Horizonte, no máximo. E acho engracado que nenhum desses parentes sabe ao certo a origem do nome. Sabem no máximo que é uma cidade italiana. Perto de Roma.

– Mas por que Viterbo e nao Nápole ou Florenca? O que tem nessa cidade?

– (…)

– E por que uma cidade italiana e nao mineira ou carioca?

– (…)

– A gente é descendente de italiano?

– (…)

– A gente nao tem nenhum parente italiano?

– Bem, o seu primo Fulano tem olho azul.

– Mas por que…

– Por que você nao vai ver se sua mae tá precisando de ajuda na cozinha?

– (…)

É por essas e outras que sempre tive vontade de conhecer a cidade. Mesmo que nao fosse pra descobrir a origem da minha família. Mas se o olho azul do primo Fulano realmente se justifica pela ascendência italiana, o que provavelemente aconteceu, nessa época incerta em que se formaram os sobrenomes, foi um morador de Viterbo se mudar da cidade e constituir família em algum outro lugar do planeta que nao se chama Viterbo, motivo pelo qual ele e os descendentes ficaram conhecidos pelo nome da cidade de origem. Afinal de contas, nao faria muito sentido alguém que mora em Viterbo se chamar “de Viterbo”. Se fosse assim eu me chamaria Carol de Belo Horizonte, como todos os belo-horizontinos. Seguindo essa lógica, eu poderia procurar a família Viterbo em qualquer lugar do mundo, menos em Viterbo. Mas de qualquer forma eu queria conhecer a cidade. A questao é que Viterbo nao é exatamente uma cidade para onde as pessoas normais sem sobrenomes exóticos sonham em viajar. Nao é uma Paris ou Londres da vida que fazem as pessoas respirarem fundo, assumir um ar distraído e dizer displiscentemente, como se fizesse parte do seu dia-a-dia:

– Essa blusinha? Ah sim, eu comprei em Paris no ano passado… Ou será que foi em Londres?

Nao precisam contar, é claro, que ficaram no hotel mais barato que encontraram, que andavam de ônibus (algumas vezes até sem pagar passagem) e que estao até hoje pagando as prestacoes da viagem. O fato de terem ido a Paris já é impressionante o suficiente. Bem diferente das reacoes possíveis quando eu respondia para onde eu ia nas férias.

– Viterbo? O que tem nessa cidade??

Sinceramente nao sei. E era isso que eu queria descobrir quando planejei viajar pra lá. Mas considerando a quantidade de cidades potencialmente mais interessantes que existem nesse continente, resolvi nao fazer de Viterbo um destino principal, mas reservar um dia da minha viagem para conhecê-la.

– Pfff… Você precisa de no máximo duas horas.

Nao, nao daria tempo de descobrir meus antepassados ou requerer o título de cidada italiana ou receber a chave da cidade. Mas pelo menos eu realizaria um sonho para muitos da minha família. E seria sim, de certa forma, uma volta às origens.

Continua…