Carol em Viterbo

8 10 2009
Vista do palácio do Papa

Vista do palácio do Papa

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Quando avistei os portoes da cidade de Viterbo, percebi que já tinha valido a pena ir até lá. Andar pelas ruas da cidade já davam a sensacao de estar em uma espécie de sonho. Talvez por eu realmente estar realizando um sonho, ou talvez por as casas tao antigas transmitirem uma sensacao de viver uma cena de filme. Medieval. Dava pra imaginar os cavaleiros e damas e clérigos andando pelas pracas da cidade. Ou os feirantes que certamente existiam em algumas ruas estreitas. A cidade parecia ainda carregar sua história e sua magia em cada uma das pedras que compunham suas calcadas e casas. E cada passo parecia me transportar a um mundo diferente, em que eu podia ser o que eu quisesse, vivenciar o que eu sonhasse. Era isso ou o sol estava realmente muito forte.

Àquela hora, a cidade parecia nao ser habitada por mais ninguém além das damas e cavaleiros da minha imaginacao. Todas as portas fechadas, nao se ouvia nada nem ninguém nas ruas, cujos contornos pareciam se dissolver na tarde. Igrejas fechadas, portoes trancados e as sorveterias que eu jurava ver pelo caminho e desapareciam quando eu olhava mais atentamente, nao podiam ser nada além de miragens. Os italianos, que conhecem o próprio sol, faziam exatamente o contrário dos turistas insensatos que resolviam viajar nas horas mais impróprias. As lojas traziam afixado na porta o horário de atendimento: 8:00-12:00/16:00-20:00. E esse é um horário que os italianos realmente respeitam. A cidade dormia sob o ar tépido da tarde. Nenhum mosquito ou banca de jornal se arriscava a permanecer acordado. O único ser vivo que se aventurava pelas ruas de Viterbo era a turista de mesmo nome, em sua busca incessante por estátuas e cartoes postais. E à medida que eu andava, que o sol andava, que o tempo andava, foi-se notando aqui e ali um movimento, até que as casas se espreguicaram, as portas se levantaram e em um bocejo toda a cidade se abriu, como se o sol acabasse de nascer.

Nao tinha tanto tempo na cidade… Nao daria de qualquer forma para descobrir meus antepassados. Mas era de certo modo divertido imaginar onde que eles teriam vivido – se é que realmente viveram lá. E comecei a procurar nos nomes de estátuas e retratos alguma referência ao sobrenome Viterbo. Porque claro que se é parente meu, tem que ser famoso. No mínimo tem que ter uma estátua na praca da cidade. Acabei descobrindo que todas as referências a Viterbo – que nao eram tao difícieis assim de se encontrar, uma vez a cidade tem esse nome – pertenciam a santos e clérigos. Porém, considerando que eram santos e clérigos, acho pouco provável que tenham tido descendentes, a menos que nao fossem tao santos assim. Mas mesmo com essa hipótese, acho que dificilmente os supostos filhos bastardos conservariam os supostos sobrenomes, ainda mais se supostamente morassem em Viterbo. Acho que eu podia entao parar de procurar nas igrejas. E encontrei em uma praca a única estátua fora das igrejas com uma que se assemelhava a um sobrenome: A Mazzini Viterbo ou qualquer coisa assim. Mas a probabilidade de esse nome ser meramente uma referência à cidade era tao grande que resolvi pesquisar no Google antes de ficar empolgada e contar pra vocês. E se o Google nao conhece ninguém com esse nome, é porque nao existe mesmo.

Seguindo a recomendacao da Quel, fui ao museu da cidade e lá descobri que o nome da cidade vem de Vetus Urbs, que significa Cidade Antiga. O que leva a pensar que, se quando foi batizada a cidade já era velha, a possibilidade de encontrar meus antepassados era ainda mais remota. E fiquei feliz pela mudanca de nome. Chamar Carol da Cidade Velha nao seria lá tao interessante. Mas sinceramente a cidade é muito mais do que um campo de pesquisas genealógicas. E acho que foi muito mais interessante passear por ela sem me preocupar tanto com o fato de ela ter o mesmo nome que eu. E aproveitando o fato de que o sorvete em Viterbo era incomparavelmente mais barato do que em Roma, pude apreciar as paisagens da cidade, todos os prédios históricos, todas as ruas que nos trazem a sensacao de estar viajando no tempo. Por alguns momentos eu nao era mais apenas uma turista curiosa com a origem do nome. Eu era o meu próprio nome e tinha encontrado nao a minha origem, mas a mim mesma.

Mas isso já está filosófico demais. O fato é que eu fiquei feliz de ter perdido o penúltimo trem que saía da cidade e de poder desfrutar mais algum tempo, ainda que fossem duas horas, dessa atmosfera um tanto quanto mágica. Fiquei apenas um pouco triste por nao ter ido às fontes termais, pelas quais a cidade é conhecida. Mas ainda há tempo pra isso. Nao acredito que essa tenha sido minha única visita à cidade. Afinal de contas, ao contrário de tudo que possa ser dito, um dia é decididamente muito pouco para conhecer uma cidade que se chama Viterbo.

Continua…

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2 responses

9 10 2009
Carol em Viterbo – Adendo « Enquanto isso, na terra da batata…

[…] Como usar « Carol em Viterbo […]

29 01 2013
Samuel Viterbo

Muito legal. Tenho Viterbo em meu nome e espero um dia ir a “nossa cidade”

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