Nas nuvens

27 11 2009

Hoje pousou uma nuvem na minha cidade. E eu morei por um dia dentro de uma nuvem. Tudo muda, de repente. O ar fica mais frio, mais denso, mais embaçado. A cidade toda se modifica. Os olhares mudam. Para mim, que moro no alto da cidade, é ainda mais intenso. E pra ver isso de perto (ou de longe) fui ainda mais alto, na floresta que fica perto da minha casa. Normalmente, de lá dá pra ver a cidade inteira com suas casas, ruas e rio. Mas hoje não. Hoje o máximo que eu podia era ouvir o barulho dos carros passando lá embaixo. Não tinha mais casa, não tinha mais rio nem ruas. Só o ruído contínuo de uma cidade que ainda vive. Estava sozinha. De quando em quando, parecia se aproximar alguém, um ser, um vulto. Mas eles evaporavam antes de chegarem perto o suficiente. Nesse dia tudo era possível. Os contornos se misturavam, se diluíam na branquidão. O mundo só existia num raio de 10 metros. Em torno de mim, apenas árvores e uma imensidão de neblina, que me fazia perder-me em mim mesma. Estava frio. A minha respiração não estava apenas visível: todo o ar era a minha respiração. Eu respirava e via nitidamente todo o ar à minha volta se movendo, como se o simples movimento dos meus pulmões tivesse o poder de fazer ventar.  E eu caminhava mais e mais para dentro. Não conseguia ver o que vinha a seguir. Não podia ver o que se passou. Eu só existia ali, naquele lugar, naquele presente. Embaçado como um sonho do qual tentamos nos lembrar. Ou em que tentamos existir. Nada parecia ser real. Nada parecia ser concreto. E eu virei de repente personagem de um filme. Ou de um livro. Ou de um blog. Em um mundo quase só meu, feito de neblina e sonhos. Não havia medo. Não havia nada além do que eu queria. Ou enxergava. E tudo o que existia eram as árvores, suas folhas alaranjadas, o chão repleto de folhas. Uma melodia doce e distante, vindo de algum ponto incerto da minha imaginação. Uma folha de papel e uma caneta. E neblina suficiente para embaçar até os textos mais concretos. Ou os mais abstratos.

Hoje eu morei num mundo feito de nuvem e sons. E gostei.





(Des)contando

21 11 2009

Sempre fez parte da minha política não contar as coisas antes de que elas aconteçam. Os motivos pra isso? Não sei bem ao certo. Mas sempre acho que as coisas perdem um pouco da sua força quando a gente conta antes o que pretende fazer. Lembro de quando eu ainda estava no Ensino Médio e comentei com alguns amigos que eu iria cortar o cabelo naquele dia. Resultado: Sabe-se lá porque, não cortei. No dia seguinte, mais decidida (ou com o cabelereiro marcado, não lembro) comentei de novo “Hoje eu corto!”. E não cortei. E só no terceiro dia, sem comentar nada é que fui conseguir o bendito corte. Pode ser que tenha sido coincidência, diria o leitor incrédulo. Mas pode ser que não. Sempre penso o que teria acontecido se eu não tivesse contado. Teria sido diferente? Ou isso é só mais uma das minhas neuroses?

Uns dizem que quando se conta algo, principalmente quando é algo bom, que ainda não aconteceu para certas pessoas, essas pessoas podem, ainda que inconscientemente ter uma certa inveja e mentalmente boicotarem o tal projeto. Outros dizem que a fala possui energia e quando você expressa um planejamento em palavras, a energia mental se transforma em energia sonora e o planejamento perde o potencial que tinha antes de ser pronunciado. Outros acham exatamente o contrário e dizem que quando você fala você realiza sonoramente o que existia apenas no plano mental e por isso torna maiores as chances de seus projetos se realizarem. Bla-bla-blás à parte, sempre achei melhor não contar nada. Só conto depois que já aconteceu ou quando as coisas já estão certas o suficiente pra não se perderem em qualquer teoria. Por isso prefiro não contar nada antes de fazer uma prova, de prestar um concurso. Só conto depois de ter passado. Por isso minha família só ficou sabendo que eu queria ir pra Alemanha depois de eu ter passado na prova do programa de intercâmbio da UFMG (que foi antes de eu resolver vir como au-pair, longa história…). Por isso meus leitores só ficam sabendo das minhas viagens depois de eu já ter voltado. E porque eu adoro deixá-los curiosos. Mas isso não é novidade. Mas, depois de um longo tempo semeando a curiosidade e a angústia entre meus queridos leitores, resolvi que não faria mal compartilhar um pouquinho do que eu estava planejando. E foi assim que no último post eu contei que iria pra München – que na verdade se chama Munique  em português.

Não sei se as coisas teriam acontecido de outra forma se eu não tivesse contado. Já estava tudo certo, tudo planejado. Mas eu não contava com um certo vírus, o mesmo que contaminou todo o jardim de infância, 70% da minha família e provavelmente a metade do corpo docente da minha faculdade (único motivo que explicaria o fato de metade das minhas aulas não tenham acontecido por motivo de doença). Eu não imaginava que esse vírus que aparentava ser tão inocente resolveria me atacar justo na sexta-feira. Normalmente eu acharia bom ficar a sexta-feira sem trabalhar. Em condições normais eu poderia até mesmo prolongar minha estadia em Munique. Mas o fato é que eu não consegui fazer muita coisa na sexta além de ficar deitada o dia todo. Até levantar o copo d’água se tornou uma tarefa difícil. Mas pelo menos o tal vírus tinha uma certa vantagem: duração curta. 24 horas, na maioria dos casos observados, talvez até menos. Ou seja, ainda dava pra ir pra Munique. Eu, que comecei a passar mal de manhã, só fui ter fome à noite (o que considerando que estamos falando da Carol, é no mínimo preocupante). A dor de cabeça, só passou de madrugada, quando eu não consegui mais dormir. E só fui me sentir realmente bem há algumas horas, quando os planos pra Munique já tinham ido por água abaixo.

Não sei o que aconteceria se eu não tivesse contado. Pode ser que no fim das contas eu tenha leitores invejosos. Pode ser que tudo aconteceria do mesmo jeito tendo eu contado ou não. Não sei. Mas devo dizer que, por via das dúvidas, vocês podem morrer de curiosidade: da próxima vez, eu não conto.





19 11 2009

É chato isso, mas a verdade é que tô sem tempo nem pra digitar os textos que já tenho prontos… E o tempo que eu tenho aproveito para ir em todas as padarias que tenho direito. Afinal, preciso de assunto pra escrever, mesmo que não escreva aqui.

Esse fim de semana vou pra München!!!





Férias de batatas

15 11 2009

A Alemanha é provavelmente o país que mais tem férias nesse planeta de deus. Na escola, além das férias de verão, que duram de dois a três meses, as crianças têm até duas semanas de férias a cada mês e meio de aula. As últimas férias, de uma semana, foram em outubro. Assim, enquanto os professores no Brasil inventam aulas extras o ano inteiro para garantir a tão esperada e criticada semana de outubro, os alemães ganham-na de graça. Mas aqui os motivos das férias são outros. Hoje essa semana se chama algo como férias de outono (Herbstferien). Mas antigamente, para honrar o nome de Terra da Batata, as férias tinham o aclamado nome de Kartoffelnferien, ou seja, Férias das Batatas. Quando descobri isso, me interessei bastante pela origem desse nome tão peculiar e resolvi pesquisar a fundo o que levou a Terra da Batata a ter uma semana com esse nome. Seguem abaixo os resultados da minha pesquisa.

Depois de trabalharem longos meses no campo nessa vida cansativa de fazer fotossíntese, sugar água, pegar nutrientes do solo, entre outras atividades, os pés de batatas finalmente ganham suas merecidas férias em outubro. As batatas são retiradas dos campos frios e selvagens, onde correm o perigo de serem devoradas por porcos ou pisoteadas por crianças e são levadas para galpões, despensas e panelas para serem devoradas de forma mais decente e civilizada, com no mínimo uma oração antes das refeições. Antigamente, para comemorar a semana das batatas, as crianças em vez de irem pra aula iam pro campo ajudar os pais a proporcionar mais conforto e alegria para os queridos tubérculos. Hoje, que a maioria das batatas já nasce empacotada no supermercado, as férias continuaram, mas o nome mudou. E agora é o outono que tira férias para virar inverno nas férias seguintes.Sem as tão esperadas férias, os pés de batata são obrigados a fazer muito mais fotossíntese do que antigamente. O stress e o excesso de trabalho tem propiciado o aparecimento de manchas de coloração esverdeada bem como de deformações genéticas, o que gera aberrações nunca antes vistas e pode propiciar inúmeros problemas sociais e psicológicos entre as batatas.

batata complexada 1
E.K.

O Instituto de Proteção à Batata (Kartoffelschutzinstitut) tem recebido um número cada vez maior de batatas com problemas de inadequação social. É o caso de E. K., mostrado na foto à direita. E.K., que preferiu não ser identificado, começou a apresentar problemas de relacionamento com outros vegetais depois de ter sido rejeitado por uma criança no supermercado. Em seguida, não conseguiu mais permanecer no compartimento de batatas e migrou para o compartimento de abobrinhas, pimentões e tomates, mas foi expulso de todos eles. Totalmente traumatizado, foi recolhido por psicólogos do instituto, que tentam integrá-lo novamente à sociedade. E.K. já considera a possibilidade de se submeter a uma operação, embora especialistas afirmem que as incrustações na sua pele sejam absolutamente normais. “A maior realização para uma batata hoje é servir de alimento para os seres humanos. Elas são plantadas e cultivadas com esse fim e quando não conseguem cumprir o objetivo para o qual foram designadas, como no caso de E. K., isso gera um quadro depressivo dificilmente reversível.”, diz Hans Backfisch, supervisor do Instituto. A maior parte dos pacientes do Instituto reclama da ausência das férias de outubro, que antes eram tão esperadas.

batata lisa
Lisa

“Sempre ouvimos dos nossos avós como era feliz a época em que as crianças ajudavam na colheita. As batatas eram tratadas com muito mais carinho e respeito. Hoje somos friamente empacotadas para os supermercados e ouvimos cada vez menos agradecimentos antes de sermos devoradas. Eu tive a sorte de ter um outro destino, mas a maioria das batatas tem o mesmo fim”, diz Lisa, uma batata doce que foi adotada por uma menina de 6 anos e hoje ajuda na recuperação de outros tubérculos no Instituto. “O caso de Lisa é bastante diferente dos outros”, diz Johannes Meier, psicólogo voluntário do Instituto, “enquanto as outras batatas sofrem com a rejeição humana, Lisa sente-se mais próxima dos humanos e tenta até mesmo se passar por um deles. Mas não é capaz de admitir que também foi rejeitada pela criança que a adotara”. Johannes diz que uma das causas dos problemas observados nas batatas também pode ser fruto da larga utilização de agrotóxicos e das experiências para melhoramento genético a que as batatas são submetidas.

Na última reunião do Kartoffel-Gewerkschaft, organização sem fins lucrativos em prol dos direitos das batatas, foi determinado que, caso as condições de trabalho não sejam melhoradas, os pés de batata de toda a Alemanha pararão de produzir batatas e o país, famoso pelos seus tubérculos corre o risco de perder o tão estimado título de Terra da Batata. Também foi exigida pela organização a supressão dos experimentos genéticos com os vegetais, que pode colaborar para o aparecimento de deformações, gerando inúmeros problemas sociais para os tubérculos atingidos. A utilização de produtos inseticidas também foi colocada em pauta, mas as opiniões quanto à sua proibição são divergentes. Alguns integrantes do Kartoffel-Gewerkschaft alegam que os produtos serviriam para a proteção dos pés de batata e que por isso devem ser mantidos. Outros membros preocupam-se com o impacto ambiental de tais produtos e a influência indireta que exercem nos pés de batata.

A crise das Batatas é vista como uma das mais graves da história da Alemanha, sendo comparada até mesmo com a crise econômica mundial e a gripe suína. A sociedade também se preocupa e se empenha na realização de diversos protestos em defesa das batatas. O estudante de biologia Stefan Winke, um dos integrantes do movimento, declarou em entrevista: “Conheço as batatas desde pequeno. Sempre ajudei no plantio e na colheita delas e me preocupo com a situação. Estou disposto a lutar para que elas tenham uma melhor qualidade de vida. “

Só resta esperar que as autoridades tomem as providências cabíveis para que a Alemanha possa manter o seu título de Terra da Batata com a honra e dignidade de um país do seu porte. Afinal, como diz o lema do Kartoffelschutzinstitut, “os tubérculos são nossos amigos e merecem respeito”.

batata coração

Demonstre você também o seu amor pelas batatas!





É o seguinte…

10 11 2009

Sei que vocês estão esperando pela continuação da saga… Mas eu não imaginava que ela ficaria tão grande. Nem que eu teria tão pouco tempo pra escrever. A primeira parte foi mais rápida, porque já estava escrita, mas eu precisaria de uns três ou quatro posts pra terminá-la e infelizmente não estou tendo esse tempo agora. Mas em compensação já tenho tantos outros textos escritos! Textos que eu queria de verdade publicar, mas não faço por causa da saga. E acho que não tem muito sentido escrever sobre uma coisa que aconteceu há mais de dois meses quando tenho tantas notícias tão mais frescas, espalhadas pelos meus cadernos. Espero que vocês sejam os leitores compreensivos que eu sei que tenho e não cortem as relações com meu blog por causa dessa bobagem. Pelo menos vocês poderão ler vários outros textos dentro de (espero) pouco tempo. Não quero deixar que as batatas fresquinhas de agora já sejam batatas velhas quando eu publicar. Afinal, tem coisa mais gostosa que uma batata quentinha, douradinha, tirada do forno na hora? É pensando nisso e desconsiderando a fome que a última frase me causou, que espero que vocês saboreiem com gosto as próximas batatas. Bom apetite!





Nas Garras da Máfia – Parte IV

6 11 2009

Leia a Parte III aqui

Hotel Residenzia

Prezzo massimo della camera 207: 120 €

Prezzi per persona e giorno con buffet di prima colazione

Li duas ou três vezes, antes de ter certeza do que estava escrito. Até recorri ao meu manual de italiano, mas não era tão necessário para entender o que estava escrito ali. Já tinha visto alguns hotéis colocarem o preço na porta dos quartos, mas o preço afixado costumava coincidir com o que era realmente pago pelo quarto. Naquele caso, o preço afixado era 12 vezes mais alto do que eu teoricamente pagaria. E depois de já ter assinado o termo de compromisso contendo o número do quarto e de noites, o que segundo a moca da recepcao seria  praxe do hotel, depois de ter deixado um documento pessoal  como “garantia”, até que eu fizesse check-out, depois de já estar relativamente instalada no quarto que por sinal era o mesmo do Brédi é que fui me dar conta de que ela não tinha me dado nenhum comprovante, nenhuma conta, nada que comprovasse o preço que ela disse que eu pagaria. Como eu não tinha reserva, não tinha também nada que confirmasse o valor que eu tinha conseguido pelo site. Isso somado à história do hotel inexistente e à facilidade com que o preço abaixou só de mencionar o preço da internet gerava supeitas preocupantes. Antes de começar a viagem, tinha lido algumas histórias de turistas que não eram nada convidativas. Histórias de pessoas que foram a restaurantes que cobraram taxas absurdas, inexistentes no cardápio. Caso os clientes se recusassem a pagar ou reclamasse da conta, o garçom trazia dois seguranças no melhor estilo lutador de jiu-jitsu, que sugeriam sutilmente que era melhor o cliente pagar sem reclamar. E fiquei imaginando se isso seria o caso daquele hotel. Não tinha a menor idéia do que eles poderiam fazer caso  eu me recusasse a pagar. E não era tao divertido ficar imaginando isso. Comecei automaticamente a pensar em todas as rotas de fuga possíveis caso eu precisasse fugir – provavelmente um resquício da minha época de polícia. Já começava a gerar planos mirabolantes e provavelmente a falar sozinha quando ouvi uma voz atrás de mim. Me preparei para virar depressa e sair correndo gritando uma daquelas coisas que a gente só ouve em filmes do sbt: “Você não vai me pegar com vida!”, mas me lembrei de que o Brédi ainda estava lá. E consegui me recompor da síndrome 007 a tempo de responder sem que ele achasse que eu estou louca. O que seria pior do que não escapar com vida. E além de constatar que eu preciso rever minhas prioridades, percebi que ele ficou preocupado quando viu o papel, ainda que não quisesse deixar transparecer.

– Estranho, não?

– O que você acha que pode ser isso?

– Sei lá… Mas eu diria que esse hotel não parece ser nenhuma instituição de caridade.

– Parece ser fachada…

– O que a gente faz? Avisa a polícia?

– E se a polícia for cúmplice?

– Avisa o consulado alemão? – a cena do 007 com o homem sendo perseguido dentro da embaixada não saía da minha cabeça. (não, eu não assisto só Amélie Poulain)

– Nem sei se aqui tem consulado… Grande a cidade não é. E não sei em que isso ajudaria também. Até onde eu sei, aqui ainda é União Européia.

– Você leu alguma coisa sobre esse hotel na internet?

– Pouca coisa. Parecia bom. Barato de qualquer forma.

– E você fez reserva?

– Não. Até tentei, mas as reservas pela internet estavam bloqueadas.

– Então você também não tem um comprovante do preço? – começava a ficar mais preocupada.

– Não.

– Você acha que a gente deve perguntar na recepção, qual é o preço de verdade?

– Não sei se isso ajudaria em alguma coisa…

– O que a gente faz então?

– Quer dar uma volta?

E assim, feliz por ter uma companhia (e que companhia, diga-se de passagem) pra passear na cidade, saímos do hotel fantasma e deixamos as preocupações de lado. Ainda que não por muito tempo.

Continua…





Nas garras da Máfia – Parte III

2 11 2009

Leia a Parte II aqui

Não é exatamente normal que homens bonitos tenham muita influência em mim. Na verdade o mais comum é que aconteça o contrário. Todas as amigas reunidas em um típico encontro a la Luluzinha e uma solta uma dessas:

– Mas o Fulano é um gato, não é?

E entre as minhas reações mais prováveis estão:

1. Quem??? (seguida naturalmente de protestos de todas as outras, por eu não conhecer quem está arrasando os corações femininos nas novelas da vida, que eu naturalmente não assisto)

Depois de reconhecido o assunto do dia, fingir que foi reconhecido ou na hipótese mais improvável de eu saber de quem estão falando, a reação pode ser assim:

2. Ah… Mais ou menos, né? (acompanhada de uma cara de muxoxo por minha parte e caretas de indignação de todas as outras, que se levantam das cadeiras sem acreditar como pode um ser humano do sexo feminino classificar o Fulano como “mais ou menos”. Não pode. E sinto que está ficando perigoso quando elas começam a enumerar todos os motivos que fazem do fulano o bambambam do momento, incluindo na descrição a cena tal ou a foto tal que toda fêmea do planeta teria a obrigação civil, moral e religiosa de ter visto. “Você não acha, Carol?” E é nesse momento, com todas as cabeças voltadas para mim, sem coragem de admitir que o único homem quase famoso cujo dia-a-dia eu acompanho tem cerca de 1,60 de altura, é careca e azarado, e sentindo que a minha resposta pode determinar a sobrevivência ou não de muitas amizades, respondo:

3. Tá bom, tá bom, nessa foto ele tá bonitinho sim – e sentindo a respiração profunda que antecede as batalhas verbais mais perigosas, corrijo a tempo – Bonito. Eu quis dizer bonito (e consigo assim acalmar um pouco os ânimos, mesmo que muitas vezes eu não tenha nem mesmo uma idéia muito clara de quem elas estão falando).

Já aconteceu muitas vezes também o contrário: eu acho um certo homem bonito e comento com uma ou mais amigas, que têm ao mesmo tempo uma reação semelhante a que as pessoas têm quando se imaginam comendo um limão. Com casca. Foi assim que eu descobri toda a minha dificuldade em determinar o grau de beleza masculino. Demorei consideravelmente para descobrir, por exemplo, que meu namorado era bonito. Tive que pedir diversas consultorias e só quando uma dúzia – no mínimo – de pessoas concordou comigo, é que pude ter certeza. São realmente raras as vezes em que minha opinião sobre esse assunto converge com a da maioria da população. E é exatamente esse o caso de  fenômenos da natureza como Brad Pitt e o rapaz do hotel, que vamos chamar aqui de Brédi. Isso explica o estado de espírito em que eu fiquei quando o vi na recepção do hotel. Era como ter encontrado o próprio Brad. O Brédi seria sem sombra de dúvida a reunião de todos os requisitos luluzísticos para determinar se um homem é bonito.

E imaginem agora que, ainda sob o efeito dessa visão, sem ter muita certeza de que aquilo tinha realmente acontecido, eu abro a porta do quarto e vejo, sentado em uma das camas, como se fosse uma miragem, ele, o Brédi, ocupado em esvaziar a mochila. Entro no quarto e ele se vira, me dando um sorriso de boas vindas que apagou por um momento qualquer preocupação relacionada a máfia e hotéis. Já estava valendo a pena ficar hospedada ali. Conversamos um pouco no meu inglês de boteco, até que eu descobri, depois de meia dúzia de palavras, que ele era alemão. Respirei aliviada por não precisar mais queimar meus neurônios no território bretão. E só fui voltar a me preocupar com essa história mal-contada do hotel que não existe quando descobri atrás da porta algo que despertou preocupações muito mais sérias que a determinação do grau de beleza masculina…

Continua…