Malas e tralhas

4 02 2010

Nunca imaginei que em um ano pudesse-se acumular tanta coisa. Depois de decidir não pagar uma mala extra, o primeiro passo para arrumar as malas foi me livrar de tudo que estava estragado ou não servia mais de alguma forma. Depois de jogar fora um terço das coisas que eu tinha no meu quarto e metade das coisas que eu já tinha salvado do lixo e ver que ainda estava longe de caber nas duas malas despachadas e na bagagem de mão, tive que me livrar de todas as coisas que eu ainda poderia usar, mas que não eram lá tão bonitas. Depois de jogar fora muitas outras roupas e sapatos e bolsas e mochilas e meias e calcinhas, percebi que não tinha sentido trazer casacos de inverno pro Brasil quando se mora em uma cidade em que 15ºC é frio, mas que também não tinha sentido jogar fora coisas que ainda estavam em perfeito estado de uso, ainda que sejam, sob certo ponto de vista, inúteis. Depois de perguntar com jeitinho se eu poderia deixar algumas coisas na casa dele e de separar cuidadosamente o que seria deixado pra trás, o que talvez poderia ser enviado depois e o que era totalmente inútil, mas que eu não conseguia jogar fora por razões emocionais absolutamente incompreensíveis, descobri que a montanha de coisas a serem deixadas já estava ficando maior que a de coisas a serem levadas e que por mais que ele gostasse de mim o coração (ou o quarto) dele não era grande o suficiente para abrigar tanta tralha. Depois de vencer barreiras emocionais incompreensíveis para a mente alemã e me desfazer de coisas que em outra situação seria inconcebível e perceber que ainda assim não era suficiente, comecei a entrar em desespero. Olhava para as roupas espremidas na mala, cada uma comprada em uma promoção diferente e sabia que tinha que me desfazer delas. Mudei meus critérios. Só entravam na mala coisas absolutamente indispensáveis, impecáveis e imprescindíveis ou que representassem uma ligação emocional forte demais para que fossem deixadas para trás. E depois de pesar as malas descobri que teria que deixar até a ligação emocional de lado. A sensação era de jogar fora uma vida inteira construída nesse ano.

Quando comecei a arrumar as malas, há algumas semanas, decidi que não repetiria o erro da vinda, em que nos últimos minutos eu ainda estava arremessando coisas pra dentro da mala. Por isso quis planejar tudo direitinho, decidir exatamente o que seria levado e tudo o mais. Claro que não deu certo. A minha gast foi compreensiva e me deu os dois dias antes da viagem de folga pra que desse tempo de organizar tudo. E como eu sou eu, é claro que em vez disso eu fui passear, andar de trenó, despedir dos amigos e deixei pra terminar de arrumar as malas e o quarto duas horas antes da viagem. Achei que seria fácil. No fim das contas eu já estava jogando as coisas de qualquer jeito nas malas, jogando coisas fora sem pensar um segundo em relação emocional ou impacto ambiental ou terremoto no Haiti. O plano era sair às 15 horas e quando minha Gast percebeu que eu não cumpriria o prazo, começou a ficar nervosa. Entrou no quarto abrindo gavetas e portas de armários e dizendo onde ainda havia coisas minhas. Eu tinha pensado que talvez poderia deixar algumas coisas pra eles, pras crianças, pra futura au-pair, sei lá. Mas depois que ela disse que queria que eu deixasse tudo vazio, não me importei mais. Foi tudo embora. Coisas que há alguns meses eu certamente resgataria do lixo. coisas que eu de fato resgatara. Coisas que poderiam realmente ser úteis para eles, para mim, para o mundo. Tudo ensacado e empilhado na garagem. Ou encaixotado para ser levado para a casa dele. O quarto que nos últimos meses eu quase não habitara, revelou abrigar mais coisas do que eu um dia sonhei em encontrar nele. Saí de lá levando apenas estritamente a bagagem permitida, aproveitando a brecha no controle da bagagem de mão. Malas despachadas eram duas. Na mão só poderia levar teoricamente uma. Acabei levando três, sem contar o casaco e torcendo para que eles realmente não fizessem o controle.

No fim das contas minha gast se acalmou e resolveu interpretar o atraso de uma hora não como desleixo, mas como uma tentativa inconsciente de prolongar minha despedida. Eu, que achava que estava mais pra desleixo, só estava preocupada se ela se lembraria de me dar o dinheiro que havia prometido – ou eu nem conseguiria voltar pra casa. Mas isso é assunto pra outro post.

Advertisements

Acções

Information

3 responses

6 02 2010
Genin

Ei, Carol!!

Nossa, que triste ter que deixar coisinhas queridas pra trás, mas eh bom pensar que vc vai rever outras coisas e pessoas queridas aqui, né?!!!!!!!

beijooo

8 02 2010
Genim

Ué, não fui eu quem escrevi esse comentário não.
Q estranho…
Sem contar q meu apelido é com “m”…
Mas concordo com o comentário. Na verdade, é horrível deixar as coisas. Quanto a rever as pessoas é ótimo, entretanto depois que passamos muito tempo “vivendo outra vida” dá uma vontade de rever os daqui e voltar pra lá.
bjs

8 02 2010
Carol

Gente, clonaram o Genim!!! Quem é o outro? Fiquei curiosa…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: