A Chave da Liberdade

15 02 2010

Com fome, cansada e com os músculos doloridos de peso, de stress. Era assim que eu estava na fila do controle. Ele ainda estava lá, há alguns metros, como eu tinha pedido. Fiquei com medo de que acontecesse como na minha primeira viagem, em que fiquei sozinha e totalmente perdida, sem o saquinho para líquidos. Dessa vez, com os saquinhos, o problema era a mala. Dentre as recomendações para bagagem de mão, está que a mala de mão deve medir no máximo 56 x 45 x 35 cm, para que coubesse nas caixas em que a gente coloca a bagagem de mão no controle. Eu tinha comprado a minha mala há pouco tempo, justamente para essa viagem e ao medi-la, descobri que tinha exatamente 56 cm de altura, talvez ainda um pouquinho mais. Fiquei com medo de que o controle fosse rigoroso o suficiente para me mandar despachar a mala por causa de meio centímetro. Mas eu descobri que a alça da mala era retirável e que as dimensões da mala diminuiam um pouco quando retirada. O problema é que eu precisava de uma chave de fenda para isso. E eu não podia embarcar com uma chave de fenda. Por isso pedi que ele levasse uma chave de fenda e ficasse com ela a postos para o caso de eu precisar de seus serviços. Isso tudo observando de longe, já que só podia entrar quem tivesse passagem. Como (ainda) não era o caso, ele esperou pacientemente até que eu estivesse do outro lado do controle. O que nós não sabíamos é que isso demoraria tanto tempo!

Ainda na fila eu já percebi que a chave de fenda só ia servir pra virar história no blog. Muitas malas, até maiores que a minha às vezes nem entravam na tal caixa e eles deixavam passar do mesmo jeito. Chegando minha vez, coloquei minha mala, que não coube 100%, mas passou, o saquinho com os líquidos separados, a mochila do notebook, o notebook separado, a “bolsa pequena de mão” que devia pesar uns 15 kg, o casaco, o moleton por baixo do casaco, o cinto e quase achei que ia precisar tirar a calça também, mas não chegou a tanto. Passei e o aparelho apitou. Agora tinha que tirar o sapato também, que foi pro raio-x, além de ser revistada. Depois de concluirem que eu não corria o risco de explodir o avião ao pisar mais forte, me deixaram passar. E fui lá juntar minhas coisas que saíam do raio-x. Estava tudo lá, menos a mochila. Comecei a olhar pros lados, vendo se alguém tinha pego “por engano”, mas não encontrei ninguém. Foi aí que uma mulher do controle me chamou. E disse que tinha encontrado uma irregularidade nela e que teríamos que abrir. Ela mostrou no raio-x a imagem de uma aparentemente inocente ferramenta de bicicleta, que poderia até ser confundida com uma régua escolar. Mas não foi. E não passou ilesa aos olhares peritos do pessoal do controle. Me perguntei por que diabos eu tinha colocado a tal ferramenta na bagagem de mão… E a resposta ficou clara quando abrimos a mochila. A bagunça só não era comparável à do meu quarto porque as dimensões da mochila não o permitiam. Mas era quase. A quantidade de coisas diferentes e absurdas que lá estavam deixavam claro que eu tinha terminado de “arrumar” as malas há algumas horas. E pela expressão da funcionária, ela também tinha percebido que encontrar a ferramenta perdida não seria tão fácil como ela supusera. Mas nem eu poderia imaginar que seria tão difícil. Depois de tatear e revirar todo o conteúdo da mochila, esbarrando em coisas como cadeados de bicicleta, lanternas, tomadas e roupas íntimas e causando ainda mais desordem em um sistema que já estava irremediavelmente perdido, a tal ferramenta não foi encontrada. Resolvemos mudar de método, a funcionária agora me ajudando a revirar o conteúdo e como ainda não desse resultado, começãmos a tirar coisas da mochila, tão descuidadosamente arrumada. Tiramos metade das coisas e tateamos novamente, incluindo bolsos externos, internos e compartimentos secretos e ainda não encontramos. Ela passou a mochila novamente pelo raio-x, para ver onde devíamos procurar a ferramenta assassina e vimos que ela ainda estava lá, a despeito da incessante procura. Nova tentativa, abrindo nécessaires, bolsas, estojos e tudo o que pudesse por ventura esconder o objeto do crime. Não encontramos.

Percebi pelos olhos da mulher, agora revelando todo seu desejo de desmascarar um terrorista de verdade, que encontrar a ferramenta perdida tornara-se uma questão de honra. E enquanto metade do meu ser preocupava-se em vigiar o resto da bagagem do outro lado e a outra metade se perguntava a que horas eles serviriam o jantar no avião, percebi que talvez até minhas esperanças no jantar poderiam ser frustradas. E ela, já com um quê de cão perdigueiro, só parou de farejar a mochila quando viu que eu já deveria ter embarcado há cerca de 40 minutos. E depois de considerar longamente as possibilidades de eu provocar um atentado terrorista usando uma chave de bicicleta, resolveu me liberar a contragosto. E eu parti, levando comigo a chave assassina e a permissão de liberdade. Pelo menos teoricamente.

Consegui embarcar a tempo, embora tenha sido uma das últimas pessoas a entrarem a bordo. Espremi a bagagem no compartimentoacima, no banco à frente, ao lado, no colo e onde mais foi possível. E depois de muitas horas de viagem, depois de chegar em casa e tirar toda a bagagem das malas, bolsas e mochilas, pude constatar, num misto de incredulidade e surpresa: A chave não estava lá.

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