A decisao

21 03 2009

No sábado eu ainda tinha outro encontro com a Iris. Ela disse que me ligaria no meio da semana e nao ligou, mas segundo a Claudia, se um horário é estabelecido na Alemanha, nao precisa ligar confirmando. E para que todas as pragas da Claudia nao caíssem sobre minha cabeca, resolvi ir assim mesmo. E minha vontade de ir era tanta que acabei me distraindo olhando alguns e-mails e perdi a hora. Depois de uns 15 minutos de atraso resolvi ligar pra ela e perguntar se eu ainda deveria ir. E qual nao foi minha surpresa quando ela disse:

– Ah… nao, meu marido nao está aqui e a au-pair canadense que tinhamos contatado deve vir mesmo.

Fiquei feliz, é claro. Nada pior que uma manha na casa da Iris pra estragar o dia da gente. Mais tarde descobri que ela tinha me mandado um e-mail avisando pra eu nao ir. Mas foi tao em cima da hora que nao deu tempo de ver antes de sair de casa. E olha que eu perdi a hora com isso. Acho que ela queria se vingar de todos os meus atrasos e bolou isso. Que bom que nao deu certo.

Fiquei perambulando um pouco pela cidade, respondi alguns e-mails. E descobri que nao aguentava mais falar com a familia de perto da Suica. Se antes de conhece-los já estava assim, imagina morando com eles?? E entao caiu a ficha de que a família que eu tinha visitado no dia anterior se encaixava perfeitamente nos meus objetivos e que eu nao precisava esperar até segunda-feira pra ligar pra eles. E foi o que eu fiz ao chegar na casa da Mathilde.

Peguei o telefone e já senti o conhecido frio na barriga, mas de forma tao intensa que pensei que fosse passar mal. Eu tinha feito minha decisao e agora tudo que eu queria era que eles me aceitassem apesar de tudo que a Erika certamente tinha falado pra eles. Acho que minha mao estava tremendo quando disquei o número e minha voz a acompanhou quando comecei a conversar com a Marion. Falei pra ela que já tinha conversado com algumas outras famílias, mas que tinha gostado muito da família dela e me decidido por ela.

– Fico feliz em ouvir isso, Carol. Mas ontem eu conversei com a Erika e ela me disse coisas muito ruins de você – prendi a respiracao para ouvir o que vinha em seguida. – mas eu acho que tudo tem dois lados e queria ouvir também o que você tem a dizer.

Nao falei muito, até porque estava nervosa demais pra isso. Nao falei mal da Erika também, porque eu nao preciso descer a esse nível. Mas expliquei que achava que foi muito cedo para a Erika ter tomado a decisao de me mandar embora e que o comeco era sempre mais difícil por serem tantas coisas diferentes em que prestar atencao.

Ela concordou comigo e disse que a Erika nunca tinha tido uma au-pair antes e que a primeira experiência também é mais difícil. E que ela conhecia a filha da Erika e ela nao era muito espontânea. E que ela tinha gostado muito de como eu conversei com o filho dela, quando os visitei.

– Entao você acha que pode dar certo?

– Sim! Eu acho que pode dar certo!

E combinamos que eu poderia mudar pra lá já na segunda feira.

E depois de desligar o telefone nao estava só respirando aliviada, mas pulando de alegria. E cheguei na cozinha abracando a Mathilde, na verdade quase dancei com ela ali. E estava realmente muito feliz. Parecia que finalmente esse pesadelo ia acabar. E eu nao vou dizer aqui que “somente parecia” ou qualquer coisa assim, como no suspense dos outros posts. Mas vou deixar terminar nessa sensacao de felicidade que eu estava sentindo na hora. Ainda que ela tenha durado tao pouco.

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Brincadeira, brincadeira…. Desculpem, nao resisti! =D





Isso nao acaba nunca?

21 03 2009

No mesmo dia em que visitei essa familia tive que voltar a Schriesheim pra pegar algumas roupas. A Mathilde nao podia ir la no dia pra buscar minhas malas, talvez fôssemos só na segunda e eu nao podia sobreviver todo esse tempo sem calcinhas limpas. Eu tinha “esquecido” de devolver a chave do quarto e aproveitei pra usá-la. Claro que teria sido muito mais educado bater na porta em vez de chegar abrindo, mas a Mayara nao se importou. Eu tinha olhado pela janela do quarto e parecia nao ter ninguém, e eu achava que a Mayara estava trabalhando no horário. Mas que bom que nao estava. Fiquei muito feliz em revê-la, mesmo que a gente tenha se encontrado no dia anterior, já sentia saudades de alguma forma. E eu fiquei mais ou menos uma hora sem saber se eu pegava minhas roupas, se conversava com a Mayara, se abria o guarda-roupa, (que obviamente nao tinha mais nenhuma roupa minha) ou se continuava conversando. E contei pra ela das famílias com que eu tinha conversado, do fatídico encontro com a Erika, da casa da Mathilde, enfim, todo o conteúdo dos últimos posts, mas com mais detalhes – o que rende uma conversa e tanto. Impressionante como um único dia pode gerar tanto assunto.

Mais tarde chega a Claudia, com a desculpa de saber como eu estava, mas na verdade só pra pegar a chave de volta. Continuamos conversando e eu já tinha desistido de demorar só uma hora lá. Acabei perdendo vários ônibus – e lembrem que os ônibus lá passam de hora em hora – mas estava muito feliz de conversar com ela de novo. E foi nesse momento de felicidade que meu celular tocou. “Ah, que droga, mais uma dessas famílias me ligando” – sei que eu devia ficar feliz com isso, mas eu simplesmente nao aguentava mais atender o telefone. Achei que devia ser de novo a família de perto da Suíca, que me ligava com frequencia e ficava sempre mais de meia hora conversando. Mas nao era. Fiquei surpresa ao ouvir a voz da Erika do outro lado. E eu só tinha a visto tao furiosa, tao alterada no dia que ela me colocou pra fora de casa. Mas foi até filosófica:

– O mundo pode ser grande, mas Heidelberg é muito pequena. E a familia que voce visitou hoje me ligou falando que viu uma foto com você e minhas meninas e as reconheceu. Eu vou ser bem clara com você: eu nao quero que voce divulgue fotos das minhas filhas na internet. É isso.

tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu

Curta e grossa, sem direito a defesa. Percebi todas as modulacoes de voz, a raiva contida, a vontade de explodir em um grito e a sensatez de manter sempre o controle, qualidade inerente a uma pessoa normal.

Mal pude responder que eu nao havia divulgado a foto das meninas, só havia mandado por e-mail pra uma das agências que ela mesma tinha recomendado e que exigia fotos com criancas. E essa foto nao era nem de longe a melhor que eu tinha, mas a única que consegui. Nao era também nenhuma foto pornográfica, na verdade acho que elas nunca tinham tirado uma foto tao vestidas como naquela. Nao dava nem pra ver o rosto direito, de tanta roupa… A maioria das famílias colocam fotos dos seus filhos nos sites de au-pairs, nao era uma coisa de outro mundo e nenhum motivo pra ficar tao alterada. Talvez a exposicao precoce das filhas pudesse prejudicar o desenvolvimento normal delas. Ou talvez ela simplesmente nao quisesse que as filhas fossem vistas associadas com pessoas do meu tipo. Vai saber…

Só sei que esse telefonema me trouxe uma preocupacao a mais. Entao a Marion tinha ligado pra Erika… O que será que elas tinham conversado? Depois da visita à casa da Erika, tive a certeza de que ela nao iria continuar falando o que combinamos pras famílias. E o que eu poderia esperar que ela tivesse falado estando tao furiosa comigo? “Ah, ela divulgou as fotos das minhas preciosas filhas sem minha autorizacao, mas tirando isso é uma menina de ouro!”

Claro que nao. No mínimo passou uma versao pior do que foi passada pra Claudia. O que era bastante preocupante.

Nao consegui ficar muito tempo em Schriesheim depois disso. Fomos um pouco pro bar do hotel, e depois de conversas, sucos, despedidas e de descobrir que eu tinha que esperar mais uma hora até o próximo ônibus,  acabei pegando uma carona com o cozinheiro do hotel, que ficou com tanta pena de mim depois de ouvir minha história que acabou me levando até em casa e dizendo que podia me ajudar a procurar uma família.

– Eu estou fazendo isso pra você, mas eu nao tenho nenhum interesse nisso. – ele fez questao de dizer – Eu sou casado, tenho esposa. Só quero ajudar.

Nao tinha pensado nisso (apesar de ter demorado um pouco a aceitar a carona), mas achei legal ele dizer. E me deixou em casa, em seguranca. E a minha única preocupacao, depois de lembrar do telefonema da Erika era “o que vai acontecer agora?”





Expectativas

20 03 2009

No inicio, desde que eu ainda estava na casa da Erika, eu comecei a procurar uma familia seguindo varios criterios. Primeiro tinha que ser em Heidelberg, por causa da faculdade. Além disso, nao queria cometer o mesmo erro e ir pra uma familia que nao falasse alemao, ou quisesse que eu falasse outra lingua. De preferencia uma familia alema. Pra mim uma das principais coisas era que eu me sentisse bem na casa e na familia, o que nao acontecia na casa da Erika. Seria bom é claro que eu tivesse um quarto espacoso, de preferencia separado da casa, pra eu nao trabalhar 24 horas por dia e ter minha privacidade, com televisao, acesso a internet, banheiro individual, etc. Nao queria tambem cuidar so de meninas ou so de meninos nem so de uma faixa etaria. De preferencia meninos e meninas de faixas etarias diferentes. Talvez isso signifique ate mais trabalho, mas acho que o aprendizado é maior tambem. Seria bom tambem que a familia fosse compreensiva, aberta, que nao me mandasse lavar banheiro, que aceitasse essa condicao de estudante, que ja tivesse tido au-pairs, de preferencia disposta a pagar mais que o salario normal, que ajudasse com despesas do curso de alemao e que realmente me considerasse membro da familia.. Era assim que minha família ideal deveria ser. Nao eram exatamente exigencias e também nao precisava ser tudo, mas pelo menos algumas e eu ficaria feliz.

O fato de eu procurar uma familia em Heidelberg limitava muito minha escolha. E depois que eu sai da casa da Claudia, comecei a pensar que talvez eu devesse ir pra uma outra cidade, longe de Heidelberg. Talvez Hamburg, Berlim ou pra Suica. Depois de saber o resultado da prova ficou mais facil resolver isso. De certa forma a prova e a possibilidade de estudar em Heidelberg estavam me prendendo à cidade. Mas… eu nao passei na prova. E nao sei se deveria dizer “infelizmente”. Acho que foi bom eu ter me libertado dessa obrigacao de ficar na cidade. Isso me prendia de certa forma e acho que me senti mais livre, depois de saber que eu nao passei. Senti que eu poderia ir pra qualquer lugar da Alemanha e até pra outro pais se eu quisesse. Deu aquele gostinho de liberdade e a sensacao de ar fresco no rosto. Se eu tivesse passado, teria ficado triste de deixar Heidelberg, de abandonar a possibilidade de estudar. Mas nao ter essa possibilidade fazia com que eu tivesse todas as outras. Eu poderia tambem tentar novamente no proximo semestre. Ainda que nao fosse em Heidelberg.

Comecei a achar interessante ir pra um lugar totalmente diferente, dai meu interesse nessa familia que mora perto da Suica. Fui simplesmente deixando as coisas aontecerem e nao imaginava onde que isso iria me levar. Varias familias entraram em contato comigo. Norte, sul da Alemanha, ate familias da suica e Austria me mandaram e-mails. Eu ja nao estava com tantas esperancas de conseguir uma familia em Heidelberg e na verdade nem estava pensando muito nisso. Assim, fiquei de certa forma surpresa quando uma família entrou em contato comigo. Sem muita descricao, sem falar nada sobre as criancas, apenas um e-mail com o numero do telefone. Geralmente eu gosto de saber mais detalhes sobre a familia antes de telefonar. Mas porque nao? E liguei. Era uma familia de Heidelberg que morava no mesmo bairro que a Erika. No mesmo dia que liguei marcamos um encontro e depois de sair “do manicomio”, fui encontrar com ela.

Fui assim, sem expectativas, sem esperar nada de mais dessa família. Nao fazia idéia de como ela seria. Normalmente eu nao ligaria, mas por ser em Heidelberg, achei que nao custava tentar. Achei engracado eles morarem no mesmo bairro que a Erika, mas nao imaginava que essa seria so uma das coincidencias. A mae, a Marion, foi muito simpatica comigo. Ela tinha me encontrado através de uma agência e estava disposta a me contratar através dela. Só que estranhamente eu nunca tinha ouvido falar da agência na minha vida e nao sabia o que meu perfil estava fazendo lá. Tráfico de informacao? E mais estranho ainda é que ela só achou meu perfil uma vez. Quando foi procurar de novo nao estava mais lá. Aí ela disse que caso eu quisesse fazer o contrato sem a agência, ela poderia me dar o dinheiro que ela daria pra eles. E me falou da familia, mostrou fotos dos filhos – ela tinha um menino de 8 anos, uma menina de 4 e um bebe de 11 meses. Conheci o menino e o bebe no dia em que fui la, mas a menina e o marido nao estavam. Lindos os dois. Peguei o bebe, o Nikolas no colo e a Marion ficou espantada por ele nao ter chorado. Ela disse que geralmente ele chora quando alguem estranho carrega ele. Conversamos um pouco sobre o Brasil e outras coisas alem de simplesmente explicar as tarefas. Meu trabalho seria em parte cuidar das criancas, em parte ajudar no trabalho doméstico, mas ela nao estava procurando uma faxineira, como fez questao de me dizer. Eles tinham uma aupair no momento que ficaria ainda uma semana lá. Mas se eu quisesse eu poderia me mudar antes, enquanto ela ainda estivesse lá. Mas eu ainda tinha alguns encontros com famílias no fim de semana – incluindo um outro com a Iris o.O – e nao dei uma resposta definitiva, ficando de ligar no domingo ou segunda-feira. Eles elogiaram meu alemao, mostraram o quarto, que era na verdade quase um apartamento com direito a cozinha, varanda e mesinha pra tomar cha. Acabei descobrindo lá que o menino, o Laurenz, estuda na mesma sala que a filha mais velha da Erika. Ela me perguntou algumas coisas sobre a primeira familia, mas nao entrou muito em detalhes nem pediu telefone, o que me deu um alívio esperancoso.

Me senti muito bem lá em geral, mas ainda continuava a sensaao de que talvez eu devesse ir pra outro lugar diferente e talvez eu ainda visitasse a tal família da fronteira com a Suica. Vale lembrar que minha situacao na casa da Mathilde era um pouco desconfortável. Apesar de ter sido muito bem recebida, a Mathilde parecia fazer de tudo pra que eu fosse embora o mais rapido possivel. Entao eu falei que talvez fosse visitar essa familia da suica no fim de semana e ela disse: Isso, vai mesmo! Seria ótimo! Nao acho que ela fazia por mal, mas que ficava preocupada por causa do marido. De qualquer forma, talvez pudesse dar certo com essa família que eu visitei. O encontro foi muito bom, acho que eles ficaram com uma boa impressao de mim e isso me deu uma certa sensacao de felicidade. E eu nao imaginava que ainda no mesmo dia essa sensacao seria novamente interrompida pela Erika…





No Manicômio

20 03 2009

No mesmo dia que eu liguei pra Erika fui até a casa dela. Eu tinha um encontro com outra família perto de lá, entao passei na casa da Erika um pouco antes pra aproveitar a viagem. Afinal, era só pegar as duas cartas e ir embora. Eu nao esperava nem que ela me convidasse pra entrar, afinal minha simples presenca poderia afetar a integridade mental da família dela. Mas para minha tristeza a integridade da família nao era tao relevante quanto o que ela tinha a dizer. E tive que entrar novamente na Casa Branca.

A primeira certeza que eu tive ao pisar na sala é que ela definitivamente nao tinha encontrado qualquer pessoa pra ajudar no servico domestico. Outra possibilidade é que ela tenha resolvido adotar uma família de macacos, que estava morando exatamente na sala de estar. Nao vejo outra possibilidade pra explicar a desordem total e absoluta em que se encontrava a casa dessa mulher. A quantidade de brinquedos e roupas espalhados era absurda… Mas acredito que nao o suficiente pra que ela sentisse minha falta.

Um pouco antes de eu ir até a casa da Erika tinha me ligado uma família que mora perto da Suica pedindo o telefone dela. Como eu já tinha ligado pra Erika avisando, achei que nao teria problema. Nao pra mim. E era sobre isso que ela queria conversar.

– Bem, eu conversei agora com essa família da Suíca e falei o que nos havíamos combinado, que nós tivemos problemas por causa da língua e nada além disso – a gente estava em pé e a calca dela, muito larga, fazia com que a borda da calcinha branca destacasse de uma maneira impressionante nas roupas como de costume pretas. Eu juro que eu nao queria olhar, mas pra piorar minha visao ela puxava a calca pra baixo, com os polegares no passador de cinto. E eu sei que é um comentário inútil e eu nao falaria nada se nao tivesse me incomodado tanto. Mas se concentra, Carol, a mulher ainda tá falando.

– Só que eu nao me senti muito bem falando isso pra familia. Eu nao posso simplesmente dizer que nao aconteceu nada demais porque eu nao gosto de mentiras. Eu nao me sinto bem fazendo isso e nao quero ser responsavel por isso. Eu nao posso recomendar voce pra outra familia porque eu acho que voce nao devia ser au-pair. Eu acho que você tem uma personalidade frágil demais pra isso. Eu achava que tinha dado certo com a familia da Claudia, mas se nao deu certo de novo, em outra família, eu acho que voce deveria voltar pro Brasil, porque voce nao deve ser au-pair.

Com o tempo a gente aprende a engolir alguns sapos na vida… E esse foi um dos mais asquerosos que eu tive que engolir, principalmente porque ele ficava me mostrando a calcinha… Sei que eu precisei de muito sangue frio pra nao dar à Erika a resposta que ela merecia ouvir. Mas eu nao podia simplesmente falar o que eu quísesse pra ela naquela hora porque eu simplesmente ainda precisava dela. Se eu criasse qualquer atrito, ela poderia piorar bastante a versao-Carol-segundo-Erika que ela passava pras famílias. E eu certamente nao queria isso. Tive que tratá-la muito bem, como sempre tratei aliás, e explicar, na verdade quase jurar pra ela que eu nao tinha feito nada que justificasse a decisao da Claudia. Tudo isso fingindo nao saber nada sobre o telefonema entre as duas, que na verdade pode ter sido o maior causador da minha saída de lá (será que eu já posso ser diplomata depois disso?). A Erika, como cidada-absolutamente-correta-que-nunca-mente, também fingiu nao saber de telefonema nenhum e continuou afirmando que a culpa de alguma forma devia ser minha:

– Mas a Claudia pode ter percebido alguma coisa que voce nao percebeu e nao quis te falar…

Em outras palavras, a Claudia pode ter achado também que eu era louca. Dessa vez a Erika foi mais cautelosa e disse apenas que eu tinha uma “personalidade frágil”. Talvez ela estivesse com medo, sabe-se lá o que esses doidos podem fazer…

Na cabeca da Erika tudo o que aconteceu de errado durante a minha estada na casa dela foi absolutamente culpa minha. Ela nunca considerou como eu me sentia, nunca tentou ver o meu lado. Se colocar no lugar de outra pessoa seria algo no minimo penoso pra ela, principalmente quando essa pessoa é uma doida varrida. Claro que tambem é muito mais facil dizer que a outra pessoa é louca ou que tem qualquer problema do que aceitar que o problema esta com voce. E a Erika é uma pessoa cujo objetivo de vida é ser normal. Nao digo que seja um objetivo consciente, porque ela se considera a pessoa mais normal e equilibrada do mundo. Mas tudo na casa e na familia dela sao voltados pra esse objetivo, desde a roupa de cama toda branca, ate os livros de cabeceira dela “criancas precisam de limites” e por ai vai… Entao se tinha algo de errado, é logico que o problema era comigo. E é óbvio que se o problema era comigo, eu nao ia dar certo em nenhuma outra familia. Mas vamos supor que eu esteja em uma família e dê super certo com ela e a Erika fique sabendo disso. Se eu dei certo com outra família talvez o problema nao seja comigo, entendem o que quero dizer? Pra pessoas como a Erika seria doloroso assumir que elas nao têm razao ou que têm um problema. Ela é reservada ao extremo, a ponto de nao demonstrar qualquer emocao – o máximo que eu vi foi raiva, quando ela me expulsou de casa – é fria, sistemática e impassível, mas todos os problemas que tivemos enquanto eu estava lá era culpa da minha timidez. Depois que eu saí e pude respirar ar puro de novo, descobri que eu nem sou tao tímida assim, mas que o ambiente lá nao permitia que eu me expressasse naturalmente. Mas eles também nao mereciam.

Por ser tao doloroso pra Erika assumir esse erro, ela inconscientemente faria o possível pra que eu nao desse certo em outra familia. Ela nao precisava ter falado nada com a Claudia. Era só ter mandado a carta e estaria tudo certo. Mas eu acho que era uma necessidade pra ela fazer isso. E sinceramente eu nao a culpo. Acho que até tenho pena. Claro que tenho raiva também, por tudo que ela já me falou, por tudo que ela já fez, mas eu acho sinceramente que ela é uma pessoa doente e deveria se tratar. Mas só pra assumir a necessidade de um tratamento seria necessário um outro tratamento, entao eu acho que isso nao vai mudar. Como disse a Wibke: “eles nunca riem!” e só isso já é um motivo para termos no mínimo compaixao.





Conversas

20 03 2009

Acabou que a Mathilde nao pôde me buscar em Schriesheim no dia e a Claudia também estava ocupada demais pra me levar. Entao eu tive que deixar minhas malas lá no quarto com a Mayara e levar só uma mochila pra casa da Mathilde. Lógico que a Claudia perguntou pra Mayara se ela nao se importava de minhas coisas ficarem lá.

– É claro que eu nao me importo! Nao tinha problema se você ficasse, muito menos suas malas!

Saudade dela…

Cheguei na casa da Mathilde de ônibus (na verdade precisei de pegar um ônibus, um bonde e depois um ônibus de novo). Ela nao mora em Heidelberg, mas numa cidade próxima, que chama Neckargemünd e que fica mais longe de Heldelberg do que Schriesheim. Apesar disso, enquanto em Schriesheim eu precisava de no mínimo meia hora pra chegar em Heidelberg (sem contar o o tempo de espera do ônibus que passa de hora em hora, nem o tempo de espera do bonde), de Neckargemünd até Heidelberg eu precisava apenas de (exatamente) 22 minutos, sendo que só precisava pegar um ônibus, que passa com muito mais frequência.

A Mathilde tem dois filhos, a Aisha e o Andreas, com 10 e 11 anos e nao, ela nao estava precisando de uma au-pair, se alguem pensou isso. E eu tambem nao queria ficar muito tempo la. So o tempo necessario pra  encontrar uma familia ou no minimo outro lugar pra ficar. Eles estavam um pouco desconfiados no comeco, principalmente o marido, mas depois que eles viram que eu nao ia roubar todos os bens da casa ou fazer guisado de criancinhas, se acalmaram um pouco. Nao posso culpa-los pela desconfianca, porque afinal de contas eu era uma desconhecida. Eles fizeram ate uma especie de entrevista no dia que eu cheguei, perguntando meus objetivos na Alemanha, entre outras coisas. Nao sei exatamente quais eram os objetivos deles com isso, mas acho que afinal de contas eu consegui passar, porque me receberam muito bem.

A Mathilde estava um pouco apreensiva, suponho por causa do marido, mas conversou bastante comigo, me falou da experiencia dela como estrangeira na Alemanha, me deu dicas do que fazer, de como trabalhar, enfim, ajudou bastante. E me falou finalmente o que a Erika tinha falado pra Claudia. Ela alegou que tinha perguntado tudo pra saber o que elas estavam falando. E no fim das contas foi bom ela ter feito isso. Ate onde eu sei, nao foi nada muito serio, pelo menos nao muito serio para os brasileiros. Mas quando eu falo pra um alemao que uma pessoa nao é “zuverlässig” (o que significa que a pessoa chega atrasada, por exemplo), é de certa forma catastrofico. Na cultura alema isso significa que voce simplesmente nao pode confiar na pessoa, que ela nao honra seus compromissos, etc. E isso pra uma aupair realmente nao é bom. Mas porque a Erika disse isso? Eu nunca me atrasei pra nada do que combinamos. A unica coisa que eu nao cumpri que nos tinhamos combinado era falar portugues com as filhas, mas isso so aconteceu porque ela nao me explicou que eu teria que falar só portugues com elas, mas que seriam coisas simples como “bom dia” ou “obrigada”, o que eu ate fiz. Mas ela nao podia  me obrigar a fazer algo que ela deveria ter feito quando as meninas eram mais novas. Era como se ela quisesse alguem que consertasse um erro que era dela. Ela disse que era muito “estressante” ter que falar duas linguas quando ela tentou ensinar portugues pra mais velha.. Mas eh claro que eu poderia ficar estressada… O caso da Mathilde, por exemplo, ela é peruana, o marido é  alemao e nao fala espanhol, mas apesar do stress de falar duas linguas em casa, ela fez isso e hoje fala espanhol com os filhos. Geralmente eles respondem em alemao, mas ja é um grande comeco que eles entendam. E o marido comecou a entender um pouco tambem. Claro que é estressante e atrapalha um pouco no aprendizado da lingua tambem. Ela disse que depois que ela comecou a falar espanhol em casa o alemao dela piorou muito. E ela vive misturando as duas linguas por causa disso. Mas ela é a mae, nao uma aupair.

Outra coisa que a Erika disse é que eu era muito devagar pra fazer as coisas, que eu nao entendia o que ela dizia direito e que fazia coisas erradas. Eu concordo em parte. Eu realmente nao era muito rápida, ou pelo menos nao demonstrava isso pra ela. Mas voces hao de convir que eu nao poderia trabalhar mais depressa quando meu premio para isso era limpar o porao, porque eu tinha tempo sobrando… Quem em sa consciencia trabalharia mais rapido se em vez de ficar livre do trabalho logo ganharia mais trabalho pelo esforco? Quanto a nao entender o que ela dizia, a Erika tem um problema muito sério que é falar demais e nao dar tempo pras outras pessoas falarem. Dá a impressao que ela esta o tempo todo passando sermao. E quantos sermoes eu ouvi! Minha familia deve se lembrar disso, quando ela ligou quando eu ainda estava no Brasil. Cerca de duas horas de telefonema e minhas unicas palavras eram aha, sim, pois eh, nao porque eu nao tinha o que dizer, mas porque nao dava tempo pra isso. Entao, quando ela me falava pra fazer alguma coisa, geralmente essa coisa vinha acompanhada de duzentas outras coisas que eu deveria melhorar, fazer de outro jeito, e todos os minimos erros que eu ja tinha cometido ate o momento (como guardar as canetas, que eu sempre gosto de lembrar) e que eram minuciosamente enumerados e repetidos, o que tornava a tarefa de lembrar o que ela tinha dito muito mais dificil.

Enfim, tudo que a Erika disse tinha um fundo de verdade, ela nao inventou que eu bati nas criancas ou nada do tipo – pelo menos até onde eu sei. Mas era somente a versao dela da historia. Ela nunca tentou se colocar no meu lugar quando eu nao concordava com alguma coisa, por exemplo. Ela se limitava a dizer que eu tirava conclusoes da minha cabeca e que as coisas nao eram do jeito que eu queria. Claro que nao. Eram sempre do jeito dela. E se eu nao fizesse exatamente como ela queria, se eu nao ligasse o aspirador de pó exatamente naquela tomada, ela me vinha com meia hora de sermao, sendo que se eu ousasse falar que a tomada tal era melhor, mais meia hora de sermao porque eu nunca concordava com nada.

Essa conversa com a Mathilde me fez chegar a conclusao de que eu tinha que ligar pra Erika. Nao pra tirar satisfacoes, mas pra avisar que talvez algumas familias iriam ligar pra ela e pra pedir delicadamente se ela poderia nao falar mal de mim. Ela foi muito simpatica comigo:

– hahaha Claro que nao! Imagina, eu falar mal de voce? Eu vou falar o que a gente combinou, é claro.

Eu precisava ainda ir ate a casa dela pra pegar a tal carta com os motivos de eu ter saido de la, e ainda uma outra carta que tinha chegado pra mim e que ela nao sabia o que era, mas parecia ser algo bem oficial… Ela parecia achar que era algo sobre meu visto ou qualquer coisa assim. Quem sabe o governo alemao finalmente percebeu a ameaca que eu represento para a nacao e resolveu me deportar?

Mas isso é assunto pra outro post…





Reflexoes

19 03 2009

Nao sei se a Mathilde estava falando serio quando me convidou pra ficar na casa dela. Talvez tenha sido algo impulsivo, o espirito latino dela fez com que ela oferecesse ajuda a uma conterrânea. Pode ser. Só sei que nao pensei duas vezes antes de ligar pra ela no dia seguinte. Eu nao esperava que ela quisesse tambem conversar com a Cláudia e perguntar o que tinha acontecido, o porquê de eu ter saído da casa da Erika. De repente parecia que ela queria me contratar como au-pair, tantas perguntas… Parece que o marido dela nao tinha ficado muito feliz com essa historia. Afinal ela me convidou sem consultá-lo. E cá pra nós, convidar uma estrangeira pra morar em sua casa, sendo que você só a viu três ou quatro vezes na vida e ela já foi expulsa de duas casas é no mínimo arriscado. Acho que eu nao teria feito o convite. Mas ela fez. E apesar do marido, apesar de nao me conhecer direito, apesar da Claudia ter repetido tudo que a Erika falou de mim pra ela e ainda acrescentado mais um pouco, ela manteve o convite. E um dia depois eu já estava arrumando as malas (de novo!) e partindo rumo à casa da minha professora de danca.

Nunca eu poderia imaginar, quando comecei a fazer as aulas de danca que isso teria uma influência tao forte na minha vida. Como eu poderia pensar que aquela professora que eu achava tao engracada, com seu alemao enrolado seria muito mais do que uma professora de danca pra mim? É engracado que isso muito provavelmente nao teria acontecido se eu nao tivesse dancado com o Michael na primeira aula de danca. O Michael é um dos alunos antigos de salsa e sempre está presente nos cafés depois da aula. Eles costumam sair pra dancar na quarta à noite e ele também sempre vai. Acho que a Mathilde nao teria gostado tanto de mim se eu nao tivesse dancado com ele. Tive a impressao que ela achou que eu fosse uma amiga dele ha mais tempo e nao que a gente tinha acabado de se conhecer. Foi ele também que me convidou pro primeiro café depois da aula, o que nao teria acontecido se a gente nao tivesse dancado. Sao sempre coisas tao pequenas que mudam todo o rumo da história! Estranho que eu nao percebo isso com tanta intensidade quando estou no Brasil. Mas aqui a impressao que tenho é que as coisas mais mínimas que eu faco têm o poder de mudar completamente minha vida. Eu olho pra trás hoje e penso em como poderia ter sido.  Tudo acontece tao ao acaso que parece já ter sido planejado. Tem um livro, O Dia do Curinga (ou coringa?) que fala disso. Você só nasceu e só está aqui hoje porque inúmeros acasos muito antes de você sonhar em existir possibilitaram isso. Você já parou pra pensar que  se o seu tatatatatatatatatatatatataravô nao tivesse  conhecido sua tatatatatatatatatatatatataravó, você nao teria nascido? E que eles podem ter se conhecido absolutamente ao acaso? Mas eles se conheceram porque estava determinado que assim fosse ou deveria ter sido de outro jeito? Poderia ter sido de outro jeito? 

“Talvez por isso você esteja aqui”, disse a Claudia. Nao sei exatamente o que ela pensou ao dizer isso. Talvez a única razao mística de eu ter ido parar naquela casa foi ter essa conversa reveladora com ela. Embora eu já soubesse o que ela me disse, ouvir de novo em uma situacao tao inesperada deu uma forca nova a algo que eu já tinha quase esquecido e em que eu nem acreditava muito. Mas eu nao sou tao mística assim. Se tem algo de positivo que eu posso tirar desse período na casa da Claudia foi certamente ter conhecido a Mayara, que se tornou uma boa amiga. Acho que muitas vezes nao é tao importante o que você aprendeu, o que você ganhou com o que aconteceu e sim se você se divertiu, as boas lembrancas que você carrega sempre na bagagem. E eu me diverti lá. Foi realmente um bom período que passamos juntas e eu realmente espero que haja muitos outros. Viu? A Claudia nunca entendeu como a gente pode ter dado tao certo. Ela perguntou umas 50 vezes pra Mayara se nao tinha problema nos dividirmos o quarto e a Mayara teve que responder 57 vezes que nao tinha problema, pra ela se acalmar. Talvez ela tenha olhado nosso horóscopo e achou que leao e virgem nao combinam. Mas ela nem entende o suficiente do assunto pra tirar essas conclusoes. O fato é que a gente se deu muito bem. E ela deve ter ficado incomodada com o tanto que a gente ria, quando estavamos juntas. E só essas risada já fizeram todo o resto do tempo lá valer a pena.

E ainda nao decidi se devo ou nao acreditar em destino. Ou se existe ou nao um motivo secreto pro que acontece na nossa vida. Mas eu decididamente nao gosto da idéia de que tudo já está definido: se tudo está definido eu nao tenho poder de escolha e se eu nao tenho poder de escolha o que é que eu estou fazendo aqui? Servindo de marionete pra diversao de um deus qualquer? Achar que tudo está nas maos de um ser superior ou que tudo já está escrito, como acha a Claudia, nos isenta totalmente da responsabilidade por nossos atos. Gosto da idéia de que tudo poderia ser diferente e que um futuro absolutamente incerto espera por mim. Dá um gostinho de aventura, sabe? E a sensacao de respirar ar fresco da manha de um lugar totalmente novo. É essa sensacao que quero compartilhar com voces quando faco tanto suspense nos meus posts. Na época que vivi o que escrevo, nao tinha a menor idéia do que aconteceria. É claro que tive medo, é claro que fiquei preocupada, como vocês também estao. Dá um friozinho na barriga sim, mas acho que isso faz parte. Ou viver nao teria a menor graca.





Quem nao ajuda nao come

17 03 2009

Um outro encontro com a Iris foi marcado na terca-feira e dessa vez eu fui mesmo. E fui pontual e demonstrei interesse. Pelo menos tanto quanto era possivel demonstrar, porque sinceramente… ô familiazinha esquisita! Mal cheguei e ja foram falando de regras a mesa e as criancas comecaram meio que a recitar as regras de cor. Nao ouvi muitas, mas pelo jeito eram mais de cem. Fomos pro jardim e comecaram a limpar a casinha dos porquinhos da india, sem nenhum aviso, como se fosse a atividade perfeita para fazer com alguem que visita a casa pela primeira vez, principalmente se esse alguém for candidato a aupair. Talvez eu nao tenha ficado muito empolgada em mexer nos dejetos dos porquinhos. Talvez eu nao tenha ajudado o tanto que eles esperavam de uma aupair. Talvez uma das regras da casa seja “quem nao ajuda nao come”, porque a Iris se despediu de mim ali mesmo no jardim, embora a ideia inicial fosse eu jantar com eles – ja tinham ate comecado a me contar as regras! E eu nem teria entrado na casa de novo se nao tivesse deixado minha bolsa la. E ela fez questao de ficar parada a mais de um metro da porta, pra eu ter que abri-la sozinha. Mas tudo bem, eu tambem nao queria voltar mesmo…

Durou um pouco menos que eu esperava, mas resolvi continuar com o que eu tinha planejado e da casa da Iris, sem jantar, fui direto para minha aula de danca. Na verdade nao era tanto a vontade de dancar depois de duas semanas sem aparecer la. Mas era la que eu tinha feito meus primeiros amigos e talvez quem sabe algum deles pudesse me ajudar? E por aula de danca quero dizer nao as minhocas rebolantes, mas a aula de salsa, com a professora baixinha que ficava repetindo a mesma musica de salsa a aula inteira. Mas depois da segunda aula com a mesma musica sendo repetida 20 vezes eu nao aguentei e perguntei pra ela se ela nao tinha outras musicas. Desde entao ela tem variado bastante nas aulas.

Depois da aula, alguns alunos e a professora costumam se reunir na lanchonete que fica embaixo da “sala de danca” (na verdade a sala de danca é a Mensa, uma especie de bandejao da faculdade) e desde que eu comecei a dancar eu me junto a eles. Enfim, fomos ate la e eu pude contar todo o meu drama das duas mudancas de familia, com direito a uma porcao de fritas pra salvar o pobre do meu estômago e uma xícara de chá pra acalmar os ânimos. Assim que terminei de contar a Mathilde, a professora, disse:

– Vai la pra casa. Nao importa o que acontecer, vai la pra casa.

E me deu telefone e endereco e tudo mais pra que eu ligasse pra ela no dia seguinte. Nao sabia ainda o que ia acontecer, mas saí de lá com a sensacao de que no fim das contas foi uma boa idéia fazer aula da danca. E quando cheguei em casa, depois de 40 minutos esperando o bonde e mais meia hora andando no frio, porque o único ônibus da cidade só passa de 2 em 2 horas à noite, estava com a sensacao de que, apesar de tudo, tinha sido um dia muito bom.