Sambando na batata

19 02 2009

Claro que todos pensaram, pelo menos eu imagino isso, porque eu também pensei, que, indo pra Alemanha e tendo contato com essa cultura tao diferente, com as pessoas tao frias e distantes, com essa lingua esquisita que parece que as pessoas nao conversam, mas brigam, eu teria oportunidade de aprender muita coisa. Primeiro o alemao, que era meu objetivo, mas tambem poderia aprender a esquiar e patinar no gelo, a fazer chucrute e poderia até aprender uma daquelas musicas ou dancas tipicas alemas, com as pessoas vestidas de camponeses, conhecem? Pois é. Era o que eu pensava. Mas depois que eu descobri que minha oportunidade de esquiar foi por água (ou montanha) abaixo,  que o chucrute é sempre servido com carne e que nao ha uma radio sequer que toque musicas alemas, muito menos típicas, quis o destino, que é ironico por natureza, que eu aprendesse justamente a sambar.

Meu amigo leitor deve estar intrigado nesse momento: Mas porque é que essa menina foi sair do Brasil se ela queria era aprender a sambar? Eu poderia responder que tinha vontade de saber a visao germanica dessa danca brasileira, criando a partir disso um paralelo entre essas culturas tao diferentes. Poderia dizer que eu queria analisar o vocabulario utilizado nas aulas de danca em um contexto deslocado do idioma de origem ou que o movimento da danca conduz a uma percepcao mais ampla da relacao entre as pessoas e serve como elo de ligacao dos individuos. Bom, talvez eu use alguma dessas teorias pra minha monografia (que ainda nao tem tema definido) mas o fato é que eu realmente gosto de dancar. E quis o destino, o mesmo que fez com que eu parasse de dancar ha mais de um ano, que eu retomasse as aulas justamente aqui, na terra da batata. E como ele além de irônico é exigente, quis que eu nao so aprendesse o samba, brasileiro por excelencia, mas todos os tipos de dancas latinas existentes e possiveis que coubessem num curso de ferias da faculdade de esporte de Heidelberg. Entao, alem de samba estou tambem aprendendo salsa, merengue, cumbia, rumba, tchatchatcha, jive e algo que eu posso jurar que é bolero. O mais ironico é que eu poderia também fazer capoeira, mas resolvi que uma dose tao grande de Brasil poderia me fazer voltar mais cedo pra casa (ou ficar aqui mais tempo) entao achei que era melhor nao arriscar.

E o destino tao piadista, ao mesmo tempo que me presenteou com uma professora latina que fala um alemao enrolado, às vezes misturando um pouco de espanhol no meio e que tem no seu CD uma única musica de salsa, que nos temos que dancar pelo menos umas cinco vezes na aula e que apaixonou por mim desde que eu falei que era brasileira e que desde entao sempre que quer mostrar qualquer passo para a turma me tira pra dancar e como ela tem mais ou menos a metade do meu tamanho, isso acaba sendo um tanto desastroso, também me presenteou com um professor que parece ter saido do corpo de baile do bale Bolshoi, alemaosissimo, e que quer colocar toda a tecnica do movimento que ele certamente aprendeu no Bolshoi num simples passo de danca latina. E, como nao podia ser diferente, o gozador do destino determinou que esse professor me ensinasse a dancar samba. So que nao é esse samba que a gente ve nos desfiles de carnaval. Mas tambem nao é o samba que se aprende nas dancas de salao. O que é isso, entao, meu Deus? É um movimento que voce tem que fazer com as pernas, flexionando muito os joelhos, e ao mesmo tempo movimentar a barriga pra frente e pra tras. A parte da barriga deve ser o que ele chama de rebolado. Só que o movimento que ele faz – juro – é mais exagerado do que o de qualquer rainha de bateria! Agora imagine voce, meu caro leitor, um homem magro, alto, branquelo, com uma postura de bailarino, que faz a gente pensar que ele vai sair dando piruetas no meio da sala a qualquer momento, de repente se postar no meio da sala e comecar a jogar as pernas pra tras e pro lado, mexendo a barriga pra frente ao som de uma musica que tambem nao é samba, mas uma mistura de merengue com lambada… Parece ou nao parece uma minhoca com dor de barriga em cima de uma batata quente? Agora continue imaginando essa mesma minhoca e visualize toda uma turma de 30 alunos tentando copiar exatamente o mesmo movimento que o professor faz, sendo que mais ou menos metade das minhocas, digo, dos alunos nunca tinha dancado antes, e a outra metade, também saída do Bolshoi, aplica toda a técnica de danca (clássica, é claro) naquele gingado complicadísimo, tendo direito até a mao de bailarina, o que coloca as minhocas novatas numa posicao muito superior. E imagine agora que isso tudo é só o ensaio e que duas dessas minhocas (uma novata, outra do Bolshoi) vao se unir e se remexer juntas ao som de uma musica que fica repetindo bunda-bunda-bunda ou loca-loca-loca. Pobres alunos… Pensam que estao sambando! Pior, eles devem pensar que a musica é realmente samba e que bunda é um verbo que significa dancar! Imagine agora 30 minhocas abracadas aparentemente tendo convulsoes cantarolando bunda-loca! Um brasileiro poderia associar isso a macumba, exorcismo, um ritual pré-cópula, um passo novo do Calypso, ou qualquer outra coisa. Mas a imaginacao nao iria tao longe a ponto de associar isso com samba.

Voces devem estar se perguntando que tipo de minhoca eu sou. Como é que reage uma minhoca brasileira num ambiente tao hostil? Bem, como ex-primeiro bailarino do Bolshoi, o professor se acha totalmente habilitado para ensinar samba – nada mais justo – entao, acho que ele nao encararia com bons olhos uma humilde brasileira recém chegada na Alemanha e que nem danca tao bem assim comecar a dar pitaco na danca que ele conhece tao bem (apesar de que eu já tive um forte impulso de gravar um cd com musicas de samba pra ele – e outro de salsa pra professora latina – e levar pra aula digamos, pra ele conhecer melhor a cultura brasileira). É claro que ele entende mais de samba do que eu. Entao o que aconteceu é que eu tive que me adaptar a essa situacao, como todo bom brasileiro faria. E digamos que eu também tenho convulsoes na aula, mas acho que nao é tanto pela danca. Afinal, em uma cena bizarra como essa, só a tentativa de segurar o riso já é um rebolado suficiente.

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