Surpresas da noite

1 12 2009

Hoje* aconteceu uma coisa completamente inesperada.

*E claro que hoje nesse texto significa, assim como no da nuvem, que foi há muito tempo, mas só agora eu consegui digitar o texto escrito há mais de um mês. Mas vamos lá contar o que aconteceu.

Um amigo me pediu o cesto da minha bicicleta emprestado. A bicicleta dele não tem cesto nem garupa pra pôr o cesto, porque “isso é coisa de menina”. Apesar de a metade das bicicletas aqui, até de meninos, terem cesto. E acho realmente prático ter um cesto, seja pra colocar a bolsa, pra fazer compras ou pros outros jogarem lixo dentro. E mesmo que a última finalidade não seja nada desejada, todas as outras compensam essa desvantagem. Meu amigo reconhece todas essas vantagens. Mas aparentemente elas não são suficientes para convencê-lo a deformar a imagem “máscula” de sua bicicleta (ainda que ela seja vermelha com acessórios combinando). Tudo pela aparência. E como não adiantaria muito eu dar o cesto pra ele, já que ele não teria lugar para colocá-lo na bicicleta sem garupa, fui com ele fazer compras. Bom também, para assegurar que ele não teria só cenouras em casa quando resolvêssemos cozinhar outra vez.

O único supermercado que fica aberto depois das 10 fica dentro de uma espécie de shopping. Eu queria entrar pelo fundos, que era mais perto, mas ele disse que podia estar fechado. Não estava, dava pra ver. Mas fomos pela entrada principal. Questão de costume. O chato de usar a entrada principal àquela hora é que ela fica rodeada de mendigos bêbados, adolescentes bêbados, turcos bêbados e toda a sorte de seres que recorrem ao único lugar da cidade onde é vendido álcool na versão engradado até meia-noite. Tranquei a bicicleta depressa, prendendo a respiração. Era o máximo que eu podia contra a nuvem de cigarro que envolvia o ambiente. E tentando desviar de uma segunda nuvem que vinha em minha direção, entrei correndo no supermercado, seguida por meu amigo. Meu amigo aproveitava a oportunidade e comprava mais do que precisava. mais do que ele conseguiria carregar sozinho. Depois de comprar mais cenouras, passar cerca de uma hora só resolvendo o que levar,  enfrentar no mínimo mais meia hora de fila no único caixa aberto, dividir as compras entre mochila do amigo e a sacola que iria no cesto, nos preparamos para mais uma lufada de cigarro na cara.

Já tinha até levantado a sacola para colocar no cesto quando percebi:

– Cadê o cesto?

Sabe aqueles momentos que você acha que não está enxergando direito? O cesto devia estar lá, o problema era com meus olhos.

– Como assim, cadê o cesto?

– O cesto da minha bicicleta. Sumiu.

– Tem certeza?

– Claro que eu tenho certeza! Eu estou vendo a bicicleta, não estou vendo o cesto, que devia estar onde eu deixei. Logo, o cesto sumiu.

– Que merda!

Eu que devia dizer isso. Tinha ido lá só por causa do cesto pra ficar justamente sem ele. Ironia do destino? Olhei para os lados e vi alguns bêbados remanescentes. Até procurei por algum sinal dele, talvez abandonado em algum canto escuro da rua, depois de perceberem que ele estava estragado.

No Brasil eles teriam dado um jeito de levar a bicicleta toda. Talvez o cesto (ou eu mesma, considerando o trânsito de BH) não durasse um dia. Mas na Alemanha, onde normalmente pode-se deixar até a bicicleta inteira sem cadeado, foi realmente inesperado, mas (só pra rimar) roubaram meu cesto quebrado.

O amigo disse que deve ter sido um dos bebuns adolescentes: “Olha, que legal! Agora temos lugar pra pôr as bebidas”. A maior sacanagem foi o lugar onde aconteceu: na porta de um supermercado, justamente quando as pessoas precisam do bendito cesto, que mesmo quebrado costuma quebrar um bom galho.

Resultado da brincadeira: Tivemos que nos virar com sacolas penduradas no guidão ou no pescoço, desequilibrando até em casa. E eu me virei sem o cesto por bastante tempo, até a semana passada, quando comprei um maior do que o outro e um bom cadeado. Por via das dúvidas, agora eu sempre tranco.





(Des)contando

21 11 2009

Sempre fez parte da minha política não contar as coisas antes de que elas aconteçam. Os motivos pra isso? Não sei bem ao certo. Mas sempre acho que as coisas perdem um pouco da sua força quando a gente conta antes o que pretende fazer. Lembro de quando eu ainda estava no Ensino Médio e comentei com alguns amigos que eu iria cortar o cabelo naquele dia. Resultado: Sabe-se lá porque, não cortei. No dia seguinte, mais decidida (ou com o cabelereiro marcado, não lembro) comentei de novo “Hoje eu corto!”. E não cortei. E só no terceiro dia, sem comentar nada é que fui conseguir o bendito corte. Pode ser que tenha sido coincidência, diria o leitor incrédulo. Mas pode ser que não. Sempre penso o que teria acontecido se eu não tivesse contado. Teria sido diferente? Ou isso é só mais uma das minhas neuroses?

Uns dizem que quando se conta algo, principalmente quando é algo bom, que ainda não aconteceu para certas pessoas, essas pessoas podem, ainda que inconscientemente ter uma certa inveja e mentalmente boicotarem o tal projeto. Outros dizem que a fala possui energia e quando você expressa um planejamento em palavras, a energia mental se transforma em energia sonora e o planejamento perde o potencial que tinha antes de ser pronunciado. Outros acham exatamente o contrário e dizem que quando você fala você realiza sonoramente o que existia apenas no plano mental e por isso torna maiores as chances de seus projetos se realizarem. Bla-bla-blás à parte, sempre achei melhor não contar nada. Só conto depois que já aconteceu ou quando as coisas já estão certas o suficiente pra não se perderem em qualquer teoria. Por isso prefiro não contar nada antes de fazer uma prova, de prestar um concurso. Só conto depois de ter passado. Por isso minha família só ficou sabendo que eu queria ir pra Alemanha depois de eu ter passado na prova do programa de intercâmbio da UFMG (que foi antes de eu resolver vir como au-pair, longa história…). Por isso meus leitores só ficam sabendo das minhas viagens depois de eu já ter voltado. E porque eu adoro deixá-los curiosos. Mas isso não é novidade. Mas, depois de um longo tempo semeando a curiosidade e a angústia entre meus queridos leitores, resolvi que não faria mal compartilhar um pouquinho do que eu estava planejando. E foi assim que no último post eu contei que iria pra München – que na verdade se chama Munique  em português.

Não sei se as coisas teriam acontecido de outra forma se eu não tivesse contado. Já estava tudo certo, tudo planejado. Mas eu não contava com um certo vírus, o mesmo que contaminou todo o jardim de infância, 70% da minha família e provavelmente a metade do corpo docente da minha faculdade (único motivo que explicaria o fato de metade das minhas aulas não tenham acontecido por motivo de doença). Eu não imaginava que esse vírus que aparentava ser tão inocente resolveria me atacar justo na sexta-feira. Normalmente eu acharia bom ficar a sexta-feira sem trabalhar. Em condições normais eu poderia até mesmo prolongar minha estadia em Munique. Mas o fato é que eu não consegui fazer muita coisa na sexta além de ficar deitada o dia todo. Até levantar o copo d’água se tornou uma tarefa difícil. Mas pelo menos o tal vírus tinha uma certa vantagem: duração curta. 24 horas, na maioria dos casos observados, talvez até menos. Ou seja, ainda dava pra ir pra Munique. Eu, que comecei a passar mal de manhã, só fui ter fome à noite (o que considerando que estamos falando da Carol, é no mínimo preocupante). A dor de cabeça, só passou de madrugada, quando eu não consegui mais dormir. E só fui me sentir realmente bem há algumas horas, quando os planos pra Munique já tinham ido por água abaixo.

Não sei o que aconteceria se eu não tivesse contado. Pode ser que no fim das contas eu tenha leitores invejosos. Pode ser que tudo aconteceria do mesmo jeito tendo eu contado ou não. Não sei. Mas devo dizer que, por via das dúvidas, vocês podem morrer de curiosidade: da próxima vez, eu não conto.





Nas Garras da Máfia – Parte IV

6 11 2009

Leia a Parte III aqui

Hotel Residenzia

Prezzo massimo della camera 207: 120 €

Prezzi per persona e giorno con buffet di prima colazione

Li duas ou três vezes, antes de ter certeza do que estava escrito. Até recorri ao meu manual de italiano, mas não era tão necessário para entender o que estava escrito ali. Já tinha visto alguns hotéis colocarem o preço na porta dos quartos, mas o preço afixado costumava coincidir com o que era realmente pago pelo quarto. Naquele caso, o preço afixado era 12 vezes mais alto do que eu teoricamente pagaria. E depois de já ter assinado o termo de compromisso contendo o número do quarto e de noites, o que segundo a moca da recepcao seria  praxe do hotel, depois de ter deixado um documento pessoal  como “garantia”, até que eu fizesse check-out, depois de já estar relativamente instalada no quarto que por sinal era o mesmo do Brédi é que fui me dar conta de que ela não tinha me dado nenhum comprovante, nenhuma conta, nada que comprovasse o preço que ela disse que eu pagaria. Como eu não tinha reserva, não tinha também nada que confirmasse o valor que eu tinha conseguido pelo site. Isso somado à história do hotel inexistente e à facilidade com que o preço abaixou só de mencionar o preço da internet gerava supeitas preocupantes. Antes de começar a viagem, tinha lido algumas histórias de turistas que não eram nada convidativas. Histórias de pessoas que foram a restaurantes que cobraram taxas absurdas, inexistentes no cardápio. Caso os clientes se recusassem a pagar ou reclamasse da conta, o garçom trazia dois seguranças no melhor estilo lutador de jiu-jitsu, que sugeriam sutilmente que era melhor o cliente pagar sem reclamar. E fiquei imaginando se isso seria o caso daquele hotel. Não tinha a menor idéia do que eles poderiam fazer caso  eu me recusasse a pagar. E não era tao divertido ficar imaginando isso. Comecei automaticamente a pensar em todas as rotas de fuga possíveis caso eu precisasse fugir – provavelmente um resquício da minha época de polícia. Já começava a gerar planos mirabolantes e provavelmente a falar sozinha quando ouvi uma voz atrás de mim. Me preparei para virar depressa e sair correndo gritando uma daquelas coisas que a gente só ouve em filmes do sbt: “Você não vai me pegar com vida!”, mas me lembrei de que o Brédi ainda estava lá. E consegui me recompor da síndrome 007 a tempo de responder sem que ele achasse que eu estou louca. O que seria pior do que não escapar com vida. E além de constatar que eu preciso rever minhas prioridades, percebi que ele ficou preocupado quando viu o papel, ainda que não quisesse deixar transparecer.

– Estranho, não?

– O que você acha que pode ser isso?

– Sei lá… Mas eu diria que esse hotel não parece ser nenhuma instituição de caridade.

– Parece ser fachada…

– O que a gente faz? Avisa a polícia?

– E se a polícia for cúmplice?

– Avisa o consulado alemão? – a cena do 007 com o homem sendo perseguido dentro da embaixada não saía da minha cabeça. (não, eu não assisto só Amélie Poulain)

– Nem sei se aqui tem consulado… Grande a cidade não é. E não sei em que isso ajudaria também. Até onde eu sei, aqui ainda é União Européia.

– Você leu alguma coisa sobre esse hotel na internet?

– Pouca coisa. Parecia bom. Barato de qualquer forma.

– E você fez reserva?

– Não. Até tentei, mas as reservas pela internet estavam bloqueadas.

– Então você também não tem um comprovante do preço? – começava a ficar mais preocupada.

– Não.

– Você acha que a gente deve perguntar na recepção, qual é o preço de verdade?

– Não sei se isso ajudaria em alguma coisa…

– O que a gente faz então?

– Quer dar uma volta?

E assim, feliz por ter uma companhia (e que companhia, diga-se de passagem) pra passear na cidade, saímos do hotel fantasma e deixamos as preocupações de lado. Ainda que não por muito tempo.

Continua…





Nas garras da Máfia – Parte III

2 11 2009

Leia a Parte II aqui

Não é exatamente normal que homens bonitos tenham muita influência em mim. Na verdade o mais comum é que aconteça o contrário. Todas as amigas reunidas em um típico encontro a la Luluzinha e uma solta uma dessas:

– Mas o Fulano é um gato, não é?

E entre as minhas reações mais prováveis estão:

1. Quem??? (seguida naturalmente de protestos de todas as outras, por eu não conhecer quem está arrasando os corações femininos nas novelas da vida, que eu naturalmente não assisto)

Depois de reconhecido o assunto do dia, fingir que foi reconhecido ou na hipótese mais improvável de eu saber de quem estão falando, a reação pode ser assim:

2. Ah… Mais ou menos, né? (acompanhada de uma cara de muxoxo por minha parte e caretas de indignação de todas as outras, que se levantam das cadeiras sem acreditar como pode um ser humano do sexo feminino classificar o Fulano como “mais ou menos”. Não pode. E sinto que está ficando perigoso quando elas começam a enumerar todos os motivos que fazem do fulano o bambambam do momento, incluindo na descrição a cena tal ou a foto tal que toda fêmea do planeta teria a obrigação civil, moral e religiosa de ter visto. “Você não acha, Carol?” E é nesse momento, com todas as cabeças voltadas para mim, sem coragem de admitir que o único homem quase famoso cujo dia-a-dia eu acompanho tem cerca de 1,60 de altura, é careca e azarado, e sentindo que a minha resposta pode determinar a sobrevivência ou não de muitas amizades, respondo:

3. Tá bom, tá bom, nessa foto ele tá bonitinho sim – e sentindo a respiração profunda que antecede as batalhas verbais mais perigosas, corrijo a tempo – Bonito. Eu quis dizer bonito (e consigo assim acalmar um pouco os ânimos, mesmo que muitas vezes eu não tenha nem mesmo uma idéia muito clara de quem elas estão falando).

Já aconteceu muitas vezes também o contrário: eu acho um certo homem bonito e comento com uma ou mais amigas, que têm ao mesmo tempo uma reação semelhante a que as pessoas têm quando se imaginam comendo um limão. Com casca. Foi assim que eu descobri toda a minha dificuldade em determinar o grau de beleza masculino. Demorei consideravelmente para descobrir, por exemplo, que meu namorado era bonito. Tive que pedir diversas consultorias e só quando uma dúzia – no mínimo – de pessoas concordou comigo, é que pude ter certeza. São realmente raras as vezes em que minha opinião sobre esse assunto converge com a da maioria da população. E é exatamente esse o caso de  fenômenos da natureza como Brad Pitt e o rapaz do hotel, que vamos chamar aqui de Brédi. Isso explica o estado de espírito em que eu fiquei quando o vi na recepção do hotel. Era como ter encontrado o próprio Brad. O Brédi seria sem sombra de dúvida a reunião de todos os requisitos luluzísticos para determinar se um homem é bonito.

E imaginem agora que, ainda sob o efeito dessa visão, sem ter muita certeza de que aquilo tinha realmente acontecido, eu abro a porta do quarto e vejo, sentado em uma das camas, como se fosse uma miragem, ele, o Brédi, ocupado em esvaziar a mochila. Entro no quarto e ele se vira, me dando um sorriso de boas vindas que apagou por um momento qualquer preocupação relacionada a máfia e hotéis. Já estava valendo a pena ficar hospedada ali. Conversamos um pouco no meu inglês de boteco, até que eu descobri, depois de meia dúzia de palavras, que ele era alemão. Respirei aliviada por não precisar mais queimar meus neurônios no território bretão. E só fui voltar a me preocupar com essa história mal-contada do hotel que não existe quando descobri atrás da porta algo que despertou preocupações muito mais sérias que a determinação do grau de beleza masculina…

Continua…





Nas garras da Máfia – Parte I

27 10 2009

Não fazia parte dos meus planos visitar Florença. Mas sempre que eu falava com quem quer que seja dos meus planos de viajar pra Itália, diziam na hora que eu nao podia deixar de ir pra lá. As amigas italianas, ao mesmo tempo que disseram que pra Viterbo eu deveria reservar nada mais que duas horas, quando eu perguntei quanto tempo eu deveria passar entao em Florença, a resposta imediata foi:

– Um ano!

E eu que estava querendo mais fazer uma espécie de escala lá, entre Roma e Veneza…

– Mas é melhor ter passado um dia em Florenca do que passar pela Itália sem conhecê-la.

Bom, se vocês colocam as coisas nesses termos… Entao vamos pra Florenca!

O chato de ir pra lá é que a cidade é considerada uma das mais caras da Itália. E como um dos princípios de ser au-pair é nao ter muito dinheiro (pra nao dizer nenhum), tinha que fazer alguns malabarismos pra economizar. Em Florença nao foi diferente. Assim, quando encontrei um hotel pela metade do preco dos outros, nao hesitei em ir pra lá. Tudo bem se a entrada do prédio era em uma rua no melhor estilo centro de Belo Horizonte. Tudo bem se eles nao tinham nem uma placa decente indicando o nome do hotel e eu tive que passar por ele cerca de 3 vezes até entender que era ali. O que importava era o preco. E carregando 50 kg nas costas, eu nao estava com a menor vontade de perambular pela cidade à procura de outros hotéis. Vai esse mesmo.

Toquei a campainha e me atendeu um homem com cara de indiano e roupas de pedreiro, resmungando qualquer coisa em qualquer língua (e sendo indiano, as opcoes eram muitas), apontou uma portinha perto da escada e sumiu pelo prédio adentro. Analisei bem a portinha e achei que podia ser um armário de vassouras ou coisa do tipo. Mas uma plaquinha me indicou que era o elevador. Mas juro que depois de abrir a porta, comecei a pensar se nao seria mesmo um armário de vassouras. Mas era pequeno demais pra esse fim. E nao tinha vassouras. E pra usá-lo com o fim de elevador, eu teria que escolher se entrava eu ou minha mochila. Ou a mochila subia de elevador e eu subia de escada correndo pra evitar que alguém a encontrasse antes de mim, ou eu subia de elevador e deixava a mochila subir de escada sozinha. Mas alguma coisa me disse que nao ia dar certo e cansada demais para pensar em qualquer outra alternativa, optei pelo que me deixaria ainda mais cansada: subir de escada com a mochila.

A minha primeira surpresa foi que a recepcao nao era mais no 3° andar, como indicado na plaquinha do prédio, mas no 5°. Curiosamente, provavelmente porque plutao estava alinhado com saturno naquele dia, a recepcao seria feita em outro hotel, que ficava no mesmo prédio. A história estava mal contada. Mas nao é exatamente uma coisa muito fácil mudar os planos quando se carrega 100 kg nas costas (porque é claro que depois de 3 andares a mochila ficou muito mais pesada). Entao, sem alternativas, continuei a escalada.

Chegando no topo do prédio, pronta para no último fôlego fincar a bandeira na neve, avistei algo que me fez perder todo o fôlego, bandeira e qualquer outra coisa que eu tivesse e nao tivesse no momento.

Continua…





Carol em Viterbo – Adendo

9 10 2009

Brasao da cidade

Brasao da cidade

Leia também Carol em Viterbo

As minhas buscas genealógicas nao foram muito além das pesquisas nas pracas e museus. Alguns parentes vao perguntar se eu nao perguntei a nenhum nativo sobre o sobrenome… E antes que os leitores mais sensatos também perguntem, vamos esclarecer alguns pontos:

1 – Eu nao falo italiano além do suficiente pra comprar sorvete, embora ainda tropecando em nomes como Straciatella.

2 – Eu nao falo inglês sem que a cada dez palavras doze saiam em alemao.

3 – Os italianos nao falam inglês e mesmo que falem, nao falam alemao para entender a língua híbrida que surge quando eu tento falar.

4 – Eu nao aprendi línguagem de sinais suficiente para me comunicar sem que me achem louca.

Só nesses quatro itens podemos perceber sérios problemas de comunicacao. E se tais problemas se manifestam na simples compra de um sorvete, imagine em assuntos mais complexos como pesquisar a genealogia da minha família? E o que eu deveria perguntar? Se a pessoa conhece alguém que supostamente morava em Viterbo e que há dezenas, talvez centenas de anos se mudou ganhando o nome da cidade como sobrenome e acabou se procriando no Brasil, gerando entre vários descendentes uma menina curiosa que estava agora fazendo perguntas sem cabimento sobre sua ascendência? E mesmo que eu conseguisse expressar isso em alguma língua que a pessoa entendesse, o que vocês acham que ela iria responder? Que conhece? Outra coisa, pra quem eu deveria perguntar isso? Um assunto de tamanha importância deveria ser tratado no mínimo com o prefeito, que certamente tem o registro de cada pessoa que um dia morou na cidade, para onde se mudou, qual o sobrenome adquirido e todos os descendentes por ela fabricados, com os respectivos dados dos descendentes até a minha geracao. Claro. Mas como o prefeito devia estar ocupado demais com a festa da cidade que ocorreria em dois dias e todos os preparativos e pré-preparativos que isso implica, talvez nao fosse uma idéia tao boa. Entao, deveria abordar alguém na rua? Se o prefeito tem um livro com o registro genealógico de todos os habitantes da cidade, é claro que todos os cidadaos de Viterbo têm a obrigacao moral de sabê-lo de cor. Entao nao custa tentar…

Carol: Oi! [longa pausa para se lembrar como se diz boa tarde em italiano]Buona sera!

[Considerando a hipótese de que a pessoa abordada ache que vale a pena falar com alguém que diz boa noite quando o sol ainda está tao forte que a pessoa tem vontade de voltar para a sesta]

Pessoa abordada: Oi.

[Considerando a hipótese de que eu decorei o manual de conversacao de italiano nos segundos entre o Buona sera e o oi da pessoa abordada]

Carol: Eu me chamo Carol de Viterbo

Pessoa abordada: Valentina Rossi. Muito prazer.

Fim do diálogo.

[Considerando agora a hipótese de que a pessoa abordada considere no mínimo curioso o fato de o meu sobrenome ser o mesmo nome da cidade que ela mora]

Pessoa abordada: Seu sobrenome é Viterbo? Que interessante! Você sabe porque?

Carol: Nao.

Fim do diálogo

[Considerando agora a hipótese de que eu falo italiano fluentemente]

Carol: Boa tarde! Eu estou fazendo uma viagem em busca dos meus ancestrais e gostaria de saber mais sobre a origem do sobrenome Viterbo, que por acaso é o meu sobrenome. Eu tenho a teoria de que esse sobrenome pode ter tido origem quando um morador de Viterbo se mudou da cidade e passou por isso a ser conhecido pelo sobrenome “de Viterbo”. Isso pode ter acontecido há algumas dezenas, talvez centenas de anos. Você sabe de alguma família que se mudou da cidade nessa época e provavelmente depois para o Brasil, onde teve vários descendentes, entre eles eu?

Pessoa abordada: Nao.

Fim do diálogo.

[Considerando a hipótese de que a cidade de Viterbo é realmente mágica e que se abra um portal de luz no momento em que eu piso na cidade, fazendo com que todas as minhas vontades se realizem]

Pessoa abordada: Você se chama Viterbo? Mas era exatamente quem eu estava procurando! Eu sou pesquisador e passo o meu tempo livre tracando a árvore genealógica das famílias mais antigas da cidade e acabei descobrindo um antigo morador que se mudou daqui há muito muito tempo e passou a ser conhecido pelo sobrenome de Viterbo. Ele se mudou para a cidade de Sabará, no Brasil, na época da corrida do ouro em Minas Gerais e conseguiu uma boa fortuna, além de muitos filhos. Anos mais tarde ele largou a família, pegou todo o ouro que tinha conseguido e voltou para Viterbo, o que fez com que a família no Brasil nunca mais mencionasse qualquer ascendência italiana, apesar do sobrenome que foi mantido. Em Viterbo ele construiu uma casa, mas nao gerou mais descendentes. No fim da vida, amargurado com sua solidao, ele escreveu um testamento deixando toda sua fortuna enterrada na casa para o primeiro descendente com esse sobrenome que visitasse a sua cidade. E eu passei toda a minha vida esperando que alguém com essa descricao aparecesse na cidade. Finalmente posso me livrar de todo o ouro que foi mantido sob minha responsabilidade! E nao é só isso! Por você ser descendente de um italiano em 53° geracao, recebe ainda o título de cidada italiana, além da chave da cidade!

Fim do sonho.

Mas, voltando pra realidade e considerando a hipótese de que o portal de luz nao foi aberto e de que eu nao conseguiria passar do buona sera com meu italiano, que acabaria tentando em inglês e alemao, com resultados ainda mais desastrosos, que faria até mímicas para me fazer entender, pegando por fim meu passaporte e apontando o meu nome, o mais provável de acontecer, caso a pessoa nao fugisse com medo de mim antes de entender, seria o seguinte.

Pessoa abordada: Ah, sim, seu sobrenome é Viterbo. Meus parabéns.

Fim do diálogo.

Portanto, considerando que ninguém precisa enfiar o dedo na tomada pra saber que dá choque e que focinho de porco nao é tomada, me recuso a enfiar o dedo em qualquer nariz de porco pra ter certeza da meleca que seria caso eu tentasse.

Fim do post.





Carol em Viterbo

8 10 2009
Vista do palácio do Papa

Vista do palácio do Papa

Leia também Carol de Viterbo

Quando avistei os portoes da cidade de Viterbo, percebi que já tinha valido a pena ir até lá. Andar pelas ruas da cidade já davam a sensacao de estar em uma espécie de sonho. Talvez por eu realmente estar realizando um sonho, ou talvez por as casas tao antigas transmitirem uma sensacao de viver uma cena de filme. Medieval. Dava pra imaginar os cavaleiros e damas e clérigos andando pelas pracas da cidade. Ou os feirantes que certamente existiam em algumas ruas estreitas. A cidade parecia ainda carregar sua história e sua magia em cada uma das pedras que compunham suas calcadas e casas. E cada passo parecia me transportar a um mundo diferente, em que eu podia ser o que eu quisesse, vivenciar o que eu sonhasse. Era isso ou o sol estava realmente muito forte.

Àquela hora, a cidade parecia nao ser habitada por mais ninguém além das damas e cavaleiros da minha imaginacao. Todas as portas fechadas, nao se ouvia nada nem ninguém nas ruas, cujos contornos pareciam se dissolver na tarde. Igrejas fechadas, portoes trancados e as sorveterias que eu jurava ver pelo caminho e desapareciam quando eu olhava mais atentamente, nao podiam ser nada além de miragens. Os italianos, que conhecem o próprio sol, faziam exatamente o contrário dos turistas insensatos que resolviam viajar nas horas mais impróprias. As lojas traziam afixado na porta o horário de atendimento: 8:00-12:00/16:00-20:00. E esse é um horário que os italianos realmente respeitam. A cidade dormia sob o ar tépido da tarde. Nenhum mosquito ou banca de jornal se arriscava a permanecer acordado. O único ser vivo que se aventurava pelas ruas de Viterbo era a turista de mesmo nome, em sua busca incessante por estátuas e cartoes postais. E à medida que eu andava, que o sol andava, que o tempo andava, foi-se notando aqui e ali um movimento, até que as casas se espreguicaram, as portas se levantaram e em um bocejo toda a cidade se abriu, como se o sol acabasse de nascer.

Nao tinha tanto tempo na cidade… Nao daria de qualquer forma para descobrir meus antepassados. Mas era de certo modo divertido imaginar onde que eles teriam vivido – se é que realmente viveram lá. E comecei a procurar nos nomes de estátuas e retratos alguma referência ao sobrenome Viterbo. Porque claro que se é parente meu, tem que ser famoso. No mínimo tem que ter uma estátua na praca da cidade. Acabei descobrindo que todas as referências a Viterbo – que nao eram tao difícieis assim de se encontrar, uma vez a cidade tem esse nome – pertenciam a santos e clérigos. Porém, considerando que eram santos e clérigos, acho pouco provável que tenham tido descendentes, a menos que nao fossem tao santos assim. Mas mesmo com essa hipótese, acho que dificilmente os supostos filhos bastardos conservariam os supostos sobrenomes, ainda mais se supostamente morassem em Viterbo. Acho que eu podia entao parar de procurar nas igrejas. E encontrei em uma praca a única estátua fora das igrejas com uma que se assemelhava a um sobrenome: A Mazzini Viterbo ou qualquer coisa assim. Mas a probabilidade de esse nome ser meramente uma referência à cidade era tao grande que resolvi pesquisar no Google antes de ficar empolgada e contar pra vocês. E se o Google nao conhece ninguém com esse nome, é porque nao existe mesmo.

Seguindo a recomendacao da Quel, fui ao museu da cidade e lá descobri que o nome da cidade vem de Vetus Urbs, que significa Cidade Antiga. O que leva a pensar que, se quando foi batizada a cidade já era velha, a possibilidade de encontrar meus antepassados era ainda mais remota. E fiquei feliz pela mudanca de nome. Chamar Carol da Cidade Velha nao seria lá tao interessante. Mas sinceramente a cidade é muito mais do que um campo de pesquisas genealógicas. E acho que foi muito mais interessante passear por ela sem me preocupar tanto com o fato de ela ter o mesmo nome que eu. E aproveitando o fato de que o sorvete em Viterbo era incomparavelmente mais barato do que em Roma, pude apreciar as paisagens da cidade, todos os prédios históricos, todas as ruas que nos trazem a sensacao de estar viajando no tempo. Por alguns momentos eu nao era mais apenas uma turista curiosa com a origem do nome. Eu era o meu próprio nome e tinha encontrado nao a minha origem, mas a mim mesma.

Mas isso já está filosófico demais. O fato é que eu fiquei feliz de ter perdido o penúltimo trem que saía da cidade e de poder desfrutar mais algum tempo, ainda que fossem duas horas, dessa atmosfera um tanto quanto mágica. Fiquei apenas um pouco triste por nao ter ido às fontes termais, pelas quais a cidade é conhecida. Mas ainda há tempo pra isso. Nao acredito que essa tenha sido minha única visita à cidade. Afinal de contas, ao contrário de tudo que possa ser dito, um dia é decididamente muito pouco para conhecer uma cidade que se chama Viterbo.

Continua…