Surpresas da noite

1 12 2009

Hoje* aconteceu uma coisa completamente inesperada.

*E claro que hoje nesse texto significa, assim como no da nuvem, que foi há muito tempo, mas só agora eu consegui digitar o texto escrito há mais de um mês. Mas vamos lá contar o que aconteceu.

Um amigo me pediu o cesto da minha bicicleta emprestado. A bicicleta dele não tem cesto nem garupa pra pôr o cesto, porque “isso é coisa de menina”. Apesar de a metade das bicicletas aqui, até de meninos, terem cesto. E acho realmente prático ter um cesto, seja pra colocar a bolsa, pra fazer compras ou pros outros jogarem lixo dentro. E mesmo que a última finalidade não seja nada desejada, todas as outras compensam essa desvantagem. Meu amigo reconhece todas essas vantagens. Mas aparentemente elas não são suficientes para convencê-lo a deformar a imagem “máscula” de sua bicicleta (ainda que ela seja vermelha com acessórios combinando). Tudo pela aparência. E como não adiantaria muito eu dar o cesto pra ele, já que ele não teria lugar para colocá-lo na bicicleta sem garupa, fui com ele fazer compras. Bom também, para assegurar que ele não teria só cenouras em casa quando resolvêssemos cozinhar outra vez.

O único supermercado que fica aberto depois das 10 fica dentro de uma espécie de shopping. Eu queria entrar pelo fundos, que era mais perto, mas ele disse que podia estar fechado. Não estava, dava pra ver. Mas fomos pela entrada principal. Questão de costume. O chato de usar a entrada principal àquela hora é que ela fica rodeada de mendigos bêbados, adolescentes bêbados, turcos bêbados e toda a sorte de seres que recorrem ao único lugar da cidade onde é vendido álcool na versão engradado até meia-noite. Tranquei a bicicleta depressa, prendendo a respiração. Era o máximo que eu podia contra a nuvem de cigarro que envolvia o ambiente. E tentando desviar de uma segunda nuvem que vinha em minha direção, entrei correndo no supermercado, seguida por meu amigo. Meu amigo aproveitava a oportunidade e comprava mais do que precisava. mais do que ele conseguiria carregar sozinho. Depois de comprar mais cenouras, passar cerca de uma hora só resolvendo o que levar,  enfrentar no mínimo mais meia hora de fila no único caixa aberto, dividir as compras entre mochila do amigo e a sacola que iria no cesto, nos preparamos para mais uma lufada de cigarro na cara.

Já tinha até levantado a sacola para colocar no cesto quando percebi:

– Cadê o cesto?

Sabe aqueles momentos que você acha que não está enxergando direito? O cesto devia estar lá, o problema era com meus olhos.

– Como assim, cadê o cesto?

– O cesto da minha bicicleta. Sumiu.

– Tem certeza?

– Claro que eu tenho certeza! Eu estou vendo a bicicleta, não estou vendo o cesto, que devia estar onde eu deixei. Logo, o cesto sumiu.

– Que merda!

Eu que devia dizer isso. Tinha ido lá só por causa do cesto pra ficar justamente sem ele. Ironia do destino? Olhei para os lados e vi alguns bêbados remanescentes. Até procurei por algum sinal dele, talvez abandonado em algum canto escuro da rua, depois de perceberem que ele estava estragado.

No Brasil eles teriam dado um jeito de levar a bicicleta toda. Talvez o cesto (ou eu mesma, considerando o trânsito de BH) não durasse um dia. Mas na Alemanha, onde normalmente pode-se deixar até a bicicleta inteira sem cadeado, foi realmente inesperado, mas (só pra rimar) roubaram meu cesto quebrado.

O amigo disse que deve ter sido um dos bebuns adolescentes: “Olha, que legal! Agora temos lugar pra pôr as bebidas”. A maior sacanagem foi o lugar onde aconteceu: na porta de um supermercado, justamente quando as pessoas precisam do bendito cesto, que mesmo quebrado costuma quebrar um bom galho.

Resultado da brincadeira: Tivemos que nos virar com sacolas penduradas no guidão ou no pescoço, desequilibrando até em casa. E eu me virei sem o cesto por bastante tempo, até a semana passada, quando comprei um maior do que o outro e um bom cadeado. Por via das dúvidas, agora eu sempre tranco.





Férias de batatas

15 11 2009

A Alemanha é provavelmente o país que mais tem férias nesse planeta de deus. Na escola, além das férias de verão, que duram de dois a três meses, as crianças têm até duas semanas de férias a cada mês e meio de aula. As últimas férias, de uma semana, foram em outubro. Assim, enquanto os professores no Brasil inventam aulas extras o ano inteiro para garantir a tão esperada e criticada semana de outubro, os alemães ganham-na de graça. Mas aqui os motivos das férias são outros. Hoje essa semana se chama algo como férias de outono (Herbstferien). Mas antigamente, para honrar o nome de Terra da Batata, as férias tinham o aclamado nome de Kartoffelnferien, ou seja, Férias das Batatas. Quando descobri isso, me interessei bastante pela origem desse nome tão peculiar e resolvi pesquisar a fundo o que levou a Terra da Batata a ter uma semana com esse nome. Seguem abaixo os resultados da minha pesquisa.

Depois de trabalharem longos meses no campo nessa vida cansativa de fazer fotossíntese, sugar água, pegar nutrientes do solo, entre outras atividades, os pés de batatas finalmente ganham suas merecidas férias em outubro. As batatas são retiradas dos campos frios e selvagens, onde correm o perigo de serem devoradas por porcos ou pisoteadas por crianças e são levadas para galpões, despensas e panelas para serem devoradas de forma mais decente e civilizada, com no mínimo uma oração antes das refeições. Antigamente, para comemorar a semana das batatas, as crianças em vez de irem pra aula iam pro campo ajudar os pais a proporcionar mais conforto e alegria para os queridos tubérculos. Hoje, que a maioria das batatas já nasce empacotada no supermercado, as férias continuaram, mas o nome mudou. E agora é o outono que tira férias para virar inverno nas férias seguintes.Sem as tão esperadas férias, os pés de batata são obrigados a fazer muito mais fotossíntese do que antigamente. O stress e o excesso de trabalho tem propiciado o aparecimento de manchas de coloração esverdeada bem como de deformações genéticas, o que gera aberrações nunca antes vistas e pode propiciar inúmeros problemas sociais e psicológicos entre as batatas.

batata complexada 1
E.K.

O Instituto de Proteção à Batata (Kartoffelschutzinstitut) tem recebido um número cada vez maior de batatas com problemas de inadequação social. É o caso de E. K., mostrado na foto à direita. E.K., que preferiu não ser identificado, começou a apresentar problemas de relacionamento com outros vegetais depois de ter sido rejeitado por uma criança no supermercado. Em seguida, não conseguiu mais permanecer no compartimento de batatas e migrou para o compartimento de abobrinhas, pimentões e tomates, mas foi expulso de todos eles. Totalmente traumatizado, foi recolhido por psicólogos do instituto, que tentam integrá-lo novamente à sociedade. E.K. já considera a possibilidade de se submeter a uma operação, embora especialistas afirmem que as incrustações na sua pele sejam absolutamente normais. “A maior realização para uma batata hoje é servir de alimento para os seres humanos. Elas são plantadas e cultivadas com esse fim e quando não conseguem cumprir o objetivo para o qual foram designadas, como no caso de E. K., isso gera um quadro depressivo dificilmente reversível.”, diz Hans Backfisch, supervisor do Instituto. A maior parte dos pacientes do Instituto reclama da ausência das férias de outubro, que antes eram tão esperadas.

batata lisa
Lisa

“Sempre ouvimos dos nossos avós como era feliz a época em que as crianças ajudavam na colheita. As batatas eram tratadas com muito mais carinho e respeito. Hoje somos friamente empacotadas para os supermercados e ouvimos cada vez menos agradecimentos antes de sermos devoradas. Eu tive a sorte de ter um outro destino, mas a maioria das batatas tem o mesmo fim”, diz Lisa, uma batata doce que foi adotada por uma menina de 6 anos e hoje ajuda na recuperação de outros tubérculos no Instituto. “O caso de Lisa é bastante diferente dos outros”, diz Johannes Meier, psicólogo voluntário do Instituto, “enquanto as outras batatas sofrem com a rejeição humana, Lisa sente-se mais próxima dos humanos e tenta até mesmo se passar por um deles. Mas não é capaz de admitir que também foi rejeitada pela criança que a adotara”. Johannes diz que uma das causas dos problemas observados nas batatas também pode ser fruto da larga utilização de agrotóxicos e das experiências para melhoramento genético a que as batatas são submetidas.

Na última reunião do Kartoffel-Gewerkschaft, organização sem fins lucrativos em prol dos direitos das batatas, foi determinado que, caso as condições de trabalho não sejam melhoradas, os pés de batata de toda a Alemanha pararão de produzir batatas e o país, famoso pelos seus tubérculos corre o risco de perder o tão estimado título de Terra da Batata. Também foi exigida pela organização a supressão dos experimentos genéticos com os vegetais, que pode colaborar para o aparecimento de deformações, gerando inúmeros problemas sociais para os tubérculos atingidos. A utilização de produtos inseticidas também foi colocada em pauta, mas as opiniões quanto à sua proibição são divergentes. Alguns integrantes do Kartoffel-Gewerkschaft alegam que os produtos serviriam para a proteção dos pés de batata e que por isso devem ser mantidos. Outros membros preocupam-se com o impacto ambiental de tais produtos e a influência indireta que exercem nos pés de batata.

A crise das Batatas é vista como uma das mais graves da história da Alemanha, sendo comparada até mesmo com a crise econômica mundial e a gripe suína. A sociedade também se preocupa e se empenha na realização de diversos protestos em defesa das batatas. O estudante de biologia Stefan Winke, um dos integrantes do movimento, declarou em entrevista: “Conheço as batatas desde pequeno. Sempre ajudei no plantio e na colheita delas e me preocupo com a situação. Estou disposto a lutar para que elas tenham uma melhor qualidade de vida. “

Só resta esperar que as autoridades tomem as providências cabíveis para que a Alemanha possa manter o seu título de Terra da Batata com a honra e dignidade de um país do seu porte. Afinal, como diz o lema do Kartoffelschutzinstitut, “os tubérculos são nossos amigos e merecem respeito”.

batata coração

Demonstre você também o seu amor pelas batatas!





O evento

28 06 2009

Leia o post anterior aqui

Quem estava coordenando a organizacao desse evento junto com o pessoal da basf no Brasil era uma moca alema chamada Sarah, que também trabalha para a Basf. Claro que dizer que alguém é alemao nao ajuda muita coisa, já que eu moro atualmente na terra deles. Mas além de ser alema, a Sarah tem um jeito bastante assim… alemao de ser. E seria até um pouquinho brasileira comparada com o alemao mais fanático. O que significa que comparando com os brasileiros ela é de qualquer forma alema demais. E como toda boa alema, ela fez questao de primar pela qualidade e eficiência do evento de uma forma que dificilmente outro alemao conseguiria.

Toda essa meticulosidade fez com que se incluíssem no programa estadia nos melhores hotéis, jantares de luxo nos melhores restaurantes, passeios cuidadosamente planejados, apresentacoes culturais exclusivas, presenca de membros da empresa com bastante destaque etc, etc, etc. Fiquei realmente impressionada ao ver o que estava programado para essa semana. Todas as atividades com horários exatos e precisamente calculados, todas as tarefas de cada membro da equipe minuciosamente descritas, todos os planos sobressalentes caso o que foi primeiramente planejado nao desse certo. Entre minhas funcoes nesse evento estava cuidar para que as coisas nao fossem assim… alemas demais e evitar que os brasileiros muitas vezes alérgicos a excesso de organizacao nao se assustassem com o andamento das coisas. Eu estava com um pouco de medo na verdade. Nunca tinha feito nada do tipo e nunca tinha lidado com tanta gente importante, ao mesmo tempo. Nao sabia como eles seriam, nao sabia como reagir, nao tinha muita idéia do que eu deveria fazer e nao conhecia ninguém do grupo convidado nem sabia muito sobre eles. De qualquer forma, nao seria um encontro solene de diretores de empresas, já que todos os homens levariam as esposas como acompanhantes… E nada como um toque feminino pra melhorar o astral de qualquer reuniao de negócios. Mas com ou sem esposas, tudo o que eu sabia sobre eles é que eram clientes importantes da Basf no Brasil, na área de agricultura. E na época que eu fiquei sabendo do evento eu nao sabia que a Basf produzia algo além de fitas cassetes. Depois fui descobrir que essa empresa tem uma grande importância em um mercado que é politica-corretamente chamado de “protecao de cultivos” e que os tais clientes importantes eram nada menos que os maiores compradores e/ou distribuidores desses produtos no Brasil. O que significa, como você já deve ter imaginado, alguns dos grandes latifundiários da nossa terrinha. Nao, eles nao devem ter pouco dinheiro.

Nao era só eu que estava ansiosa. Embora a Sarah estivesse em contato com alguns dos convidados há alguns meses, eles nao se conheciam pessoalmente, entao ela nao sabia exatamente o que esperar. E foi nesse clima de ansiedade e expectativa que fomos receber os convidados no aeroporto. Coincidentemente eles viajaram no mesmo vôo que eu quando vim pra cá, mesmo número, mesmo horário, mesma companhia, mesma cidade de origem. A única diferenca era a classe, que definitivamente nao era a mesma. A diferenca também é que o meu vôo foi bastante pontual, enquanto o deles, contrariando todos os padroes alemaes teve um atraso de cerca de uma hora. Brasileiros já sao acostumados com isso, mas a Sarah, coitada, se remexia de impaciência, pensando no que fazer, no que alterar do programa pra que desse tudo certo. Depois ficamos sabendo que o tal atraso aconteceu por causa de um engarrafamento em Sao Paulo, de onde o vôo partiu. A viagem foi na véspera do feriado de Corpus Christi e Sao Paulo para variar, estava engarrafada. Normalmente a companhia aérea nao adiaria o vôo por causa do atraso de passageiros. E o leitor pode pensar que os convidados sao tao importantes que a Tam até abriu uma excessao… Mas na verdade nao. O caso é que o engarrafamento estava tao grande que atingiu pessoas muito mais importantes para a realizacao da viagem do que qualquer convidado da Basf. Como o piloto por exemplo, que também foi engarrafado. E depois de todos sentados, garrafas (dessa vez de champagne) abertas, cintos apertados e umas 10 horas de viagem, puderam finalmente chegar ao seu destino, onde os esperava uma Alemanha calorosa, na medida do possível, com seus 17°, sem engarrafamentos. Ficamos lá, com as plaquinhas da Basf esperando os convidados e tentando reconhecer em cada rosto que passava pelo portao um certo sorriso brasileiro. Mas acho que um sorriso, mesmo que brasileiro seria difícil depois de tantas horas de viagem. Quando eles finalmente chegaram, estavam já todos juntos e fomos com eles para o ônibus, já a postos para nos transportar para o hotel.

A primeira parte do evento seria em Heidelberg e nas redondezas. Apesar de eu morar nessa cidade e nao muito longe do hotel onde os convidados ficariam, achou-se por bem que eu também ficasse no hotel, tornando o contato com os convidados mais fácil. Claro que eu nao achei ruim. E fiquei em um dos únicos hotéis da Alemanha a fazer parte dos hotéis que compoem os “pequenos hotéis luxuosos do mundo”. A minha suíte nao era exatamente a melhor do hotel, mas conseguiu ser maior do que o quarto onde moro, que tem banheiro, cozinha e varanda. Uma diária nessa modesta suíte, que deveria ser a mais barata, custa, conforme afixado na porta do guarda roupa dela, nada menos que 295 €, sem café da manha.  Só pra vocês terem uma idéia da coisa. O outro hotel em que ficaríamos em Berlim, o Ritz-Carlton, também nao deixava por menos no luxo, conforto e atendimento. E é claro que todos nós da organizacao imaginamos que os convidados estariam já acostumados com isso. Mas nao era bem assim. Fiquei surpresa ao ver que eles nao eram arrogantes como eu pensei que seriam. Pelo menos nao todos. Eram na maioria pessoas simples e descontraídas, o que tornou a viagem muito mais agradável. O grupo já tinha viajado junto nos anos anteriores com a basf, que sempre organiza essas viagens. Mas eles se demonstraram até impressionados – embora logicamente em um grau muito inferior ao meu – com o luxo dos hotéis. Um casal me disse que nunca tinham viajado de primeira classe antes de entrarem para o grupo e que normalmente ainda viajam de classe econômica. Mas que você só acha que a classe econômica é boa antes de conhecer a primeira classe. Depois que você experimenta uma vez, a outra nunca será a mesma coisa. E acho que deu pra ficar mal acostumada com o tratamento. Nos restaurantes sempre recebi bastante atencao, até pelo fato de ser vegetariana, que em momento algum foi um problema. Os garcons sempre sabiam exatamente onde eu estava sentada e nao tive que devolver o prato nem uma vez. Minha experiência no Brasil é de além de precisar perguntar umas três vezes para pessoas diferentes se o prato x tem carne ou nao e explicar que frango, peixe, presunto e formigas fazem parte da categoria “carne”, ter que garantir pro garcon que nao, eu nao quero provar nem um pouquinho e em casos mais extremos simular um ataque alérgico – ou cardíaco, dependendo da gravidade – caso eles insistam e mastigar finalmente relativamente feliz minha salada de alface sem tempero – única opcao disponível no restaurante isenta de bichinhos, embora eu ainda corra o risco de me deparar com uma lagartinha passeando pela salada.

Mas qualquer desses empecilhos tao frequentes no Brasil nao foram nenhum problema durante o evento. Claro que, nao acostumada, eu ainda perguntava para o garcom se aquele prato realmente nao tinha carne. Um deles me disse:

– Agora você nao precisa preocupar com nada. Apenas sente-se e aprecie o jantar que nós cuidamos de todo o resto.

E tomavam o cuidado nao só de eliminar a carne, mas de elaborar um prato totalmente diferente especialmente para mim. E parece que eles até ficavam mais felizes de me atender por eu ser vegetariana.

Mas acho que a melhor parte do evento nao foi o atendimento ou o conforto, mas as pessoas que conheci. Pela idade, eu seria mais ou menos uma filha pra eles. E muitos já me chamavam no final da semana de Carolzinha ou de Mineirinha (lembrando que quando falo “eles” me refiro aos casais e que esse tratamento nao tem nenhuma intencao maliciosa, como o leitor poderia pensar. Pelo menos nenhuma que eu saiba.) e falavam que iam me levar pro Brasil, etc… Essas coisas que brasileiro fala. E eu estava sentindo falta desse “calor humano” brasileiro, em um país em que as pessoas nao se tocam e quando tocam pedem desculpas. Por um momento me senti em casa. E o término da viagem deixou comigo um certo gostinho de saudade.





Brasilien fica na Alemanha

17 06 2009

Aqui estou de volta, depois de uma semana do que faz muito mais jus ao título “aventura de férias” do que o outro post. Claro que vocês nao tinham a menor nocao do que estava acontecendo, porque fiz questao de nao contar pra quase ninguém. Só falei pro meu namorado porque eu ligo quase todo dia pra ele e se eu ficasse uma semana sem ligar era capaz de ele acionar a polícia federal ou qualquer coisa assim… E na verdade eu tinha planejado contar gradativamente sobre isso, falar como eu fiquei sabendo, os encontros e preparativos que se sucederam até que chegasse finalmente na coisa propriamente dita. Mas pra variar um pouquinho, nao deu tempo. A coisa acabou acontecendo, terminando e eu só vou contar, como aliás muito ou tudo do que eu escrevo aqui, depois de tudo acabado. Mas vou tentar resumir um pouco do que eu tinha planejado escrever em muitos posts e transformar em um só. Vamos ver se dá certo.

Eu acho que eu nao cheguei a comentar ainda a quantidade de brasileiros que eu conheco casualmente aqui na Alemanha. Das duas uma: ou aqui tem uma quantidade de brasileiros acima do normal ou eu tenho algum tipo de magnetismo que me faz atrair todo tipo de pessoa que tem alguma coisa a ver com o Brasil. Eu nao passo uma semana sem conhecer uma pessoa assim, a ponto de irritar. Eu chego feliz pra aula de danca, comeco a dancar com algum rapazinho e três palavras ou dois passos depois vem a famosa pergunta: Você é brasileira? E a minha reacao típica: Como é que você sabe? Porque o brasileiro nao é o tipo de povo que se pode identificar facilmente como orientais ou nórdicos. Somos uma mistura tao grande que qualquer um poderia ser brasileiro, mesmo que tenha tracos orientais. Também nao acho tao fácil identificar o sotaque. Quero dizer, consigo identificar um italiano ou um americano falando alemao, mas nao sei definir bem como é o sotaque brasileiro. Talvez porque seja o meu sotaque também. Talvez pros outros brasileiros seja mais fácil identificar o sotaque do que pra mim, mas o fato é que essa cena já se repetiu tantas vezes que eu tenho vontade de sair correndo quando me fazem a tal pergunta. Isso sem contar nas vezes que eu vi brasileiros na rua, turistas, provavelmente, conversando freneticamente em brasileiro e nao me preocupei em parar pra ter certeza, já me bastam os outros acasos.

Já aconteceu por exemplo, quando eu fui fazer a prova da faculdade (dsh) de eu conhecer um brasileiro porque ele resolveu preencher a ficha dele exatamente no mesmo momento e na mesma mesa em que eu preenchia a minha. Trocamos umas duas palavras, o que foi até iniciativa minha e pronto, morreu bahia e nao nos vimos mais. Isso nesse dia. No dia da prova oral eis que eu vejo ele de novo, já um pouco impaciente, por saber da quantidade de brasileiros por metro quadrado e querendo conversar em alemao pra variar. Acabou que nós fomos selecionados como dupla pra prova oral (o que nao é escolhido por nacionalidade, foi realmente coincidência) e realmente achei que eu nao o encontraria mais, embora ele tenha resolvido pegar o resultado da prova no mesmo dia que eu e tenha brotado do asfalto no meu caminho mais umas duas vezes. Mas a importância dele se restringe a essas coincidências e eu já estou desviando um pouquinho do assunto. Só achei que seria interessante colocar isso aqui. Difícil acreditar que seja coincidência, mas foi. (embora eu ainda nao possa descartar a teoria do íma).

Mas eu achava que esses encontros com brasileiros se limitariam às coincidências de rua. Na minha primeira família, como vocês sabem, a mae era brasileira. Na segunda família a au-pair era brasileira. E na terceira família? Achei que ela realmente estava isenta de qualquer relacao com o Brasil. Mas eis que um dia eu chego em casa e encontro uma moca diferente, que eu nunca tinha visto na vida sentada à mesa com minha Gast. E eis que essa moca fala: “oi, tudo bem?” – e é claro que vocês estavam esperando uma fala muito mais significativa. E esse é o problema de traduzir todos os diálogos, que normalmente sao em alemao. Mas esse foi em português mesmo. E eu assustei. Ela completou: sim, sim, eu falo português! – toda feliz coitada, nao sabendo que eu estava já no ponto de fugir a qualquer mencao de brasileiros. E ela disse que era a irma da minha gast e que foi casada com um brasileiro, por isso falava português… Mas nao, eu nao saí correndo. E até gostei dela. E nao imaginava que justamente ela ia mudar um pouquinho o meu destino, dois meses depois.

Ela trabalha na Basf, em um setor relacionado a línguas e eventos, que nao sei definir muito bem. E um belo dia, quando eu nao estava em casa, ela veio aqui e conversou com minha gast sobre um evento que aconteceria em meados de junho. A Basf receberia um grupo de brasileiros aqui na Alemanha para fazer um passeio na regiao de Heidelberg e em Berlim. E uma das funcoes dela era encontrar uma outra pessoa, de preferência brasileira, que falasse alemao, para compor a equipe que recepcionaria os brasileiros. E perguntou cuidadosamente pra minha gast se eu por acaso nao conheceria ninguém assim. E ela respondeu imediatamente, o que me faz gostar ainda mais dela:

– Se ela conhece alguém? Mas porque nao ela mesma??

E é claro que eu aceitei. Marcamos alguns encontros para resolver os detalhes do evento, tirei alguns dias de férias para poder participar e fui, chegando somente ontem.

(desenterrando um assunto que já estava digamos… enterrado, mas que nao encontraria outra oportunidade pra falar dele além dessa… em um dos encontros com a Petra, a irma (até tento nao citar nomes, mas chega num ponto que fica confuso demais. Mas eu nao vou falar mal dela) conversamos sobre minha primeira família e em um determinado ponto da conversa ela faz uma cara de assustada e diz:

– por acaso ela chama Erika?

Claro que quem assustou foi eu depois dessa pergunta. Acabei descobrindo que minha adorada primeira gast estudou com o ex-marido da Petra. E que ele tinha uma impressao bastante peculiar sobre ela, o que fez com que a Petra se lembrasse dela apesar de nao tê-la conhecido pessoalmente:

– Complicada, muito complicada.

No mesmo dia conto a coincidência pra minha Gast e ela me conta do encontro das duas na reuniao da escola:

– Eu acho que ela é bem… complicada.

E eu pude dormir feliz com a certeza de que nao sou eu quem precisa de tratamento.)

E é claro que pra variar um pouquinho eu me estendi demais nessa miscelânea de assuntos e vou ter que deixar pra outro post a descricao detalhada do evento. Mas vale a pena esperar.





Aventura de férias

10 06 2009

Uma das minhas ilusoes de au-pair era a imagem da au-pair totalmente integrada à família, participando das suas atividades de lazer, sendo tratada realmente como uma irma mais velha e logicamente, viajando junto com a família. Sempre achei que na casa da Erika isso nao acontecia porque afinal de contas era a Erika. Mas nao é bem assim. É lógico que nao tem comparacao as duas famílias e que aqui eu me sinto incomparavelmente melhor do que na casa dela. Mas nada é perfeito. E tenho que admitir que foi uma decepcao muito grande perceber que nao, eu nao seria convidada todas as vezes que eles saíam, pior: eu raramente seria convidada e era bem provável que eu teria que ficar em casa cuidando das criancas, ou do bebê ou do cachorro. Mas pode ser até pior, porque às vezes eles levam o cachorro, que na verdade é ela. E eu fico. Nao pretendo escrever um post depressivo, nem ficar me lamentando, mas eu nao consigo evitar as comparacoes inevitáveis que surgem quando a cachorra é convidada e eles nem falam pra onde estao indo. Nao falam pra mim. Ela provavelmente sabe. E eu me pergunto quem faz mais parte dessa família, se eu ou ela e a resposta é óbvia e clara, mas nem por isso muito digerível.

E foi assim que nas últimas férias, que aqui sao no meio de maio, eles foram viajar e me deixaram aqui e nem o cachorro me fez companhia. Passaram um fim de semana na casa de um tio na floresta negra (nao, isso nao é só o nome de uma sobremesa…), e eu acho que nao custaria nada ter me levado também, já que nao teriam gastos extras com hospedagem ou transporte. Mas nao levaram. Depois foram pra Áustria e ficaram uma semana lá, deixando pra mim uma listinha com tarefas a serem feitas, entre elas, claro, passear com a cachorra, que dessa vez também nao foi convidada. Fico pensando às vezes que se toda vez que eles chegassem eu fosse correndo até eles, pulasse e latisse, eles talvez me chamassem pra próxima viagem. Mas acho que o mais provável seria eu acabar no hospício ou pior, no vôo mais próximo, o que me leva a procurar outras opcoes. E minhas opcoes eram simplesmente tentar me divertir – de preferência nao fazendo compras – enquanto eles estavam fora. Tentei encontrar com a Mayara e depois de alguns desencontros e muitos tomates acabou dando certo (e eu falo mais disso depois, ela merece um post exclusivo). Queria ter ido pra Mannheim com ela, que é a maior cidade aqui das redondezas e pra onde a gente nao tinha ido juntas ainda. Que bom – pensa o leitor – ela já está comecando a pensar em outras coisas além de fazer compras!! Que evolucao! Mal sabe o ingênuo leitor que uma das principais atracoes de Mannheim nao sao os parques e monumentos históricos, mas o centro de compras. E que essa cidade é muito barata em comparacao com Heidelberg, que é uma das mais caras da Alemanha (e ainda assim eu consigo boas ofertas! Eu sou boa mesmo nisso…)

Enfim, mesmo nao tendo ido pra Mannheim com ela, nao me saiu da cabeca a idéia de ir pra lá. A última vez que eu tinha ido pra lá foi quando eu comprei meu notebook (além de umas outras bagatelas que acabaram saindo o mesmo preco dele) e exageros à parte e depois de receber o salário seguinte, já estava com saudade de passear por outras lojas que nao as que os meus pés já decoraram o caminho em Heidelberg. Só que apesar de ter me tornado uma consumista compulsiva, nao abandonei minha característica primeira de mao de vaca. E o fato é que a passagem pra Mannheim custa nada menos que 9 dinheuros, o que daria pra comprar duas bolsas, duas blusas ou um casaco, dependendo do que estivesse em promocao. E eu na verdade nunca uso o transporte público daqui, porque tenho uma bicicleta e apesar de todos os seus defeitos, de já ter me jogado no chao no mínimo três vezes, o que decididamente nao foi culpa (apenas) da inabilidade da ciclista, e de, em consequencia do último tombo, eu ainda nao poder movimentar tao bem o meu braco sem que isso me cause uma dor tao forte que eu até esqueca porque é que eu o estava movimentando (e dessa vez sem exageros), apesar de tudo isso ela me serve muito bem. E daí eu tive a brilhante idéia de juntar o útil e nem tao agradável assim ao agradável e muito útil. Ou seja: ir pra Mannheim fazer compras de bicicleta. Essa seria uma forma também de me redimir comigo mesma, por ter saído só pra fazer compras. Afinal, os 22 km pra ir e pra voltar seriam só em si um passeio e tanto. Eu estava com essa idéia desde que a ida pra lá com a Mayara nao deu certo (e isso foi no dia 23 de maio, sábado, pra situar vocês nas datas). Planejei entao que no próximo sábado, dia 30, pra comemorar meu segundo aniversário de namoro em grande estilo, eu faria esse passeio. Nao contava com o fato de que na quinta feira eu levaria o pior tombo de bicicleta da minha vida, chegando a precisar de ajuda pra levantar e sem forca suficiente no braco nem pra segurar o guidao, totalmente molhada e suja porque estava chovendo e eu fui escolher logo em cima duma poca d’água pra cair, tendo que empurrar a bicicleta ladeira acima até em casa e dando gracas a deus pelo fato do meu gastvater ser ortopedista e, como eu descobri logo depois, especialista em ombros e sabendo que mesmo se ele nao fosse suficiente pra resolver meu problema, minha Gastmutter era fisioterapeuta… Mas eu nao precisei dos servicos dela. Sobrevivi à base de Voltaren e compressas de gelo e em um ou dois dias meu braco já estava melhor (embora eu ainda amaldicoasse até a quinta geracao dos gasts quando tentava lavar as janelas – uma das tarefas da listinha – naquelas condicoes). Qualquer pessoa sensata nesse estado sabe que o melhor a fazer é ficar bastante tempo em repouso, nao fazer muito esforco, seguir rigorosamente as prescricoes médicas com compressas de gelo e três voltarens por dia. Mas – e nesse caso certamente até a Erika concordaria comigo – eu nao sou lá muito sensata. E mal consegui fazer o movimento de levantar o braco e segurar o guidao e upa-le-le! Lá vai a Carol de bicicleta pra Mannheim.

Claro que todo mundo sabe que antes de partir numa aventura dessas é necessário olhar no mapa, ver o melhor caminho a ser feito, levar comida, água e cartao de crédito. Ou seja, planejar o mínimo necessário, o que normalmente eu faco até demais. E talvez tenha sido o efeito do voltaren ou a lua ou a felicidade pelos dois anos de namoro completos ou a ânsia de fazer compras, mas dessa vez nao. Cheguei a olhar rapidinho no googlemaps e vi que se eu pegasse a rua tal e seguisse ela direto, um dia eu chegava em Mannheim. E tendo um senso de direcao perfeito como o meu, quem precisava de mapas? Afinal, era só seguir as placas e mais cedo ou mais tarde eu chegava lá. E lá fui eu seguindo as placas, admirando a paisagem, cantarolando enquanto pedalava pelos campos floridos. Nem me preocupei quando saí da rua que eu tinha planejado seguir. Lá ainda tinha uma placa indicando Mannheim e era só continuar nessa direcao. E foi seguindo essas placas que eu conheci o que os alemaes chamam de auto-bahn ou auto-pista ou rodovia com limite de velocidade bem acima dos padroes brasileiros. Talvez eu deveria ter pensado, ao me deparar com a tal pista: ok, caminho errado, meia volta volver e eu ainda acho hoje a ciclovia pra Mannheim. Mas minha reacao foi bem diferente… Caramba, eu to na autobahn! Doidimais, vambora. E lá fui eu na minha humilde bicicleta cor de rosa apostar corrida com os carros a 150 por hora. Eu estava seguindo por uma espécie de acostamento, entao nao tinha problema, né? Tava na direcao certa… Só achava desagradável todo carro passar buzinando do meu lado. Fora isso era até legal. E estava assim tranquila pedalando quando ouvi uma outra buzina, mas dessa vez bem mas perto. Tinha um carro atrás de mim no acostamento buzinando igual louco. Será que ele queria acostar? Continuei em frente pra que ele tivesse espaco suficiente, mas ele nao parava com a buzina. Entao parei, pronta pra xingar o engracadinho. E tive que engolir em seco quando virei pra trás.

Era a polícia.  E o bom é que eu nem precisei dar uma de boba nem nada. Na ocasiao eu realmente era a boba. Ou louca, de ter pedalado na autobahn, correndo risco de nunca mais poder fazer compras… Voce nao sabe que é proibido nao?? Pois é, é proibido. Por isso que os carros passavam buzinando, claro! Pra me avisar. E eu achando que estava finalmente despertando o interesse dos alemaes… Os policiais foram gentis comigo, me ensinaram sobre as placas de trânsito e eu descobri que as ruas normais têm placas amarelas e pode-se andar de bicicleta, mas a autobahn tem placas azuis e só carros têm a permissao pra dirigir nela. Ou seja se você estiver de carro, pode correr. Se estiver a pé ou de bicicleta, saia correndo na direcao oposta. Acabou que eu ganhei uma carona até Mannheim. E nao pra prisao. Somente uma advertência que eles disseram que mandariam pro meu endereco e que ate hoje nao chegou. Mas nao, nao vou precisar pagar nada nem vou ser deportada por causa disso.

Descobri em Mannheim que eu tinha realmente escolhido o dia certo pra ir pra lá. Tinha festa na cidade, com várias barraquinhas de comidas, música ao vivo, bem legal. E as lojas que nao podiam faltar estavam lá, todas abertas, esperando ansiosas por mim. Mas pra mostrar pra vocês como eu nao sou movida só a promocoes, participei um pouquinho da festa sim. Ouvi algumas músicas, fiz um lanche e o meu ombro nem tava doendo tanto assim mais. E na hora de voltar pra casa, tomei o cuidado de nao cruzar com nenhuma plaquinha azul e fui seguindo o rio Neckar, que liga as duas cidades, passando pelos campos. E nem liguei de ter caído de novo bem em cima de uma poca de lama (poxa, mas essa menina dá sorte mesmo). Cheguei um pouquinho suja em casa, mas nada que um banho e uma cuidadosa limpeza das minhas sapatilhas outrora brancas nao resolva. E um bom descanso, depois de mais de 45 km e cerca de 4 horas pedalando.