Volta às aulas

22 10 2009

Sei que vocês estão querendo saber mais da minha viagem, que não chegou nem na metade ainda. E sinto informar que eu não vou conseguir atualizar os posts antes de viajar de novo. O que acontecerá dentro de algumas horas. Mas vou deixar sendo surpresa também. E antes que vocês comecem a pensar que vida de au-pair é só viajar, vamos para um tema mais concreto. As viagens? Sim, sim, prometo contar depois.

As férias acabaram. Depois de quatro meses na mesma rotina acordar tarde – trabalhar – ficar até tarde no computador – acordar tarde, resolvi viver para algo mais além de criancas e cama. E comecei a preencher meu tempo livre com toda a sorte de aulas que eu conseguisse freqüentar. Nao só de alemao, mas algumas mais ousadas como didática, psicologia e até inglês (que eu realmente preciso). E no comeco da semana, tendo acordado espantosamente às 7:30, sem direito à qualquer efeito soneca, fui pra minha primeira aula. Retórica da Fala ou qualquer coisa assim. Coisa de Letras. Chegando lá, o que mais me espantou na sala de aula foi que:

1- Eu era a única mulher;

2- Eu era a única estrangeira;

3- Eu era a única da área de Letras.

Num curso em que o perfil dos interessado deveria obrigatoriamente cumprir um dos requisitos acima, é no mínimo surpreendente que apenas uma pessoa se encaixasse em todos eles. Os outros quatro alunos se dividiam entre as áreas de sociologia, egiptologia, matemática e física. O que físicos e egiptólogos procuram num curso desses é realmente uma boa pergunta. Se fosse no Brasil, eu diria que o povo da exatas queria só melhorar a nota, freqüentando um curso em que nota abaixo de 80 já é considerada ruim. Mas na Alemanha nao é o caso. Perguntando pros da Exatas no intervalo, o por quê do interesse no curso:

– Sabe como é… Esse povo que faz Física fica o dia inteiro em casa no computador e acaba esquecendo como se fala. Daí a gente resolveu que tinha que fazer alguma coisa antes de comecar a grunhir coisas sem sentido pelos corredores. E as mulheres já aprenderam a falar direito, vocês nao precisam de curso.

Eu, que estava lá mais por motivos cronológicos do que qualquer outra coisa – esquema pegue-qualquer-matéria-da-área-que-encaixe-no-seu-horário e que nao consegui inventar nenhum motivo mais bonito para frequentar aquela matéria, como os outros fizeram quando perguntados, também nao consegui muitos resultados com a escolha de um tema. Explico: A aula consiste basicamente em uma conversa em grupo, com todos os alunos, cuidadosamente observada pela professora. Depois da discussao, fazemos uma outra discussao, dessa vez sobre a própria discussao, analisando como ela transcorreu. Mas para discutir tanto, precisamos de um tema. E por isso cada aluno deveria pensar em um tema que seria discutido nao próxima aula. Ela comecou no outro lado da sala, entao eu seria a última a falar. E fui observando os temas que surgiam: Percepcao seletiva em diferentes mídias, A influência de novas tecnologias no desempenho escolar, A reacao do público em relacao ao prêmio Nobel para Obama… e por aí vai. Enquanto isso, o único tema concreto que martelava na minha cabeca era primeiro encontro. E fui ficando cada vez mais tímida para falar meu tema, depois dos títulos que surgiram. E chegando minha vez, até tentei ensaiar qualquer coisa no sentido de propaganda, influência de propagandas ou algo assim, mas nao ia prestar. E falei:

– Como os casais se comportam no primeiro encontro.

A professora disse que era um bom tema. Mas eu nao imaginava como seria na votacao. Cada um deveria votar em 3 temas . E enquanto os outros tinham dois, tres votos no máximo, quando chegou a vez do meu, olhei pro lado e vi todas as maos para cima. E o meu tema, por mais simplório que possa parecer foi o escolhido.

Parece que apesar da pose toda, de todos os temas pomposos e rebuscados, os alemaes também querem saber é desses assuntos de mulher…





Carol em Viterbo – Adendo

9 10 2009

Brasao da cidade

Brasao da cidade

Leia também Carol em Viterbo

As minhas buscas genealógicas nao foram muito além das pesquisas nas pracas e museus. Alguns parentes vao perguntar se eu nao perguntei a nenhum nativo sobre o sobrenome… E antes que os leitores mais sensatos também perguntem, vamos esclarecer alguns pontos:

1 – Eu nao falo italiano além do suficiente pra comprar sorvete, embora ainda tropecando em nomes como Straciatella.

2 – Eu nao falo inglês sem que a cada dez palavras doze saiam em alemao.

3 – Os italianos nao falam inglês e mesmo que falem, nao falam alemao para entender a língua híbrida que surge quando eu tento falar.

4 – Eu nao aprendi línguagem de sinais suficiente para me comunicar sem que me achem louca.

Só nesses quatro itens podemos perceber sérios problemas de comunicacao. E se tais problemas se manifestam na simples compra de um sorvete, imagine em assuntos mais complexos como pesquisar a genealogia da minha família? E o que eu deveria perguntar? Se a pessoa conhece alguém que supostamente morava em Viterbo e que há dezenas, talvez centenas de anos se mudou ganhando o nome da cidade como sobrenome e acabou se procriando no Brasil, gerando entre vários descendentes uma menina curiosa que estava agora fazendo perguntas sem cabimento sobre sua ascendência? E mesmo que eu conseguisse expressar isso em alguma língua que a pessoa entendesse, o que vocês acham que ela iria responder? Que conhece? Outra coisa, pra quem eu deveria perguntar isso? Um assunto de tamanha importância deveria ser tratado no mínimo com o prefeito, que certamente tem o registro de cada pessoa que um dia morou na cidade, para onde se mudou, qual o sobrenome adquirido e todos os descendentes por ela fabricados, com os respectivos dados dos descendentes até a minha geracao. Claro. Mas como o prefeito devia estar ocupado demais com a festa da cidade que ocorreria em dois dias e todos os preparativos e pré-preparativos que isso implica, talvez nao fosse uma idéia tao boa. Entao, deveria abordar alguém na rua? Se o prefeito tem um livro com o registro genealógico de todos os habitantes da cidade, é claro que todos os cidadaos de Viterbo têm a obrigacao moral de sabê-lo de cor. Entao nao custa tentar…

Carol: Oi! [longa pausa para se lembrar como se diz boa tarde em italiano]Buona sera!

[Considerando a hipótese de que a pessoa abordada ache que vale a pena falar com alguém que diz boa noite quando o sol ainda está tao forte que a pessoa tem vontade de voltar para a sesta]

Pessoa abordada: Oi.

[Considerando a hipótese de que eu decorei o manual de conversacao de italiano nos segundos entre o Buona sera e o oi da pessoa abordada]

Carol: Eu me chamo Carol de Viterbo

Pessoa abordada: Valentina Rossi. Muito prazer.

Fim do diálogo.

[Considerando agora a hipótese de que a pessoa abordada considere no mínimo curioso o fato de o meu sobrenome ser o mesmo nome da cidade que ela mora]

Pessoa abordada: Seu sobrenome é Viterbo? Que interessante! Você sabe porque?

Carol: Nao.

Fim do diálogo

[Considerando agora a hipótese de que eu falo italiano fluentemente]

Carol: Boa tarde! Eu estou fazendo uma viagem em busca dos meus ancestrais e gostaria de saber mais sobre a origem do sobrenome Viterbo, que por acaso é o meu sobrenome. Eu tenho a teoria de que esse sobrenome pode ter tido origem quando um morador de Viterbo se mudou da cidade e passou por isso a ser conhecido pelo sobrenome “de Viterbo”. Isso pode ter acontecido há algumas dezenas, talvez centenas de anos. Você sabe de alguma família que se mudou da cidade nessa época e provavelmente depois para o Brasil, onde teve vários descendentes, entre eles eu?

Pessoa abordada: Nao.

Fim do diálogo.

[Considerando a hipótese de que a cidade de Viterbo é realmente mágica e que se abra um portal de luz no momento em que eu piso na cidade, fazendo com que todas as minhas vontades se realizem]

Pessoa abordada: Você se chama Viterbo? Mas era exatamente quem eu estava procurando! Eu sou pesquisador e passo o meu tempo livre tracando a árvore genealógica das famílias mais antigas da cidade e acabei descobrindo um antigo morador que se mudou daqui há muito muito tempo e passou a ser conhecido pelo sobrenome de Viterbo. Ele se mudou para a cidade de Sabará, no Brasil, na época da corrida do ouro em Minas Gerais e conseguiu uma boa fortuna, além de muitos filhos. Anos mais tarde ele largou a família, pegou todo o ouro que tinha conseguido e voltou para Viterbo, o que fez com que a família no Brasil nunca mais mencionasse qualquer ascendência italiana, apesar do sobrenome que foi mantido. Em Viterbo ele construiu uma casa, mas nao gerou mais descendentes. No fim da vida, amargurado com sua solidao, ele escreveu um testamento deixando toda sua fortuna enterrada na casa para o primeiro descendente com esse sobrenome que visitasse a sua cidade. E eu passei toda a minha vida esperando que alguém com essa descricao aparecesse na cidade. Finalmente posso me livrar de todo o ouro que foi mantido sob minha responsabilidade! E nao é só isso! Por você ser descendente de um italiano em 53° geracao, recebe ainda o título de cidada italiana, além da chave da cidade!

Fim do sonho.

Mas, voltando pra realidade e considerando a hipótese de que o portal de luz nao foi aberto e de que eu nao conseguiria passar do buona sera com meu italiano, que acabaria tentando em inglês e alemao, com resultados ainda mais desastrosos, que faria até mímicas para me fazer entender, pegando por fim meu passaporte e apontando o meu nome, o mais provável de acontecer, caso a pessoa nao fugisse com medo de mim antes de entender, seria o seguinte.

Pessoa abordada: Ah, sim, seu sobrenome é Viterbo. Meus parabéns.

Fim do diálogo.

Portanto, considerando que ninguém precisa enfiar o dedo na tomada pra saber que dá choque e que focinho de porco nao é tomada, me recuso a enfiar o dedo em qualquer nariz de porco pra ter certeza da meleca que seria caso eu tentasse.

Fim do post.





Brasilien fica na Alemanha

17 06 2009

Aqui estou de volta, depois de uma semana do que faz muito mais jus ao título “aventura de férias” do que o outro post. Claro que vocês nao tinham a menor nocao do que estava acontecendo, porque fiz questao de nao contar pra quase ninguém. Só falei pro meu namorado porque eu ligo quase todo dia pra ele e se eu ficasse uma semana sem ligar era capaz de ele acionar a polícia federal ou qualquer coisa assim… E na verdade eu tinha planejado contar gradativamente sobre isso, falar como eu fiquei sabendo, os encontros e preparativos que se sucederam até que chegasse finalmente na coisa propriamente dita. Mas pra variar um pouquinho, nao deu tempo. A coisa acabou acontecendo, terminando e eu só vou contar, como aliás muito ou tudo do que eu escrevo aqui, depois de tudo acabado. Mas vou tentar resumir um pouco do que eu tinha planejado escrever em muitos posts e transformar em um só. Vamos ver se dá certo.

Eu acho que eu nao cheguei a comentar ainda a quantidade de brasileiros que eu conheco casualmente aqui na Alemanha. Das duas uma: ou aqui tem uma quantidade de brasileiros acima do normal ou eu tenho algum tipo de magnetismo que me faz atrair todo tipo de pessoa que tem alguma coisa a ver com o Brasil. Eu nao passo uma semana sem conhecer uma pessoa assim, a ponto de irritar. Eu chego feliz pra aula de danca, comeco a dancar com algum rapazinho e três palavras ou dois passos depois vem a famosa pergunta: Você é brasileira? E a minha reacao típica: Como é que você sabe? Porque o brasileiro nao é o tipo de povo que se pode identificar facilmente como orientais ou nórdicos. Somos uma mistura tao grande que qualquer um poderia ser brasileiro, mesmo que tenha tracos orientais. Também nao acho tao fácil identificar o sotaque. Quero dizer, consigo identificar um italiano ou um americano falando alemao, mas nao sei definir bem como é o sotaque brasileiro. Talvez porque seja o meu sotaque também. Talvez pros outros brasileiros seja mais fácil identificar o sotaque do que pra mim, mas o fato é que essa cena já se repetiu tantas vezes que eu tenho vontade de sair correndo quando me fazem a tal pergunta. Isso sem contar nas vezes que eu vi brasileiros na rua, turistas, provavelmente, conversando freneticamente em brasileiro e nao me preocupei em parar pra ter certeza, já me bastam os outros acasos.

Já aconteceu por exemplo, quando eu fui fazer a prova da faculdade (dsh) de eu conhecer um brasileiro porque ele resolveu preencher a ficha dele exatamente no mesmo momento e na mesma mesa em que eu preenchia a minha. Trocamos umas duas palavras, o que foi até iniciativa minha e pronto, morreu bahia e nao nos vimos mais. Isso nesse dia. No dia da prova oral eis que eu vejo ele de novo, já um pouco impaciente, por saber da quantidade de brasileiros por metro quadrado e querendo conversar em alemao pra variar. Acabou que nós fomos selecionados como dupla pra prova oral (o que nao é escolhido por nacionalidade, foi realmente coincidência) e realmente achei que eu nao o encontraria mais, embora ele tenha resolvido pegar o resultado da prova no mesmo dia que eu e tenha brotado do asfalto no meu caminho mais umas duas vezes. Mas a importância dele se restringe a essas coincidências e eu já estou desviando um pouquinho do assunto. Só achei que seria interessante colocar isso aqui. Difícil acreditar que seja coincidência, mas foi. (embora eu ainda nao possa descartar a teoria do íma).

Mas eu achava que esses encontros com brasileiros se limitariam às coincidências de rua. Na minha primeira família, como vocês sabem, a mae era brasileira. Na segunda família a au-pair era brasileira. E na terceira família? Achei que ela realmente estava isenta de qualquer relacao com o Brasil. Mas eis que um dia eu chego em casa e encontro uma moca diferente, que eu nunca tinha visto na vida sentada à mesa com minha Gast. E eis que essa moca fala: “oi, tudo bem?” – e é claro que vocês estavam esperando uma fala muito mais significativa. E esse é o problema de traduzir todos os diálogos, que normalmente sao em alemao. Mas esse foi em português mesmo. E eu assustei. Ela completou: sim, sim, eu falo português! – toda feliz coitada, nao sabendo que eu estava já no ponto de fugir a qualquer mencao de brasileiros. E ela disse que era a irma da minha gast e que foi casada com um brasileiro, por isso falava português… Mas nao, eu nao saí correndo. E até gostei dela. E nao imaginava que justamente ela ia mudar um pouquinho o meu destino, dois meses depois.

Ela trabalha na Basf, em um setor relacionado a línguas e eventos, que nao sei definir muito bem. E um belo dia, quando eu nao estava em casa, ela veio aqui e conversou com minha gast sobre um evento que aconteceria em meados de junho. A Basf receberia um grupo de brasileiros aqui na Alemanha para fazer um passeio na regiao de Heidelberg e em Berlim. E uma das funcoes dela era encontrar uma outra pessoa, de preferência brasileira, que falasse alemao, para compor a equipe que recepcionaria os brasileiros. E perguntou cuidadosamente pra minha gast se eu por acaso nao conheceria ninguém assim. E ela respondeu imediatamente, o que me faz gostar ainda mais dela:

– Se ela conhece alguém? Mas porque nao ela mesma??

E é claro que eu aceitei. Marcamos alguns encontros para resolver os detalhes do evento, tirei alguns dias de férias para poder participar e fui, chegando somente ontem.

(desenterrando um assunto que já estava digamos… enterrado, mas que nao encontraria outra oportunidade pra falar dele além dessa… em um dos encontros com a Petra, a irma (até tento nao citar nomes, mas chega num ponto que fica confuso demais. Mas eu nao vou falar mal dela) conversamos sobre minha primeira família e em um determinado ponto da conversa ela faz uma cara de assustada e diz:

– por acaso ela chama Erika?

Claro que quem assustou foi eu depois dessa pergunta. Acabei descobrindo que minha adorada primeira gast estudou com o ex-marido da Petra. E que ele tinha uma impressao bastante peculiar sobre ela, o que fez com que a Petra se lembrasse dela apesar de nao tê-la conhecido pessoalmente:

– Complicada, muito complicada.

No mesmo dia conto a coincidência pra minha Gast e ela me conta do encontro das duas na reuniao da escola:

– Eu acho que ela é bem… complicada.

E eu pude dormir feliz com a certeza de que nao sou eu quem precisa de tratamento.)

E é claro que pra variar um pouquinho eu me estendi demais nessa miscelânea de assuntos e vou ter que deixar pra outro post a descricao detalhada do evento. Mas vale a pena esperar.





Portugeutsch

17 02 2009

Uma das coisas que eu deveria ter falado no início do blog e nao falei (pelo menos acho que nao) é que a Erika é brasileira. Isso foi muito bom na época da negociacao, porque algumas vezes a língua foi um empecilho pra mim (tá bom, uma vez só. Mas acho que foi mais nervosismo e timidez que me fizeram engasgar tanto no telefone quando a familia me ligou, a ponto de eles pensarem que eu devia sofrer de um sério problema mental e por isso nao conseguia articular as palavras e decidiram que deveria ser muito arriscado entregar o precioso bebê deles aos cuidados de uma pessoa que nao sabia responder sem pestanejar o que ela faria se o bebê comecasse a gritar, gritar e gritar sem parar – chamava os bombeiros? Fingia que nao ouvia? Jogava pela janela? Me jogava pela janela? Ou todas as opcoes anteriores nao necessariamente nessa ordem?). Outras vezes, em negociacao com outras familias, a alimentacao foi um problema. A mae disse: Acho que meus filhos nao vao conseguir entender o fato de voce comer uma comida diferente da deles… (é, eles deviam ser mesmo muito inteligentes). E a Erika entao conseguia resolver em um pacote só esses dois problemas, já que ela é brasileira e foi vegetariana por muito tempo (prometo que depois escrevo um post só pra alimentacao). Na verdade eu tive contato com muito poucas familias, porque eu só fui descobrir as ferramentas mais úteis na vida de uma au-pair sem agência (como a comunidade no orkut e o site au-pair world) depois de já ter fechado negócio com a Erika. É muito provável que se eu tivesse conhecido essas ferramentas antes, as coisas teriam sido bem diferentes. Destino? Mas o fato é que a Erika parecia ser no momento uma solucao para os meus problemas e realmente foi. Só que depois, com o tempo fui descobrindo alguns problemas que existem quando a sua gast fala português:
1 – Você nao vai falar alemao o tempo todo, o que significa aprender menos. No meu caso as criancas e o marido falam alemao, mas ha familias em que todos falam portugues;
2 – Você só vai falar em português com a gast e normalmente vai ser ela quem vai conversar com voce as coisas mais sérias e por isso mais longas, com mais palavras novas e que seria uma ótima oportunidade de aprender se fosse em alemao. Você nao vai um belo dia passar a falar alemao com sua gast, como eu pensei que pudesse acontecer. Agora já estou encarando a realidade;
3 – Algumas vezes, como é o meu caso, a gast vai querer que você fale português com as criancas e já aconteceu comigo de eu perguntar como se fala algo em alemao pra falar com as meninas e ela falar:
– Fala em português!
– Mas eu preciso saber como é em alemao.
– Mas por que você nao fala em portugues? O máximo que vai acontecer é elas nao entenderem…
– E se elas estiverem no meio da rua e estiver vindo um carro?
– Tenta falar português com elas.
Mas depois de eu explicar pra ela o risco das filhas serem atropeladas por nao entenderem que “sai daí” é diferente de “pode ir”, acho que ela captou a mensagem, entao esse problema está parcialmente (eu disse parciamente) resolvido.
4 – Se o objetivo é aprender sobre a cultura alema e voce estiver numa família que nao é 100% alema, voce pode nao aprender tanto assim sobre cultura. Claro que o impacto cultural vai ser menor, provavelmente a adaptacao vai ser mais fácil também. No meu caso, acho que a Erika é mais alema do que muitas alemas. Já falei das roupas, lembram?
5 – e acho que talvez seja o mais importante: você perde muita privacidade. Você nao vai poder ligar pra sua família pra falar mal da sua família (ficou confuso isso.. Mas voces entenderam, né?) – claro que eu nao faco isso – voce vai ter sempre que esperar ela sair de casa pra fazer isso. E, muito importante, você nao vai poder escrever qualquer coisa que voce quiser no seu blog, no seu orkut ou qualquer site público.

Como esse computador que eu uso e que fica no meu quarto :-) é o mesmo computador de trabalho dela e o endereco do blog está gravado nele, isso significa que ela pode descobrir meu blog a qualquer momento. Mas eu realmente nao escrevo nada aqui que ela nao possa ver e algumas coisas até quero que veja, porque eu acho que muitas vezes fica dificil de expressar exatamente o meu ponto de vista em uma conversa. Lendo isso ela poderia se colocar no meu lugar, entendem? Mas eu tambem nao vou divulgar o endereco pra ela. Vou deixar assim. Ela pode estar lendo, mas eu vou escrever exatamente a mesma coisa que eu escreveria se ela jamais lesse (tá, é claro que se ela fosse alema eu teria digamos… muito mais liberdade). Mas uma coisa que eu nao conseguiria é prejudicar meu estilo, por exemplo, meus exageros e os parênteses pensando no que ela pensaria se lesse isso. É simplesmente mais forte do que eu. Pode até nao ser a mais pura verdade, mas pode se tornar verdade se estiver bem escrito. Eu sei que vocês devem pensar que ela é uma carrasca e que minha família é horrível, mas nao é bem assim. A Erika é legal, minha família é legal e eu gosto muito deles todos, mas muitas vezes nao consigo escrever de outra forma, simplesmente tem que ser assim. É um pouco complexo, isso. Tem a ver com eu-lírico, com ficcao, com personagem, com citacoes de Fernando Pessoa e se eu comecasse a falar disso voces deixariam de ler meu blog e iriam assistir Big Brother. Se é que já nao estao fazendo isso. Mas o que eu queria dizer é que eu espero que voces tenham a consciencia de que nem sempre tudo o que escrevo aqui corresponde à verdade (na verdade, se eu recorrer às teorias que eu falei, poderia dizer que nada do que se escreve corresponde totalmente à verdade, mas aí vocês me achariam uma mentirosa e se rebelariam contra os escritores do mundo todo e acho que essa nao seria exatamente a revolucao literária que estamos precisando. Mas isso já tá ficando Letras demais). Na maioria das vezes eu penso que a Erika poderia ficar chateada se lesse tal coisa que eu escrevi, mas eu nao conseguiria mudar. A frase surge perfeita na minha mente. Mais um parênteses que se encaixa (e de preferencia com outro dentro dele) e pronto! A expressao perfeita e exata do que eu queria, que vai produzir tal efeito, se ligando a essa outra frase em seguida, com essa palavra entre aspas e essa expressao entre vírgulas. Muitas vezes tirar as aspas ou a vírgula já seria um crime. Agora imagine mudar uma palavra ou uma frase inteira por medo de tal pessoa ler e se magoar. É inconcebível! Eu me sentiria na época da ditadura fazendo isso. Se a Erika descobrir esse blog, e falar isso comigo, talvez eu mude também o meu jeito de escrever, o que eu nao quero de forma alguma e nem sei se consigo. Eu já disse, é mais forte do que eu. Por isso eu prefiro que ela nao comente nada comigo se descobrir – mas é claro que no blog pode comentar. Comente voce também! – Acho que se eu nao souber que ela sabe, voces vao saber muito mais, sabe? E acho que é mais emocionante assim, escrever sem saber se ela está lendo. E algumas vezes até escrever pra ela sem a certeza de que ela vai ler, sem saber o que vai achar. Mas ela pode me falar, no meu último dia aqui. Seria dramático: vestida de preto dos pés a cabeca, o rosto muito branco, Erika se aproxima de Carol e diz:

– Tem algo que você precisa saber antes de partir, Carol…

A música se intensifica, a câmera mostra o rosto de Carol, ansiosa e assustada, coracao acelerado, maos tremulas, os pensamentos se sucedendo com uma velocidade vertiginosa. Foco no rosto de Erika. Seu olhar é severo, sua voz é fria e cortante:

– Eu sei o que você fez no inverno passado.

A música chega ao auge. Os olhos de Carol estao lívidos, seu rosto está pálido. Erika está impassível. De repente um grito de horror corta o ar. A cena escurece. Silêncio…

[cenas dos próximos capítulos…]