Nas nuvens

27 11 2009

Hoje pousou uma nuvem na minha cidade. E eu morei por um dia dentro de uma nuvem. Tudo muda, de repente. O ar fica mais frio, mais denso, mais embaçado. A cidade toda se modifica. Os olhares mudam. Para mim, que moro no alto da cidade, é ainda mais intenso. E pra ver isso de perto (ou de longe) fui ainda mais alto, na floresta que fica perto da minha casa. Normalmente, de lá dá pra ver a cidade inteira com suas casas, ruas e rio. Mas hoje não. Hoje o máximo que eu podia era ouvir o barulho dos carros passando lá embaixo. Não tinha mais casa, não tinha mais rio nem ruas. Só o ruído contínuo de uma cidade que ainda vive. Estava sozinha. De quando em quando, parecia se aproximar alguém, um ser, um vulto. Mas eles evaporavam antes de chegarem perto o suficiente. Nesse dia tudo era possível. Os contornos se misturavam, se diluíam na branquidão. O mundo só existia num raio de 10 metros. Em torno de mim, apenas árvores e uma imensidão de neblina, que me fazia perder-me em mim mesma. Estava frio. A minha respiração não estava apenas visível: todo o ar era a minha respiração. Eu respirava e via nitidamente todo o ar à minha volta se movendo, como se o simples movimento dos meus pulmões tivesse o poder de fazer ventar.  E eu caminhava mais e mais para dentro. Não conseguia ver o que vinha a seguir. Não podia ver o que se passou. Eu só existia ali, naquele lugar, naquele presente. Embaçado como um sonho do qual tentamos nos lembrar. Ou em que tentamos existir. Nada parecia ser real. Nada parecia ser concreto. E eu virei de repente personagem de um filme. Ou de um livro. Ou de um blog. Em um mundo quase só meu, feito de neblina e sonhos. Não havia medo. Não havia nada além do que eu queria. Ou enxergava. E tudo o que existia eram as árvores, suas folhas alaranjadas, o chão repleto de folhas. Uma melodia doce e distante, vindo de algum ponto incerto da minha imaginação. Uma folha de papel e uma caneta. E neblina suficiente para embaçar até os textos mais concretos. Ou os mais abstratos.

Hoje eu morei num mundo feito de nuvem e sons. E gostei.

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Férias de batatas

15 11 2009

A Alemanha é provavelmente o país que mais tem férias nesse planeta de deus. Na escola, além das férias de verão, que duram de dois a três meses, as crianças têm até duas semanas de férias a cada mês e meio de aula. As últimas férias, de uma semana, foram em outubro. Assim, enquanto os professores no Brasil inventam aulas extras o ano inteiro para garantir a tão esperada e criticada semana de outubro, os alemães ganham-na de graça. Mas aqui os motivos das férias são outros. Hoje essa semana se chama algo como férias de outono (Herbstferien). Mas antigamente, para honrar o nome de Terra da Batata, as férias tinham o aclamado nome de Kartoffelnferien, ou seja, Férias das Batatas. Quando descobri isso, me interessei bastante pela origem desse nome tão peculiar e resolvi pesquisar a fundo o que levou a Terra da Batata a ter uma semana com esse nome. Seguem abaixo os resultados da minha pesquisa.

Depois de trabalharem longos meses no campo nessa vida cansativa de fazer fotossíntese, sugar água, pegar nutrientes do solo, entre outras atividades, os pés de batatas finalmente ganham suas merecidas férias em outubro. As batatas são retiradas dos campos frios e selvagens, onde correm o perigo de serem devoradas por porcos ou pisoteadas por crianças e são levadas para galpões, despensas e panelas para serem devoradas de forma mais decente e civilizada, com no mínimo uma oração antes das refeições. Antigamente, para comemorar a semana das batatas, as crianças em vez de irem pra aula iam pro campo ajudar os pais a proporcionar mais conforto e alegria para os queridos tubérculos. Hoje, que a maioria das batatas já nasce empacotada no supermercado, as férias continuaram, mas o nome mudou. E agora é o outono que tira férias para virar inverno nas férias seguintes.Sem as tão esperadas férias, os pés de batata são obrigados a fazer muito mais fotossíntese do que antigamente. O stress e o excesso de trabalho tem propiciado o aparecimento de manchas de coloração esverdeada bem como de deformações genéticas, o que gera aberrações nunca antes vistas e pode propiciar inúmeros problemas sociais e psicológicos entre as batatas.

batata complexada 1
E.K.

O Instituto de Proteção à Batata (Kartoffelschutzinstitut) tem recebido um número cada vez maior de batatas com problemas de inadequação social. É o caso de E. K., mostrado na foto à direita. E.K., que preferiu não ser identificado, começou a apresentar problemas de relacionamento com outros vegetais depois de ter sido rejeitado por uma criança no supermercado. Em seguida, não conseguiu mais permanecer no compartimento de batatas e migrou para o compartimento de abobrinhas, pimentões e tomates, mas foi expulso de todos eles. Totalmente traumatizado, foi recolhido por psicólogos do instituto, que tentam integrá-lo novamente à sociedade. E.K. já considera a possibilidade de se submeter a uma operação, embora especialistas afirmem que as incrustações na sua pele sejam absolutamente normais. “A maior realização para uma batata hoje é servir de alimento para os seres humanos. Elas são plantadas e cultivadas com esse fim e quando não conseguem cumprir o objetivo para o qual foram designadas, como no caso de E. K., isso gera um quadro depressivo dificilmente reversível.”, diz Hans Backfisch, supervisor do Instituto. A maior parte dos pacientes do Instituto reclama da ausência das férias de outubro, que antes eram tão esperadas.

batata lisa
Lisa

“Sempre ouvimos dos nossos avós como era feliz a época em que as crianças ajudavam na colheita. As batatas eram tratadas com muito mais carinho e respeito. Hoje somos friamente empacotadas para os supermercados e ouvimos cada vez menos agradecimentos antes de sermos devoradas. Eu tive a sorte de ter um outro destino, mas a maioria das batatas tem o mesmo fim”, diz Lisa, uma batata doce que foi adotada por uma menina de 6 anos e hoje ajuda na recuperação de outros tubérculos no Instituto. “O caso de Lisa é bastante diferente dos outros”, diz Johannes Meier, psicólogo voluntário do Instituto, “enquanto as outras batatas sofrem com a rejeição humana, Lisa sente-se mais próxima dos humanos e tenta até mesmo se passar por um deles. Mas não é capaz de admitir que também foi rejeitada pela criança que a adotara”. Johannes diz que uma das causas dos problemas observados nas batatas também pode ser fruto da larga utilização de agrotóxicos e das experiências para melhoramento genético a que as batatas são submetidas.

Na última reunião do Kartoffel-Gewerkschaft, organização sem fins lucrativos em prol dos direitos das batatas, foi determinado que, caso as condições de trabalho não sejam melhoradas, os pés de batata de toda a Alemanha pararão de produzir batatas e o país, famoso pelos seus tubérculos corre o risco de perder o tão estimado título de Terra da Batata. Também foi exigida pela organização a supressão dos experimentos genéticos com os vegetais, que pode colaborar para o aparecimento de deformações, gerando inúmeros problemas sociais para os tubérculos atingidos. A utilização de produtos inseticidas também foi colocada em pauta, mas as opiniões quanto à sua proibição são divergentes. Alguns integrantes do Kartoffel-Gewerkschaft alegam que os produtos serviriam para a proteção dos pés de batata e que por isso devem ser mantidos. Outros membros preocupam-se com o impacto ambiental de tais produtos e a influência indireta que exercem nos pés de batata.

A crise das Batatas é vista como uma das mais graves da história da Alemanha, sendo comparada até mesmo com a crise econômica mundial e a gripe suína. A sociedade também se preocupa e se empenha na realização de diversos protestos em defesa das batatas. O estudante de biologia Stefan Winke, um dos integrantes do movimento, declarou em entrevista: “Conheço as batatas desde pequeno. Sempre ajudei no plantio e na colheita delas e me preocupo com a situação. Estou disposto a lutar para que elas tenham uma melhor qualidade de vida. “

Só resta esperar que as autoridades tomem as providências cabíveis para que a Alemanha possa manter o seu título de Terra da Batata com a honra e dignidade de um país do seu porte. Afinal, como diz o lema do Kartoffelschutzinstitut, “os tubérculos são nossos amigos e merecem respeito”.

batata coração

Demonstre você também o seu amor pelas batatas!





Esperando o Papai Noel

26 08 2009

Escrevo em uma hora que já deveria estar dormindo. Costumo culpar a Internet quando fico acordada até tarde, mas dessa vez nao é a Internet. E estou na verdade em um daqueles raros momentos em que eu precisei procurar pelos meus óculos, já que meu ritual noturno que inclui escovar os dentes, pentear os cabelos e tirar a lente já tinha sido cumprido. Já me deitei, me cobri e fechei os olhinhos esperando aquele momento mágico em que a gente simplesmente perde o controle dos pensamentos e deixa a mente fluir num fluxo de imagens e sons que nao condizem exatamente com a realidade dos fatos. A temperatura do corpo se eleva, a respiracao se altera, se torna profunda e serena e todos os músculos relaxam, sucumbindo finalmente ao peso de ter trabalhado um dia inteiro. Mas esse momento nao chegou. E na verdade nao consegui ficar nem muito tempo no estágio em que os olhos estao fechados, mas comecei a repassar mentalmente tudo o que ainda deveria ser feito, o que deveria ser arrumado, comprado, embalado, escrito, agendado, transportado. E de repente abro os olhos apressada, por lembrar de alguma coisa que eu nao posso resolver agora, mas me levanto e acrescento com a letra espremida mais um item à lista que já nao cabe mais em uma só folha. Será que vou conseguir fazer tudo amanha? Nao é melhor tentar adiantar algo hoje? E a voz da consciência, muito maissensata que a dona dela diz que seria muito mais produtivo voltar pra cama agora. Mais produtivo. E volto a repassar todas as atividades a serem feitas mentalmente. E de repente me dou conta de que ainda tinha que ligar para a família, avisando. E ligo pra mae, namorado e até praquela tia distante, com quem eu nao falava há muito tempo. Uma hora mais tarde, o ritual se repete. Deitar de lado. Puxar a coberta até a altura do rosto sem tampar o rosto todo. Fechar os olhos. (…) Mas estranhamente a coberta que sempre foi tao aconchegante hoje está quente demais. E o colchao. Deve ter alguma coisa errada com esse colchao. Nova tentativa, mudando agora de lado. Puxar a coberta, fechar os olhos, pensar em alguma coisa que distraia a mente, sem deixá-la perceber que você está tentando dormir. Sim, esse foi um dia interessante. Ainda preciso escrever sobre isso. E subitamente me vem a consciência de estar escrevendo tao pouco.

– Você devia postar todo dia! – fala a tia distante. E na verdade eu gosto de escrever, só nao escrevo tanto porque acabo ocupando meu tempo livre com outras coisas. O que é bem diferente de dizer que nao tenho tempo e por isso mesmo muito pior. Se eu tivesse mais tempo, o resultado seria eu gastar muito mais tempo fazendo as coisas que eu já faco além de escrever e escreveria proporcionalmente o mesmo tanto.

Mas eu devia postar todo dia. E subitamente me vem a vontade de escrever um post por dia, no mínimo. De contar o que aconteceu, o que nao aconteceu e deveria ter acontecido . De discorrer sobre a infinidade de assuntos que a Alemanha oferece. De contar minhas aventuras de bicicleta, que nunca mais foram mencionadas. De falar dos filmes que vi e dos livros que estou lendo, mesmo que nao esteja lendo nenhum. De contar sobre os supermercados sobre o trânsito sobre a cidade sobre o título na terra da batata que até hoje nao foi tematizado. E falar das histórias passadas que já estao quase esquecidas. A Páscoa, todas as festas tradicionais que já vi por aqui. Falar das pessoas que conheci, de encontros engracados, do brasileiro na sorveteria, das aulas de tango, dos passeios com minha família, das brigas com minha família. Vocês nao sabem de nada disso. E eu na verdade já estou quase esquecendo tanta coisa que é preciso falar. Preciso pelo menos mencioná-las pra um dia ter a decência de compartilhar com vocês.

– Você devia postar todo dia.

Mas isso vai ter que esperar. Nao vou escrever tao cedo durante as próximas duas semanas, talvez três. E talvez por isso tenha deixado toda a lista de coisas a serem feitas de lado e escrito sobre um assunto tao metalingüístico, que nao vai colocar o assunto do blog em dia. E dentro de exatamente 24 horas vao comecar a jorrar assuntos a serem escritos. E eu preciso escrever na minha lista para lembrar de levar um caderninho de anotacoes, como todo escritor que se preze deve ter. E tentar nao fazer como eu fiz no evento da Basf, um resumao pra acontecimentos que dariam no mínimo quatro posts. Vou tentar, juro, um post pra cada cidade, no mínimo, ainda que demore um pouco mais pra ser atualizado… Mais uma coisa pra acrescentar na lista. O roteiro? Ainda nao está muito certo. Ou na verdade até está, mas nao quero contar antes. E nao devia nem ter falado pra família, que sempre parece parar de prestar atencao quando eu chego na metade. Talvez seja coisa demais. Talvez eles esperem que eu fale o nome de três cidades famosas e pronto. Mas duas semanas e meia pra conhecer a Europa é definitivamente muito pouco. E o fato de nao estar conseguindo dormir agora, às 2 e meia da madrugada faz com que amanha nesse mesmo horário, quando eu devo estar no ônibus que vai pro aeroporto, eu nao esteja exatamente tao descansada assim, como eu tinha planejado quando fui pra cama umas 3 horas atrás. E talvez amanha seja ainda pior e eu nao consiga nem fechar os olhos, de ansiedade. Como as noites que antecedem o Natal na nossa infância. O bom dessa época é que somos obrigados a ficar deitados, porque Papai Noel só vem quando a gente está dormindo. Ou pelo menos na minha família (dessa vez a de verdade) ele faz assim. E sem computadores e blogs pra desviar a atencao da nossa mente, acabávamos dormindo. Bons tempos.

E agora, hipnotizados pelo brilho frio do monitor, meus olhos já comecam a protestar pelos seus direitos trabalhistas e exigir adicional noturno pelas horas extras trabalhadas hoje. E ameacam greve. E eu espero, sinceramente, que eles fechem as portas dessa vez. Boa noite.





Para nao tentar entender

5 07 2009

E eis que de repente escuto o que eu mais queria ouvir de quem eu menos esperava. Sem precisar de qualquer esforco, sem qualquer impulso da minha parte. Espontâneo. E mal consigo disfarcar minha surpresa, que de tao intensa ofusca a felicidade. Estarrecida diante do mundo que se abre ante os meus olhos, titubeio e apenas tento entender. E sinto que talvez o comeco desse novo mundo represente o fim definitivo do que já foi e já era o meu mundo anterior. E nao sei se fico feliz pelo novo mundo, se choro a morte do velho, se devo nutrir qualquer esperanca de nao abandoná-lo definitivamente. E sei que de certa forma ele nunca seria o mesmo, que como o rio sempre se renova. E nao sei bem para onde direcionar agora minha saudade. Sinto pelo que já foi ou pelo que será. Mas nao pelo que é agora, porque esse eu já nao conheco.





Prolixidade

24 06 2009

Pra variar um pouquinho, resolvi contar detalhes demais do evento, por isso está demorando. Acho que vai ter mais de um capítulo também, mas fazer o quê! É o que dá ser prolixa. Nunca consegui fazer uma redacao de escola respeitando o limite de linhas sem ter que espremer muito a letra. Sempre ficava também por último e às vezes ainda dava um jeitinho de ficar além do tempo pra conseguir escrever mais. Como da vez que eu fingi que estava com LER na época das avaliacoes bimestrais. E o meu lado virginiana se manifesta nessas horas, querendo que saia tudo pefeito, embora dificilmente eu consiga manter meu quarto arrumado. Segundo minha professora de leitura artística oral aqui na  Terra da Batata, isso é culpa do meu ascendente em Câncer, que também nao me deixa escolher as coisas com facilidade. Mas eu espero que a conjuntura astral dessa semana esteja boa e que eu consiga terminar logo o(s) posts que comecei antes de criar outro muito maior do que o planejado que nao tem nada a ver com o assunto. O que será que a Tia Tiza tem a dizer sobre isso?





sao as águas de marco fechando o verao…

7 06 2009

Engracado, agora que eu “atualizei” o blog, to com vontade de contar uns causos mais antigos…

Bem, seguindo a lista de posts que eu tinha feito, o próximo assunto que eu teria pra falar agora seria sobre o mes de marco. Porque marco?? o leitor se pergunta aflito – você já nao tinha atualizado, agora vai querer voltar tudo atrás de novo?? Sim, mas na verdade nao é exatamente um caso, é simplesmente uma observacao filosófica sobre alguns acontecimentos da minha vida absolutamente absurda e inútil, o que significa que eu vou falar e refalar sobre um assunto que nao interessa a ninguém exceto a mim mesma e que nao passa na verdade de um monte de constatacoes infundadas com um pseudo fundo de verdade. E isso quer dizer que se você quiser parar de ler nesse exato momento eu vou entender perfeitamente e nao vou achar que você gosta menos de mim por causa disso. E talvez voce passe até a gostar menos se por um acaso continuar a ler (nao por que eu vou revelar lados muito mais sombrios da minha personalidade do que o consumismo desenfreado, mas porque simplesmente ao terminar a leitura talvez você pare e exclame: nao acredito que eu perdi meu precioso tempo lendo essa besteira! ). Entao, pra evitar exclamacoes do tipo e todas as inimizades por elas desencadeadas, aviso que o seguinte post é talvez o mais inútil e absurdo que eu já escrevi aqui (e talvez por isso mesmo nao consigo deixar de escrever) e que você nao deve se sentir de forma alguma obrigado a seguir em frente.

Bem, a escolha foi sua.

Nao me lembro exatamente quando eu comecei a marcar minha vida por datas. Talvez tenha sido na fase que eu descobri um significado muito maior para alguns períodos do ano do que o que normalmente é atribuído a eles. E talvez nessa época, que coincide exatamente com o meu período místico, de que vira e mexe eu falo por aqui, mas nunca explico direito, eu me sentisse tao incrivelmente especial na minha grandiosa insignificância que comecei a observar a coincidência de alguns acontecimentos relativamente importantes ou em alguns casos muito importantes na minha vida com essas tais datas. E comecei a perceber como algumas coisas aparentemente tinham a tendência de se repetir em certas épocas do ano. Passado o período místico, digamos que eu nao me sinto mais tao especial devido a essas coincidências, mas elas ainda acontecem. E talvez o que se passe de diferente comigo é que minha vida apresenta um número de acontecimentos importantes acima do normal, o que é suficiente pra que se estabeleca um padrao entre eles. E eu sei que nessa frase eu passei a impressao de achar que eu sou mais importante do que todo o resto da humanidade, mas eu me explico: Acredito que a maioria dos meus leitores tenha uma certa rotina ou que sua vida se estabeleca dentro de alguns parâmetros: você tem um emprego, se já tiver idade suficiente pra isso, ou um estágio, se já está na faculdade, ou simplesmente ainda estuda. Você segue uma religiao ou uma filosofia qualquer ou nao segue nada. Você tem um namorado ou namorada ou está solteiro, mas de qualquer forma tem amigos e tem sua família. Dentro desses parâmetros se estabelece uma rotina: voce levanta de manha (ou mesmo que nao seja tao de manha assim, quando eu lembro de uma certa amiga gaúcha…), vai pra escola/trabalho, faz alguma atividade regular ou encontra com alguém ou volta pra casa. A rotina se baseia nisso e, por ser rotina tem a tendência de permanecer assim por um tempo considerável. Pelo menos na maioria dos casos. No meu nao. Claro que eu também tenho rotinas, mas acho que elas mudam com uma frequencia muito maior do que o esperado. Ou no mínimo já mudaram em uma proporcao muito exagerada pra muito pouco tempo de vida, considerando que eu nao sou tao velha assim. Mas chega de abstracoes e vamos a exemplos concretos.

Acho que talvez tudo tenha comecado no meu aniversário de 16 anos. Porque exatamente nesse dia eu dei o meu primeiro beijo. Um pouquinho velha pros parâmetros atuais, eu sei. Mas eu queria que esse momento fosse digamos… especial. E de certa forma foi. Apesar de nao ter durado nem um mês foi a primeira coisa que eu pude chamar de namoro. Foi também nessa época que eu tomei a decisao que mudou completamente a minha vida, de entrar pro Colégio Militar. Nada seria como é hoje se eu nao tivesse tomado essa decisao, feito a inscricao pra prova no último dia possível e conseguido, ao contrário de todas as expectativas, me classificar entre as dez vagas existentes. E se você já nao tivesse entrado na minha vida antes desse mês, provavelmente nunca mais entraria, independente de onde tenhamos nos conhecido, o que dá à minha decisao uma importância muito maior do que ao tal beijo (e na verdade provavelmente eu nao teria tomado essa decisao  se nesse dia nao tivesse chovido, o que me faz voltar àquele tema de destino, efeito borboleta, etc. Mas aí eu já me estenderia demais). E talvez você esteja se perguntando porque é que eu estou falando de setembro se o tema inicial era o mês de marco. Acontece que é justamente nesses dois meses que se concentram algumas mudancas muito importantes na minha vida. Setembro, além de me deixar mais velha, também tem outra peculiaridade (nao, nao é o 7 de setembro), que é a mudanca de estacao, do inverno pra primavera, na época muito mais significativa pra mim do que hoje. O outro equinócio é justamente em marco, na mudanca do verao para o outono. E é também nessa época o início do ano astrológico, que comeca no signo de áries. Sei que isso já tá ficando místico demais, mas pra explicar esses fenômenos, eu tenho mesmo que falar isso tudo (e olha que eu nem estou descrevendo com detalhes as simbologias…)

Avancando mais um pouquinho no tempo, em marco do próximo ano (mais precisamente no exato dia da mudanca de estacao) foi o comeco de um relacionamento muito importante, que também mudou minha vida em vários aspectos. Esse mesmo relacionamento acaba terminando em setembro do mesmo ano e é também em setembro que acontece uma importante mudanca de pensamento ou de perspectiva em mim, o que acaba levando a uma mudanca radical de filosofia de vida. No próximo marco (e também exatamente no dia do equinócio), já com outra filosofia, outro início de relacionamento também bastante importante, o qual entre idas e vindas e voltas também termina em setembro do mesmo ano, mês em que eu comeco oficialmente o que eu poderia chamar de meu primeiro emprego nao-oficial. Marco seguinte acontece a retomada de contato com uma pessoa muito especial que eu nao via já há algum tempo e que também muda bastante o rumo das coisas. Em setembro, nada com data muito marcada, mas entre as coisas que aconteceram nessa época estao a saída do que eu poderia chamar de  meu primeiro emprego quase oficial, uma outra mudanca de filosofia, embora nao tao radical quanto a anterior e o comeco de um certo interesse por uma pessoa que eu nunca pensei que fosse me interessar. Marco traz o término do relacionamento com essa mesma pessoa, comecado em dezembro e nenhum novo relacionamento, embora tenha sido nesse mês também que eu entrei na faculdade (o que eu nao poderia chamar de destino, já que a Federal sempre comeca as aulas nessa época). Mas em setembro desse ano comeca um relacionamento muito importante, além de ter sido o mês em que eu comecei o meu primeiro emprego oficial, fugi de casa e comecei o que me levaria a tentar abrir minha primeira empresa. O próximo marco é turbulento entre términos, comecos, vindas e voltas e compra das minhas primeiras acoes (ou foi em fevereiro?). Já em setembro acontece uma mudanca profissional e eu vou pro meu primeiro pré-emprego oficial, sendo que em marco do próximo ano acontece a transformacao de pré-emprego para emprego propriamente dito, embora tenha sido também em marco que eu decidi nunca trabalhar nele. Em setembro eu tomo a decisao importante de ir trabalhar em uma certa família na Alemanha em vez de me tornar estudante em Colônia, o que também era uma possibilidade. E em marco desse ano, acho que eu nao preciso descrever a quantidade de mudancas que ocorreram… e nao sei se vocês repararam na data dos posts, mas a decisao de ir para a família em que estou agora foi tomada exatamente no dia do equinócio (que aqui é de  primavera). Coincidência?

Nao sei até que ponto essa regra se aplica. E nao sei até que ponto os meus pensamentos influenciam pra que essas mudancas acontecam exaamente nessas datas. Nao sei se elas realmente acontecem “por acaso” ou se só acontecem nessas épocas porque eu já espero que acontecam. Mas essa coisa de datas influenciou até pra que eu terminasse um namoro uma vez, porque “ele já terminaria de qualquer jeito mesmo…”. Por sorte eu percebi a tempo o grande erro que eu estava cometendo. E vocês podem reparar que a partir de certo ponto da minha narracao nao tem mais nenhuma mudanca de relacionamento. Mas sim, os empregos continuam mudando. E de certa forma já era esperado que isso acontecesse. Mas eu nao estava esperando muito por isso. Como eu disse, vim pra cá achando que realmente ficaria na mesma família do comeco ao fim, entao nao sei até que ponto eu posso ter influenciado todas essas mudancas. E realmente nao sei porque eu resolvi contar tudo isso aqui ou porque acabou ficando muito mais pessoal do que deveria, mas eu simplesmente tinha que escrever sobre isso. Nao sei bem o que o futuro me reserva. Acho que nao preciso ter medo quanto a relacionamentos, mas como diz a Mayara: “de uma coisa você pode estar certa: eu vou te ligar em setembro”.