Despedida

6 02 2010

O que eu menos queria era uma briga com minha família minutos antes de ir embora. E me surpreendi com minha Gast abrindo as gavetas, apontando o que era meu, o que eu deveria devolver ou jogar fora. Ela ficou nervosa por eu não ter aproveitado o tempo que ela me dera para arrumar as malas e o quarto e ter em vez disso passado todo o tempo com ele, tentando fazer o máximo possível das coisas da lista de coisas a serem feitas antes de voltar pro Brasil. Ainda faltam muitas… Mas como eu já disse pra ele, se a gente fizesse tudo de uma vez, eu não precisaria voltar. Estava com medo de que minha Gast desistisse de me levar ao aeroporto. Ou desistisse de me dar o dinheiro prometido. Se é que ela ainda se lembrava. Mas com uma hora de atraso, ela já estava mais calma. Achei até bom, no fim das contas. Pude ver as crianças de novo, me despedir delas. Ganhei até um beijinho do bebê. As crianças não foram para o aeroporto. Ela achava que não seria tão interessante pra elas ficar duas horas sentadas no carro. E não seria exatamente a coisa mais divertida do mundo despedir da au-pair no aeroporto. Talvez melhor assim. Passamos na casa dele e deixamos metade da bagagem que estava no carro. Aproveitamos a viagem para conversar um pouco de tudo. Perguntei algumas coisas que sempre quis perguntar. Era a última chance. Eu não estava triste. Já tinha chorado demais há algumas semanas e chegara a um ponto de aceitação. Afinal, não seria tão ruim assim voltar pro Brasil. Chegando ao aeroporto, ela me entregou o dinheiro apressada, como se não quisesse que ele visse. Até mais do que o prometido. Eu estava salva. Desembarcamos as malas, alojamos no carrinho. Ele ficaria até a hora do vôo. Ela já voltaria para casa. E chegou a hora da despedida. Apesar de todas as controvérsias ao longo desse ano que vivi com eles e das tantas vezes em que ela foi injusta comigo, sempre gostei muito dela. Não como patroa. Mas como amiga. Gostava de conversar com ela, contar dasos, pedir conselhos. E acho que ela também gostava desses momentos. Mas por várias razões, sempre mantive um certo distanciamento emocional. E não estava preparada para o que aconteceu. Ela me abraçou, me disse que sempre queria que eu ficasse com eles por mais tempo, que sempre teve esperanças de que eu prolongasse o meu visto e desatou a chorar. Acho que foi a primeira vez que eu a vi chorando. Sempre foi tão controlada, tão decidida. Mas não conseguiu resistir à despedida. Eu não chorei. Mas me senti incrivelmente grata por aquelas lágrimas. E sabia tabém que a despedida mais difícil ainda estava por vir.

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Malas e tralhas

4 02 2010

Nunca imaginei que em um ano pudesse-se acumular tanta coisa. Depois de decidir não pagar uma mala extra, o primeiro passo para arrumar as malas foi me livrar de tudo que estava estragado ou não servia mais de alguma forma. Depois de jogar fora um terço das coisas que eu tinha no meu quarto e metade das coisas que eu já tinha salvado do lixo e ver que ainda estava longe de caber nas duas malas despachadas e na bagagem de mão, tive que me livrar de todas as coisas que eu ainda poderia usar, mas que não eram lá tão bonitas. Depois de jogar fora muitas outras roupas e sapatos e bolsas e mochilas e meias e calcinhas, percebi que não tinha sentido trazer casacos de inverno pro Brasil quando se mora em uma cidade em que 15ºC é frio, mas que também não tinha sentido jogar fora coisas que ainda estavam em perfeito estado de uso, ainda que sejam, sob certo ponto de vista, inúteis. Depois de perguntar com jeitinho se eu poderia deixar algumas coisas na casa dele e de separar cuidadosamente o que seria deixado pra trás, o que talvez poderia ser enviado depois e o que era totalmente inútil, mas que eu não conseguia jogar fora por razões emocionais absolutamente incompreensíveis, descobri que a montanha de coisas a serem deixadas já estava ficando maior que a de coisas a serem levadas e que por mais que ele gostasse de mim o coração (ou o quarto) dele não era grande o suficiente para abrigar tanta tralha. Depois de vencer barreiras emocionais incompreensíveis para a mente alemã e me desfazer de coisas que em outra situação seria inconcebível e perceber que ainda assim não era suficiente, comecei a entrar em desespero. Olhava para as roupas espremidas na mala, cada uma comprada em uma promoção diferente e sabia que tinha que me desfazer delas. Mudei meus critérios. Só entravam na mala coisas absolutamente indispensáveis, impecáveis e imprescindíveis ou que representassem uma ligação emocional forte demais para que fossem deixadas para trás. E depois de pesar as malas descobri que teria que deixar até a ligação emocional de lado. A sensação era de jogar fora uma vida inteira construída nesse ano.

Quando comecei a arrumar as malas, há algumas semanas, decidi que não repetiria o erro da vinda, em que nos últimos minutos eu ainda estava arremessando coisas pra dentro da mala. Por isso quis planejar tudo direitinho, decidir exatamente o que seria levado e tudo o mais. Claro que não deu certo. A minha gast foi compreensiva e me deu os dois dias antes da viagem de folga pra que desse tempo de organizar tudo. E como eu sou eu, é claro que em vez disso eu fui passear, andar de trenó, despedir dos amigos e deixei pra terminar de arrumar as malas e o quarto duas horas antes da viagem. Achei que seria fácil. No fim das contas eu já estava jogando as coisas de qualquer jeito nas malas, jogando coisas fora sem pensar um segundo em relação emocional ou impacto ambiental ou terremoto no Haiti. O plano era sair às 15 horas e quando minha Gast percebeu que eu não cumpriria o prazo, começou a ficar nervosa. Entrou no quarto abrindo gavetas e portas de armários e dizendo onde ainda havia coisas minhas. Eu tinha pensado que talvez poderia deixar algumas coisas pra eles, pras crianças, pra futura au-pair, sei lá. Mas depois que ela disse que queria que eu deixasse tudo vazio, não me importei mais. Foi tudo embora. Coisas que há alguns meses eu certamente resgataria do lixo. coisas que eu de fato resgatara. Coisas que poderiam realmente ser úteis para eles, para mim, para o mundo. Tudo ensacado e empilhado na garagem. Ou encaixotado para ser levado para a casa dele. O quarto que nos últimos meses eu quase não habitara, revelou abrigar mais coisas do que eu um dia sonhei em encontrar nele. Saí de lá levando apenas estritamente a bagagem permitida, aproveitando a brecha no controle da bagagem de mão. Malas despachadas eram duas. Na mão só poderia levar teoricamente uma. Acabei levando três, sem contar o casaco e torcendo para que eles realmente não fizessem o controle.

No fim das contas minha gast se acalmou e resolveu interpretar o atraso de uma hora não como desleixo, mas como uma tentativa inconsciente de prolongar minha despedida. Eu, que achava que estava mais pra desleixo, só estava preocupada se ela se lembraria de me dar o dinheiro que havia prometido – ou eu nem conseguiria voltar pra casa. Mas isso é assunto pra outro post.





Famílias

24 01 2010

O que dizer? Sei que está ficando repetitivo eu contar que estou arrumando as malas e tal. Mas não tem muito mais o que dizer. Os últimos dias passaram tão depressa que me assustei ao descobrir que em menos de duas semanas eu chegarei no Brasil. E me assustei mais ainda ao abrir a carteira e descobrir que au-pairs realmente não conseguem ficar ricas. Pelo contrário. E mesmo tendo algumas outras novidades, fica difícil pensar em outra coisa que não seja essa viagem. A sensação, o frio na barriga, é mais ou menos o mesmo que eu senti antes de vir pra cá. A sensação de descobrir um mundo novo, de não saber ao certo como vai ser o meu futuro e minha vida nesse outro mundo. Planejar, é claro que eu planejo. Da mesma forma que planejei antes de vir. Mas vocês como bons leitores sabem que as coisas não saíram exatamente do jeito que eu havia previsto. Melhor, talvez, mas diferente. Imprevisível. E nada impede que aconteça exatamente o mesmo. Depois de tanto tempo aqui, algumas coisas ainda me surpreendem. Como a gente pode se apegar a algumas pessoas a ponto de quase não querer mais ir embora. Como que algumas podem ser tão simpáticas e agradáveis apenas sendo exatamente como elas são. E como outras, ao contrário, podem ser antipáticas a ponto de não cumprimentarem alguém que praticamente mora na mesma casa. Como os valores podem ser diferentes. Como pessoas que recebem por dia mais do que eu em um mês inteiro podem negar um valor que não representa mais do que um par de horas para alguém que dedicou tantas e tantas horas a eles. Muitas vezes de graça. E como pessoas que precisam trabalhar dias, semanas para conseguir esse mesmo valor, o entregam sem pedir nada em troca. É nessas horas que percebo o quanto que valem a amizade e o carinho sinceros. Gostar de alguém sem saber explicar o porquê. Estar com alguém porque quer, não por ser obrigado a fazê-lo. Presentear com gosto, de coração. E é nessas horas que percebo que por mais que eu goste deles e que eles digam que gostem de mim, nunca, nunca cheguei nem perto de fazer parte da família deles. E nem eles da minha. Pra isso eles teriam que comer muito arroz com feijão!





Carol em Viterbo – Adendo

9 10 2009

Brasao da cidade

Brasao da cidade

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As minhas buscas genealógicas nao foram muito além das pesquisas nas pracas e museus. Alguns parentes vao perguntar se eu nao perguntei a nenhum nativo sobre o sobrenome… E antes que os leitores mais sensatos também perguntem, vamos esclarecer alguns pontos:

1 – Eu nao falo italiano além do suficiente pra comprar sorvete, embora ainda tropecando em nomes como Straciatella.

2 – Eu nao falo inglês sem que a cada dez palavras doze saiam em alemao.

3 – Os italianos nao falam inglês e mesmo que falem, nao falam alemao para entender a língua híbrida que surge quando eu tento falar.

4 – Eu nao aprendi línguagem de sinais suficiente para me comunicar sem que me achem louca.

Só nesses quatro itens podemos perceber sérios problemas de comunicacao. E se tais problemas se manifestam na simples compra de um sorvete, imagine em assuntos mais complexos como pesquisar a genealogia da minha família? E o que eu deveria perguntar? Se a pessoa conhece alguém que supostamente morava em Viterbo e que há dezenas, talvez centenas de anos se mudou ganhando o nome da cidade como sobrenome e acabou se procriando no Brasil, gerando entre vários descendentes uma menina curiosa que estava agora fazendo perguntas sem cabimento sobre sua ascendência? E mesmo que eu conseguisse expressar isso em alguma língua que a pessoa entendesse, o que vocês acham que ela iria responder? Que conhece? Outra coisa, pra quem eu deveria perguntar isso? Um assunto de tamanha importância deveria ser tratado no mínimo com o prefeito, que certamente tem o registro de cada pessoa que um dia morou na cidade, para onde se mudou, qual o sobrenome adquirido e todos os descendentes por ela fabricados, com os respectivos dados dos descendentes até a minha geracao. Claro. Mas como o prefeito devia estar ocupado demais com a festa da cidade que ocorreria em dois dias e todos os preparativos e pré-preparativos que isso implica, talvez nao fosse uma idéia tao boa. Entao, deveria abordar alguém na rua? Se o prefeito tem um livro com o registro genealógico de todos os habitantes da cidade, é claro que todos os cidadaos de Viterbo têm a obrigacao moral de sabê-lo de cor. Entao nao custa tentar…

Carol: Oi! [longa pausa para se lembrar como se diz boa tarde em italiano]Buona sera!

[Considerando a hipótese de que a pessoa abordada ache que vale a pena falar com alguém que diz boa noite quando o sol ainda está tao forte que a pessoa tem vontade de voltar para a sesta]

Pessoa abordada: Oi.

[Considerando a hipótese de que eu decorei o manual de conversacao de italiano nos segundos entre o Buona sera e o oi da pessoa abordada]

Carol: Eu me chamo Carol de Viterbo

Pessoa abordada: Valentina Rossi. Muito prazer.

Fim do diálogo.

[Considerando agora a hipótese de que a pessoa abordada considere no mínimo curioso o fato de o meu sobrenome ser o mesmo nome da cidade que ela mora]

Pessoa abordada: Seu sobrenome é Viterbo? Que interessante! Você sabe porque?

Carol: Nao.

Fim do diálogo

[Considerando agora a hipótese de que eu falo italiano fluentemente]

Carol: Boa tarde! Eu estou fazendo uma viagem em busca dos meus ancestrais e gostaria de saber mais sobre a origem do sobrenome Viterbo, que por acaso é o meu sobrenome. Eu tenho a teoria de que esse sobrenome pode ter tido origem quando um morador de Viterbo se mudou da cidade e passou por isso a ser conhecido pelo sobrenome “de Viterbo”. Isso pode ter acontecido há algumas dezenas, talvez centenas de anos. Você sabe de alguma família que se mudou da cidade nessa época e provavelmente depois para o Brasil, onde teve vários descendentes, entre eles eu?

Pessoa abordada: Nao.

Fim do diálogo.

[Considerando a hipótese de que a cidade de Viterbo é realmente mágica e que se abra um portal de luz no momento em que eu piso na cidade, fazendo com que todas as minhas vontades se realizem]

Pessoa abordada: Você se chama Viterbo? Mas era exatamente quem eu estava procurando! Eu sou pesquisador e passo o meu tempo livre tracando a árvore genealógica das famílias mais antigas da cidade e acabei descobrindo um antigo morador que se mudou daqui há muito muito tempo e passou a ser conhecido pelo sobrenome de Viterbo. Ele se mudou para a cidade de Sabará, no Brasil, na época da corrida do ouro em Minas Gerais e conseguiu uma boa fortuna, além de muitos filhos. Anos mais tarde ele largou a família, pegou todo o ouro que tinha conseguido e voltou para Viterbo, o que fez com que a família no Brasil nunca mais mencionasse qualquer ascendência italiana, apesar do sobrenome que foi mantido. Em Viterbo ele construiu uma casa, mas nao gerou mais descendentes. No fim da vida, amargurado com sua solidao, ele escreveu um testamento deixando toda sua fortuna enterrada na casa para o primeiro descendente com esse sobrenome que visitasse a sua cidade. E eu passei toda a minha vida esperando que alguém com essa descricao aparecesse na cidade. Finalmente posso me livrar de todo o ouro que foi mantido sob minha responsabilidade! E nao é só isso! Por você ser descendente de um italiano em 53° geracao, recebe ainda o título de cidada italiana, além da chave da cidade!

Fim do sonho.

Mas, voltando pra realidade e considerando a hipótese de que o portal de luz nao foi aberto e de que eu nao conseguiria passar do buona sera com meu italiano, que acabaria tentando em inglês e alemao, com resultados ainda mais desastrosos, que faria até mímicas para me fazer entender, pegando por fim meu passaporte e apontando o meu nome, o mais provável de acontecer, caso a pessoa nao fugisse com medo de mim antes de entender, seria o seguinte.

Pessoa abordada: Ah, sim, seu sobrenome é Viterbo. Meus parabéns.

Fim do diálogo.

Portanto, considerando que ninguém precisa enfiar o dedo na tomada pra saber que dá choque e que focinho de porco nao é tomada, me recuso a enfiar o dedo em qualquer nariz de porco pra ter certeza da meleca que seria caso eu tentasse.

Fim do post.





Carol em Viterbo

8 10 2009
Vista do palácio do Papa

Vista do palácio do Papa

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Quando avistei os portoes da cidade de Viterbo, percebi que já tinha valido a pena ir até lá. Andar pelas ruas da cidade já davam a sensacao de estar em uma espécie de sonho. Talvez por eu realmente estar realizando um sonho, ou talvez por as casas tao antigas transmitirem uma sensacao de viver uma cena de filme. Medieval. Dava pra imaginar os cavaleiros e damas e clérigos andando pelas pracas da cidade. Ou os feirantes que certamente existiam em algumas ruas estreitas. A cidade parecia ainda carregar sua história e sua magia em cada uma das pedras que compunham suas calcadas e casas. E cada passo parecia me transportar a um mundo diferente, em que eu podia ser o que eu quisesse, vivenciar o que eu sonhasse. Era isso ou o sol estava realmente muito forte.

Àquela hora, a cidade parecia nao ser habitada por mais ninguém além das damas e cavaleiros da minha imaginacao. Todas as portas fechadas, nao se ouvia nada nem ninguém nas ruas, cujos contornos pareciam se dissolver na tarde. Igrejas fechadas, portoes trancados e as sorveterias que eu jurava ver pelo caminho e desapareciam quando eu olhava mais atentamente, nao podiam ser nada além de miragens. Os italianos, que conhecem o próprio sol, faziam exatamente o contrário dos turistas insensatos que resolviam viajar nas horas mais impróprias. As lojas traziam afixado na porta o horário de atendimento: 8:00-12:00/16:00-20:00. E esse é um horário que os italianos realmente respeitam. A cidade dormia sob o ar tépido da tarde. Nenhum mosquito ou banca de jornal se arriscava a permanecer acordado. O único ser vivo que se aventurava pelas ruas de Viterbo era a turista de mesmo nome, em sua busca incessante por estátuas e cartoes postais. E à medida que eu andava, que o sol andava, que o tempo andava, foi-se notando aqui e ali um movimento, até que as casas se espreguicaram, as portas se levantaram e em um bocejo toda a cidade se abriu, como se o sol acabasse de nascer.

Nao tinha tanto tempo na cidade… Nao daria de qualquer forma para descobrir meus antepassados. Mas era de certo modo divertido imaginar onde que eles teriam vivido – se é que realmente viveram lá. E comecei a procurar nos nomes de estátuas e retratos alguma referência ao sobrenome Viterbo. Porque claro que se é parente meu, tem que ser famoso. No mínimo tem que ter uma estátua na praca da cidade. Acabei descobrindo que todas as referências a Viterbo – que nao eram tao difícieis assim de se encontrar, uma vez a cidade tem esse nome – pertenciam a santos e clérigos. Porém, considerando que eram santos e clérigos, acho pouco provável que tenham tido descendentes, a menos que nao fossem tao santos assim. Mas mesmo com essa hipótese, acho que dificilmente os supostos filhos bastardos conservariam os supostos sobrenomes, ainda mais se supostamente morassem em Viterbo. Acho que eu podia entao parar de procurar nas igrejas. E encontrei em uma praca a única estátua fora das igrejas com uma que se assemelhava a um sobrenome: A Mazzini Viterbo ou qualquer coisa assim. Mas a probabilidade de esse nome ser meramente uma referência à cidade era tao grande que resolvi pesquisar no Google antes de ficar empolgada e contar pra vocês. E se o Google nao conhece ninguém com esse nome, é porque nao existe mesmo.

Seguindo a recomendacao da Quel, fui ao museu da cidade e lá descobri que o nome da cidade vem de Vetus Urbs, que significa Cidade Antiga. O que leva a pensar que, se quando foi batizada a cidade já era velha, a possibilidade de encontrar meus antepassados era ainda mais remota. E fiquei feliz pela mudanca de nome. Chamar Carol da Cidade Velha nao seria lá tao interessante. Mas sinceramente a cidade é muito mais do que um campo de pesquisas genealógicas. E acho que foi muito mais interessante passear por ela sem me preocupar tanto com o fato de ela ter o mesmo nome que eu. E aproveitando o fato de que o sorvete em Viterbo era incomparavelmente mais barato do que em Roma, pude apreciar as paisagens da cidade, todos os prédios históricos, todas as ruas que nos trazem a sensacao de estar viajando no tempo. Por alguns momentos eu nao era mais apenas uma turista curiosa com a origem do nome. Eu era o meu próprio nome e tinha encontrado nao a minha origem, mas a mim mesma.

Mas isso já está filosófico demais. O fato é que eu fiquei feliz de ter perdido o penúltimo trem que saía da cidade e de poder desfrutar mais algum tempo, ainda que fossem duas horas, dessa atmosfera um tanto quanto mágica. Fiquei apenas um pouco triste por nao ter ido às fontes termais, pelas quais a cidade é conhecida. Mas ainda há tempo pra isso. Nao acredito que essa tenha sido minha única visita à cidade. Afinal de contas, ao contrário de tudo que possa ser dito, um dia é decididamente muito pouco para conhecer uma cidade que se chama Viterbo.

Continua…





Revirando lixo

22 08 2009

Hoje eu fui fazer uma das coisas que eu menos gosto das minhas tarefas diárias – colocar o lixo pra fora. O lado bom de pôr o lixo pra fora na Alemanha é que aqui é tudo separadinho. Papéis e papeloes numa lata, restos orgânicos em outra, plásticos e embalagens em geral num saco, vidros no porao e todas os outros elementos que nao se encaixam nas categorias acima em outra lata. Tipicamente alemao. A minha família, apesar de ser alema, de vez em quando dá umas escorregadas e esquece que sacola de plástico nao é resto orgânico, que existe um “lixo” específico pra roupas e sapatos usados e que muitas coisas às vezes novas que eles jogam fora podem ter utilidade pra outras pessoas, como a pobre au-pair que mora na casa deles. Eu nao resisto quando vejo um objeto praticamente novo, que muitas vezes eu estava justamente precisando, abandonado no meio de embalagens e frascos plásticos. Eu preciso salvá-lo. E eu sei que nesse momento minha família se contorce de desgosto por descobrir que ao contrário do que eles pensavam, a Carolzinha nao foi pra Alemanha estudar, mas pra revirar latas de lixo. E acho que a imagem que todo mundo forma quando quem passou um tempo no exterior conta das coisas que achava no lixo nao é lá das melhores. Lembro de quando o Genim escrevia seus relatos da vida nos EUA e eu, ainda no Brasil, nao conseguia imaginar outra coisa diferente do que no Brasil a gente chama de lixo. E nao era muito agradável imaginá-lo encontrando seus tesouros – entre TVs e colchoes – em um ambiente tao… inóspito. Nao sei exatamente como é a situacao do lixo nos EUA, mas imagino que eles também reciclem e que uma lata delixo lá seja bem diferente das que a gente encontra no Brasil – quer dizer, ainda existe lata? Entao quando eu digo que achei algo no lixo, vocês nao precisam me imaginar revirando batatas e salsichas podres. Minha família erra a pontaria de vez em quando, mas as coisas mais interessantes que eles jogam fora costumam estar rodeadas apenas de papéis ou plásticos limpinhos. E entre os objetos desamparados que já encontrei estao bolsas, pochetes, porta-documentos de viagem, chaves, maquiagem, brinquedos, livros, agenda, cadernos, sapatos, roupas, copos, caixas de bombom fechadas, tudo em perfeitas condicoes de uso e sem nenhum motivo aparente pra serem jogados fora. Eu nao resisto. Como boa brasileira (e acredito que isso seja uma característica brasileira, mas me corrijam, caso vocês me achem louca) eu resgato tudo o que possa ser útil, mesmo que nao seja útil pra mim. Lembro depois da Páscoa, quando eles jogaram fora quase todo o chocolate que as criancas tinham ganhado, dizendo que a marca nao era boa, além de várias caixas de bombom e sacos de bala, no que parecia ser uma arrumacao do estoque de doces da casa. Eu nao sou exatamente fa de chocolate e no Brasil sigo fielmente a tradicao de manter meus ovos de páscoa até uns 6 meses depois de ter ganhado. Se eu como? Na verdade nao. Eles sobrevivem até que um dia enquanto arrumo meu quarto eu os encontre e acabe dando (os chocolates) pro meu irmao, que nao se importa muito de eles terem meio ano de idade. Antes que eles comecem a engatinhar pelo meu quarto. Apesar disso e consciente da minha condicao, acabei adotando mais de um quilo de chocolates órfaos cruelmente abandonados no lixo. Acabei cuidando deles tao bem que até hoje têm um lar aquecido, no armário da minha cozinha (para os leitores desavisados, o quarto em que moro é equipado com cozinha, além de um banheiro e varanda (sim, eu estou bem de vida)) e contavam até pouco tempo com a companhia de dois ovos de verdade, pintados, que foram presente de Páscoa junto com outros chocolates. Mas fui obrigada a me desfazer dos dois ovinhos, que depois de alguns meses nao estavam exatamente com o melhor cheiro do mundo. Eles nao virariam pintinhos de qualquer forma. Os chocolates ainda estao lá, assim como os brinquedos e roupas e sapatos que eu resgatei da condenacao eterna. É claro que eu nao penso em levar tudo de volta pro Brasil. As minhas no mínimo 3 malas gigantes já estarao cheias o bastante para abrigar restos de lixo. Talvez eu doe as coisas pra alguma instituicao ou monte um mercado de pulgas e venda cada peca por 1 €. Mas acho que o mais provável é que todas elas acabem aonde foram encontradas, a menos que meu irmao venha me visitar, no caso dos chocolates. E respondendo à pergunta que nao quer calar, nao, os chocolates que eu mandei pra vocês nao foram encontrados no lixo.

Um outro tipo de lixo que eles tem aqui e que pelo jeito é recolhido uma ou duas vezes por ano é o que eles chamam de algo como “lixo grande” e sao os móveis, eletrodomésticos, e toda a sorte de bugigangas que habita a garagem dos alemaes sem qualquer outra finalidade além de ocupar o espaco em que deveria estar o carro deles, que normalmente fica na rua. No dia que esse lixo vai ser recolhido, as pessoas à noite colocam as coisas pra fora de casa e no dia seguinte passa um caminhao – ou vários caminhoes, considerando a quantidade – recolhendo tudo. Eu nao sabia disso. Fiquei sabendo no dia em que estava voltando da festa de despedida da Mayara, uns meses atrás. Depois de uns 20 minutos pedalando, em uma hora em que todos os alemaes sensatos deveriam estar dormindo, alguns ainda se aventuravam pra fora de casa, aparentemente entretidos em empilhar o maior número de móveis velhos na porta da rua. Pensei que podia ser alguma gincana ou qualquer tradicao bizarra que de vez em quando eles inventam. E perguntei pra um dos mocinhos que enfilerava algumas cadeiras. E ele me explicou o que eu contei pra vocês. O que eu fiz? Fui pra casa tranquilamente, tomei um banho, vesti uma roupa confortável, peguei apenas minha chave e saí, às 2 da madrugada catar lixo na rua. Até os alemaes mais insensatos já estavam dormindo nessa hora e eu nao precisava ficar com vergonha de eles me virem mexendo no lixo deles. Alguns outros alemaes, muito mais sensatos estavam ainda acordados com carros e vans na rua carregando o que podiam. Eu faria isso, se pudesse. Mas nao dava pra carregar muita coisa. Acabei pegando uma mesinha que uso como mesa de cabeceira, duas almofadas, uma cesta e umas outras coisinhas, que nao me lembro mais. Mas teria levado uma escrivaninha e um sofá antigo lindo lindo que encontrei… Fiquei pensando se nao valeria a pena pegar algumas dessas coisas e mandar de navio pro Brasil, junto com as malas extras que vou precisar pagar. Quem sabe na próxima?

Mas hoje, quando eu coloquei o lixo pra fora nao encontrei nenhum tesouro escondido além de duas lesmas gigantes e provavelmente psicopatas que resolveram morar na tampa da lata de lixo, tornando minha tarefa muito mais asquerosa. Fechei a tampa, enojada, e me virei, pra voltar pra casa. E minha surpresa ao me virar foi muito melhor que qualquer lesma ou qualquer chocolate. às sete e meia da noite o sol nao estava ainda se pondo, mas com uma luz mais tênue, assim, de quase entardecer. E pairando no horizonte, acima de qualquer reflexao banal sobre o lixo na Alemanha, cerca de quinze baloes de ar quente, desses que transportam pessoas, nao os de festa. Nunca tinha visto tantos baloes desses ao mesmo tempo. Fiquei pensando porque é que tinha tantos naquela hora, mas nao faco idéia. Só sei que foi uma cena tao bonita que até apagou na hora a lembranca das lesmas na lata de lixo. E é engracado como que as fotos nunca conseguem capturar a real beleza desses momentos. E é por isso que nao vou postar aqui a foto que tirei. E na imaginacao de vocês a cena vai ser muito mais bonita do que se vocês a vissem. Deixe que cada um faca sua própria viagem. E da minha viagem também nao falo muito. O primeiro pouso é em Roma, na próxima quinta-feira. Mas nao vou contar muito a sequência pra nao criar expectativas e decepcoes caso eu altere meus planos. O que é bastante provável, uma vez que nao tem nada muito definido. Mas quando eu voltar, aguardem sim, muitas fotos.





Aventura de férias

10 06 2009

Uma das minhas ilusoes de au-pair era a imagem da au-pair totalmente integrada à família, participando das suas atividades de lazer, sendo tratada realmente como uma irma mais velha e logicamente, viajando junto com a família. Sempre achei que na casa da Erika isso nao acontecia porque afinal de contas era a Erika. Mas nao é bem assim. É lógico que nao tem comparacao as duas famílias e que aqui eu me sinto incomparavelmente melhor do que na casa dela. Mas nada é perfeito. E tenho que admitir que foi uma decepcao muito grande perceber que nao, eu nao seria convidada todas as vezes que eles saíam, pior: eu raramente seria convidada e era bem provável que eu teria que ficar em casa cuidando das criancas, ou do bebê ou do cachorro. Mas pode ser até pior, porque às vezes eles levam o cachorro, que na verdade é ela. E eu fico. Nao pretendo escrever um post depressivo, nem ficar me lamentando, mas eu nao consigo evitar as comparacoes inevitáveis que surgem quando a cachorra é convidada e eles nem falam pra onde estao indo. Nao falam pra mim. Ela provavelmente sabe. E eu me pergunto quem faz mais parte dessa família, se eu ou ela e a resposta é óbvia e clara, mas nem por isso muito digerível.

E foi assim que nas últimas férias, que aqui sao no meio de maio, eles foram viajar e me deixaram aqui e nem o cachorro me fez companhia. Passaram um fim de semana na casa de um tio na floresta negra (nao, isso nao é só o nome de uma sobremesa…), e eu acho que nao custaria nada ter me levado também, já que nao teriam gastos extras com hospedagem ou transporte. Mas nao levaram. Depois foram pra Áustria e ficaram uma semana lá, deixando pra mim uma listinha com tarefas a serem feitas, entre elas, claro, passear com a cachorra, que dessa vez também nao foi convidada. Fico pensando às vezes que se toda vez que eles chegassem eu fosse correndo até eles, pulasse e latisse, eles talvez me chamassem pra próxima viagem. Mas acho que o mais provável seria eu acabar no hospício ou pior, no vôo mais próximo, o que me leva a procurar outras opcoes. E minhas opcoes eram simplesmente tentar me divertir – de preferência nao fazendo compras – enquanto eles estavam fora. Tentei encontrar com a Mayara e depois de alguns desencontros e muitos tomates acabou dando certo (e eu falo mais disso depois, ela merece um post exclusivo). Queria ter ido pra Mannheim com ela, que é a maior cidade aqui das redondezas e pra onde a gente nao tinha ido juntas ainda. Que bom – pensa o leitor – ela já está comecando a pensar em outras coisas além de fazer compras!! Que evolucao! Mal sabe o ingênuo leitor que uma das principais atracoes de Mannheim nao sao os parques e monumentos históricos, mas o centro de compras. E que essa cidade é muito barata em comparacao com Heidelberg, que é uma das mais caras da Alemanha (e ainda assim eu consigo boas ofertas! Eu sou boa mesmo nisso…)

Enfim, mesmo nao tendo ido pra Mannheim com ela, nao me saiu da cabeca a idéia de ir pra lá. A última vez que eu tinha ido pra lá foi quando eu comprei meu notebook (além de umas outras bagatelas que acabaram saindo o mesmo preco dele) e exageros à parte e depois de receber o salário seguinte, já estava com saudade de passear por outras lojas que nao as que os meus pés já decoraram o caminho em Heidelberg. Só que apesar de ter me tornado uma consumista compulsiva, nao abandonei minha característica primeira de mao de vaca. E o fato é que a passagem pra Mannheim custa nada menos que 9 dinheuros, o que daria pra comprar duas bolsas, duas blusas ou um casaco, dependendo do que estivesse em promocao. E eu na verdade nunca uso o transporte público daqui, porque tenho uma bicicleta e apesar de todos os seus defeitos, de já ter me jogado no chao no mínimo três vezes, o que decididamente nao foi culpa (apenas) da inabilidade da ciclista, e de, em consequencia do último tombo, eu ainda nao poder movimentar tao bem o meu braco sem que isso me cause uma dor tao forte que eu até esqueca porque é que eu o estava movimentando (e dessa vez sem exageros), apesar de tudo isso ela me serve muito bem. E daí eu tive a brilhante idéia de juntar o útil e nem tao agradável assim ao agradável e muito útil. Ou seja: ir pra Mannheim fazer compras de bicicleta. Essa seria uma forma também de me redimir comigo mesma, por ter saído só pra fazer compras. Afinal, os 22 km pra ir e pra voltar seriam só em si um passeio e tanto. Eu estava com essa idéia desde que a ida pra lá com a Mayara nao deu certo (e isso foi no dia 23 de maio, sábado, pra situar vocês nas datas). Planejei entao que no próximo sábado, dia 30, pra comemorar meu segundo aniversário de namoro em grande estilo, eu faria esse passeio. Nao contava com o fato de que na quinta feira eu levaria o pior tombo de bicicleta da minha vida, chegando a precisar de ajuda pra levantar e sem forca suficiente no braco nem pra segurar o guidao, totalmente molhada e suja porque estava chovendo e eu fui escolher logo em cima duma poca d’água pra cair, tendo que empurrar a bicicleta ladeira acima até em casa e dando gracas a deus pelo fato do meu gastvater ser ortopedista e, como eu descobri logo depois, especialista em ombros e sabendo que mesmo se ele nao fosse suficiente pra resolver meu problema, minha Gastmutter era fisioterapeuta… Mas eu nao precisei dos servicos dela. Sobrevivi à base de Voltaren e compressas de gelo e em um ou dois dias meu braco já estava melhor (embora eu ainda amaldicoasse até a quinta geracao dos gasts quando tentava lavar as janelas – uma das tarefas da listinha – naquelas condicoes). Qualquer pessoa sensata nesse estado sabe que o melhor a fazer é ficar bastante tempo em repouso, nao fazer muito esforco, seguir rigorosamente as prescricoes médicas com compressas de gelo e três voltarens por dia. Mas – e nesse caso certamente até a Erika concordaria comigo – eu nao sou lá muito sensata. E mal consegui fazer o movimento de levantar o braco e segurar o guidao e upa-le-le! Lá vai a Carol de bicicleta pra Mannheim.

Claro que todo mundo sabe que antes de partir numa aventura dessas é necessário olhar no mapa, ver o melhor caminho a ser feito, levar comida, água e cartao de crédito. Ou seja, planejar o mínimo necessário, o que normalmente eu faco até demais. E talvez tenha sido o efeito do voltaren ou a lua ou a felicidade pelos dois anos de namoro completos ou a ânsia de fazer compras, mas dessa vez nao. Cheguei a olhar rapidinho no googlemaps e vi que se eu pegasse a rua tal e seguisse ela direto, um dia eu chegava em Mannheim. E tendo um senso de direcao perfeito como o meu, quem precisava de mapas? Afinal, era só seguir as placas e mais cedo ou mais tarde eu chegava lá. E lá fui eu seguindo as placas, admirando a paisagem, cantarolando enquanto pedalava pelos campos floridos. Nem me preocupei quando saí da rua que eu tinha planejado seguir. Lá ainda tinha uma placa indicando Mannheim e era só continuar nessa direcao. E foi seguindo essas placas que eu conheci o que os alemaes chamam de auto-bahn ou auto-pista ou rodovia com limite de velocidade bem acima dos padroes brasileiros. Talvez eu deveria ter pensado, ao me deparar com a tal pista: ok, caminho errado, meia volta volver e eu ainda acho hoje a ciclovia pra Mannheim. Mas minha reacao foi bem diferente… Caramba, eu to na autobahn! Doidimais, vambora. E lá fui eu na minha humilde bicicleta cor de rosa apostar corrida com os carros a 150 por hora. Eu estava seguindo por uma espécie de acostamento, entao nao tinha problema, né? Tava na direcao certa… Só achava desagradável todo carro passar buzinando do meu lado. Fora isso era até legal. E estava assim tranquila pedalando quando ouvi uma outra buzina, mas dessa vez bem mas perto. Tinha um carro atrás de mim no acostamento buzinando igual louco. Será que ele queria acostar? Continuei em frente pra que ele tivesse espaco suficiente, mas ele nao parava com a buzina. Entao parei, pronta pra xingar o engracadinho. E tive que engolir em seco quando virei pra trás.

Era a polícia.  E o bom é que eu nem precisei dar uma de boba nem nada. Na ocasiao eu realmente era a boba. Ou louca, de ter pedalado na autobahn, correndo risco de nunca mais poder fazer compras… Voce nao sabe que é proibido nao?? Pois é, é proibido. Por isso que os carros passavam buzinando, claro! Pra me avisar. E eu achando que estava finalmente despertando o interesse dos alemaes… Os policiais foram gentis comigo, me ensinaram sobre as placas de trânsito e eu descobri que as ruas normais têm placas amarelas e pode-se andar de bicicleta, mas a autobahn tem placas azuis e só carros têm a permissao pra dirigir nela. Ou seja se você estiver de carro, pode correr. Se estiver a pé ou de bicicleta, saia correndo na direcao oposta. Acabou que eu ganhei uma carona até Mannheim. E nao pra prisao. Somente uma advertência que eles disseram que mandariam pro meu endereco e que ate hoje nao chegou. Mas nao, nao vou precisar pagar nada nem vou ser deportada por causa disso.

Descobri em Mannheim que eu tinha realmente escolhido o dia certo pra ir pra lá. Tinha festa na cidade, com várias barraquinhas de comidas, música ao vivo, bem legal. E as lojas que nao podiam faltar estavam lá, todas abertas, esperando ansiosas por mim. Mas pra mostrar pra vocês como eu nao sou movida só a promocoes, participei um pouquinho da festa sim. Ouvi algumas músicas, fiz um lanche e o meu ombro nem tava doendo tanto assim mais. E na hora de voltar pra casa, tomei o cuidado de nao cruzar com nenhuma plaquinha azul e fui seguindo o rio Neckar, que liga as duas cidades, passando pelos campos. E nem liguei de ter caído de novo bem em cima de uma poca de lama (poxa, mas essa menina dá sorte mesmo). Cheguei um pouquinho suja em casa, mas nada que um banho e uma cuidadosa limpeza das minhas sapatilhas outrora brancas nao resolva. E um bom descanso, depois de mais de 45 km e cerca de 4 horas pedalando.