Mudando de casa

24 02 2010
Depois de mais de um ano, resolvi que minha temporada neste blog deveria chegar ao fim. Foram muitas as emoções aqui vividas. Todas as batatas, cuidadosamente preparadas e saboreadas deram um tempero especial à minha estadia na Alemanha e coloriram minha história, às vezes trágica, de uma forma que eu jamais conseguiria com nenhum outro tubérculo. Vocês acompanharam cada aventura por essas terras geladas, foram companheiros e amigos e o mais importante, foram leitores. Foi para vocês que escrevi cada um desses posts. Todas as minhas vivências metamorfoseadas em linhas, ainda que tortuosas, foram escritas para que os seus olhos se fixassem nelas. Vocês, conhecidos e desconhecidos, estiveram comigo em cada dia que eu vivi na terra da batata. Em todos os meus dissabores e alegrias vocês estavam lá presentes, me dando forças para seguir em frente, me fazendo desejar ardentemente aqueles momentos em que eu me sentava à frente do computador e copulava com o teclado, produzindo tão saborosos frutos. Mas agora eu já não estou na terra da batata. O último post foi a última aventura vivida antes de chegar ao Brasil. E já não tem mais sentido continuar na Terra da Batata quando na verdade eu estou na Terra do Café. Não tem mais sentido o nome carolindeutschland quando a Carol não está mais in Deutschland. E me pergunto se faz realmente sentido continuar tendo um blog se eu posso contar as histórias pessoalmente…

E a única respota plausível a que cheguei, provavelmente a decisão mais sensata que já tomei nos últimos meses e a única alternativa possível diante das circunstâncias foi a certeza de que a mudança de país não fez com que eu mudasse de idéia sobre coisas que já são parte da minha personalidade. Mudar de país não fez com que eu deixasse de gostar de algo que já se tornou uma paixão maior do que qualquer paixão que eu já tenha experimentado, capaz de até modificá-las e exaltá-las e destruí-las em uma palavra. Por outro lado, comecei a questionar os instrumentos que usava para fazê-lo. Tudo tão limitado e restrito que eu me sentia cárcere do meu próprio mundo. Eu não queria só mudar de país, eu queria um lugar só meu, onde eu pudesse receber os amigos, conhecidos, desconhecidos e até inimigos, sem distinção de classe e cor. Eu queria poder colocar móveis e arrastar cadeiras e pintar as paredes e encher de almofadas da cor que eu quisesse. E que fosse tão confortável e bonito pra mim quanto para qualquer um que lá entrasse. Não queria jogar nada fora. Queria um lugar que transbordasse lembranças e sentimentos. Queria guardar todas as lembranças e  as cartas e bilhetes e fotos e mostrá-las para quem chegasse. E que pudéssemos viver juntos muito mais aventuras do que já vivemos e relembrar as histórias antigas entre lágrimas incontíveis e risos incontroláveis. Queria ter a casa cheia de todos que quisessem entrar, vivendo-a, junto comigo, ajudando a construi-la. Queria que todos estivessem lá e fizessem parte da minha vida, da minha história. E espero, sinceramente, que você também faça.

E é por isso que, com todo o orgulho de uma mãe que depois de nove meses carrega o filho em seu braços, que eu – embora não tenha esperado tanto tempo – te convido a conhecer a minha mais nova casa:

http://caroldeviterbo.blogspot.com

Entre sem bater na porta.
Se aprochegue e fique juntinho.
Mas trate com carinho.
Fui eu que fiz.

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Nas nuvens

27 11 2009

Hoje pousou uma nuvem na minha cidade. E eu morei por um dia dentro de uma nuvem. Tudo muda, de repente. O ar fica mais frio, mais denso, mais embaçado. A cidade toda se modifica. Os olhares mudam. Para mim, que moro no alto da cidade, é ainda mais intenso. E pra ver isso de perto (ou de longe) fui ainda mais alto, na floresta que fica perto da minha casa. Normalmente, de lá dá pra ver a cidade inteira com suas casas, ruas e rio. Mas hoje não. Hoje o máximo que eu podia era ouvir o barulho dos carros passando lá embaixo. Não tinha mais casa, não tinha mais rio nem ruas. Só o ruído contínuo de uma cidade que ainda vive. Estava sozinha. De quando em quando, parecia se aproximar alguém, um ser, um vulto. Mas eles evaporavam antes de chegarem perto o suficiente. Nesse dia tudo era possível. Os contornos se misturavam, se diluíam na branquidão. O mundo só existia num raio de 10 metros. Em torno de mim, apenas árvores e uma imensidão de neblina, que me fazia perder-me em mim mesma. Estava frio. A minha respiração não estava apenas visível: todo o ar era a minha respiração. Eu respirava e via nitidamente todo o ar à minha volta se movendo, como se o simples movimento dos meus pulmões tivesse o poder de fazer ventar.  E eu caminhava mais e mais para dentro. Não conseguia ver o que vinha a seguir. Não podia ver o que se passou. Eu só existia ali, naquele lugar, naquele presente. Embaçado como um sonho do qual tentamos nos lembrar. Ou em que tentamos existir. Nada parecia ser real. Nada parecia ser concreto. E eu virei de repente personagem de um filme. Ou de um livro. Ou de um blog. Em um mundo quase só meu, feito de neblina e sonhos. Não havia medo. Não havia nada além do que eu queria. Ou enxergava. E tudo o que existia eram as árvores, suas folhas alaranjadas, o chão repleto de folhas. Uma melodia doce e distante, vindo de algum ponto incerto da minha imaginação. Uma folha de papel e uma caneta. E neblina suficiente para embaçar até os textos mais concretos. Ou os mais abstratos.

Hoje eu morei num mundo feito de nuvem e sons. E gostei.





Volta às aulas

22 10 2009

Sei que vocês estão querendo saber mais da minha viagem, que não chegou nem na metade ainda. E sinto informar que eu não vou conseguir atualizar os posts antes de viajar de novo. O que acontecerá dentro de algumas horas. Mas vou deixar sendo surpresa também. E antes que vocês comecem a pensar que vida de au-pair é só viajar, vamos para um tema mais concreto. As viagens? Sim, sim, prometo contar depois.

As férias acabaram. Depois de quatro meses na mesma rotina acordar tarde – trabalhar – ficar até tarde no computador – acordar tarde, resolvi viver para algo mais além de criancas e cama. E comecei a preencher meu tempo livre com toda a sorte de aulas que eu conseguisse freqüentar. Nao só de alemao, mas algumas mais ousadas como didática, psicologia e até inglês (que eu realmente preciso). E no comeco da semana, tendo acordado espantosamente às 7:30, sem direito à qualquer efeito soneca, fui pra minha primeira aula. Retórica da Fala ou qualquer coisa assim. Coisa de Letras. Chegando lá, o que mais me espantou na sala de aula foi que:

1- Eu era a única mulher;

2- Eu era a única estrangeira;

3- Eu era a única da área de Letras.

Num curso em que o perfil dos interessado deveria obrigatoriamente cumprir um dos requisitos acima, é no mínimo surpreendente que apenas uma pessoa se encaixasse em todos eles. Os outros quatro alunos se dividiam entre as áreas de sociologia, egiptologia, matemática e física. O que físicos e egiptólogos procuram num curso desses é realmente uma boa pergunta. Se fosse no Brasil, eu diria que o povo da exatas queria só melhorar a nota, freqüentando um curso em que nota abaixo de 80 já é considerada ruim. Mas na Alemanha nao é o caso. Perguntando pros da Exatas no intervalo, o por quê do interesse no curso:

– Sabe como é… Esse povo que faz Física fica o dia inteiro em casa no computador e acaba esquecendo como se fala. Daí a gente resolveu que tinha que fazer alguma coisa antes de comecar a grunhir coisas sem sentido pelos corredores. E as mulheres já aprenderam a falar direito, vocês nao precisam de curso.

Eu, que estava lá mais por motivos cronológicos do que qualquer outra coisa – esquema pegue-qualquer-matéria-da-área-que-encaixe-no-seu-horário e que nao consegui inventar nenhum motivo mais bonito para frequentar aquela matéria, como os outros fizeram quando perguntados, também nao consegui muitos resultados com a escolha de um tema. Explico: A aula consiste basicamente em uma conversa em grupo, com todos os alunos, cuidadosamente observada pela professora. Depois da discussao, fazemos uma outra discussao, dessa vez sobre a própria discussao, analisando como ela transcorreu. Mas para discutir tanto, precisamos de um tema. E por isso cada aluno deveria pensar em um tema que seria discutido nao próxima aula. Ela comecou no outro lado da sala, entao eu seria a última a falar. E fui observando os temas que surgiam: Percepcao seletiva em diferentes mídias, A influência de novas tecnologias no desempenho escolar, A reacao do público em relacao ao prêmio Nobel para Obama… e por aí vai. Enquanto isso, o único tema concreto que martelava na minha cabeca era primeiro encontro. E fui ficando cada vez mais tímida para falar meu tema, depois dos títulos que surgiram. E chegando minha vez, até tentei ensaiar qualquer coisa no sentido de propaganda, influência de propagandas ou algo assim, mas nao ia prestar. E falei:

– Como os casais se comportam no primeiro encontro.

A professora disse que era um bom tema. Mas eu nao imaginava como seria na votacao. Cada um deveria votar em 3 temas . E enquanto os outros tinham dois, tres votos no máximo, quando chegou a vez do meu, olhei pro lado e vi todas as maos para cima. E o meu tema, por mais simplório que possa parecer foi o escolhido.

Parece que apesar da pose toda, de todos os temas pomposos e rebuscados, os alemaes também querem saber é desses assuntos de mulher…





Carol em Viterbo – Adendo

9 10 2009

Brasao da cidade

Brasao da cidade

Leia também Carol em Viterbo

As minhas buscas genealógicas nao foram muito além das pesquisas nas pracas e museus. Alguns parentes vao perguntar se eu nao perguntei a nenhum nativo sobre o sobrenome… E antes que os leitores mais sensatos também perguntem, vamos esclarecer alguns pontos:

1 – Eu nao falo italiano além do suficiente pra comprar sorvete, embora ainda tropecando em nomes como Straciatella.

2 – Eu nao falo inglês sem que a cada dez palavras doze saiam em alemao.

3 – Os italianos nao falam inglês e mesmo que falem, nao falam alemao para entender a língua híbrida que surge quando eu tento falar.

4 – Eu nao aprendi línguagem de sinais suficiente para me comunicar sem que me achem louca.

Só nesses quatro itens podemos perceber sérios problemas de comunicacao. E se tais problemas se manifestam na simples compra de um sorvete, imagine em assuntos mais complexos como pesquisar a genealogia da minha família? E o que eu deveria perguntar? Se a pessoa conhece alguém que supostamente morava em Viterbo e que há dezenas, talvez centenas de anos se mudou ganhando o nome da cidade como sobrenome e acabou se procriando no Brasil, gerando entre vários descendentes uma menina curiosa que estava agora fazendo perguntas sem cabimento sobre sua ascendência? E mesmo que eu conseguisse expressar isso em alguma língua que a pessoa entendesse, o que vocês acham que ela iria responder? Que conhece? Outra coisa, pra quem eu deveria perguntar isso? Um assunto de tamanha importância deveria ser tratado no mínimo com o prefeito, que certamente tem o registro de cada pessoa que um dia morou na cidade, para onde se mudou, qual o sobrenome adquirido e todos os descendentes por ela fabricados, com os respectivos dados dos descendentes até a minha geracao. Claro. Mas como o prefeito devia estar ocupado demais com a festa da cidade que ocorreria em dois dias e todos os preparativos e pré-preparativos que isso implica, talvez nao fosse uma idéia tao boa. Entao, deveria abordar alguém na rua? Se o prefeito tem um livro com o registro genealógico de todos os habitantes da cidade, é claro que todos os cidadaos de Viterbo têm a obrigacao moral de sabê-lo de cor. Entao nao custa tentar…

Carol: Oi! [longa pausa para se lembrar como se diz boa tarde em italiano]Buona sera!

[Considerando a hipótese de que a pessoa abordada ache que vale a pena falar com alguém que diz boa noite quando o sol ainda está tao forte que a pessoa tem vontade de voltar para a sesta]

Pessoa abordada: Oi.

[Considerando a hipótese de que eu decorei o manual de conversacao de italiano nos segundos entre o Buona sera e o oi da pessoa abordada]

Carol: Eu me chamo Carol de Viterbo

Pessoa abordada: Valentina Rossi. Muito prazer.

Fim do diálogo.

[Considerando agora a hipótese de que a pessoa abordada considere no mínimo curioso o fato de o meu sobrenome ser o mesmo nome da cidade que ela mora]

Pessoa abordada: Seu sobrenome é Viterbo? Que interessante! Você sabe porque?

Carol: Nao.

Fim do diálogo

[Considerando agora a hipótese de que eu falo italiano fluentemente]

Carol: Boa tarde! Eu estou fazendo uma viagem em busca dos meus ancestrais e gostaria de saber mais sobre a origem do sobrenome Viterbo, que por acaso é o meu sobrenome. Eu tenho a teoria de que esse sobrenome pode ter tido origem quando um morador de Viterbo se mudou da cidade e passou por isso a ser conhecido pelo sobrenome “de Viterbo”. Isso pode ter acontecido há algumas dezenas, talvez centenas de anos. Você sabe de alguma família que se mudou da cidade nessa época e provavelmente depois para o Brasil, onde teve vários descendentes, entre eles eu?

Pessoa abordada: Nao.

Fim do diálogo.

[Considerando a hipótese de que a cidade de Viterbo é realmente mágica e que se abra um portal de luz no momento em que eu piso na cidade, fazendo com que todas as minhas vontades se realizem]

Pessoa abordada: Você se chama Viterbo? Mas era exatamente quem eu estava procurando! Eu sou pesquisador e passo o meu tempo livre tracando a árvore genealógica das famílias mais antigas da cidade e acabei descobrindo um antigo morador que se mudou daqui há muito muito tempo e passou a ser conhecido pelo sobrenome de Viterbo. Ele se mudou para a cidade de Sabará, no Brasil, na época da corrida do ouro em Minas Gerais e conseguiu uma boa fortuna, além de muitos filhos. Anos mais tarde ele largou a família, pegou todo o ouro que tinha conseguido e voltou para Viterbo, o que fez com que a família no Brasil nunca mais mencionasse qualquer ascendência italiana, apesar do sobrenome que foi mantido. Em Viterbo ele construiu uma casa, mas nao gerou mais descendentes. No fim da vida, amargurado com sua solidao, ele escreveu um testamento deixando toda sua fortuna enterrada na casa para o primeiro descendente com esse sobrenome que visitasse a sua cidade. E eu passei toda a minha vida esperando que alguém com essa descricao aparecesse na cidade. Finalmente posso me livrar de todo o ouro que foi mantido sob minha responsabilidade! E nao é só isso! Por você ser descendente de um italiano em 53° geracao, recebe ainda o título de cidada italiana, além da chave da cidade!

Fim do sonho.

Mas, voltando pra realidade e considerando a hipótese de que o portal de luz nao foi aberto e de que eu nao conseguiria passar do buona sera com meu italiano, que acabaria tentando em inglês e alemao, com resultados ainda mais desastrosos, que faria até mímicas para me fazer entender, pegando por fim meu passaporte e apontando o meu nome, o mais provável de acontecer, caso a pessoa nao fugisse com medo de mim antes de entender, seria o seguinte.

Pessoa abordada: Ah, sim, seu sobrenome é Viterbo. Meus parabéns.

Fim do diálogo.

Portanto, considerando que ninguém precisa enfiar o dedo na tomada pra saber que dá choque e que focinho de porco nao é tomada, me recuso a enfiar o dedo em qualquer nariz de porco pra ter certeza da meleca que seria caso eu tentasse.

Fim do post.





Esperando o Papai Noel

26 08 2009

Escrevo em uma hora que já deveria estar dormindo. Costumo culpar a Internet quando fico acordada até tarde, mas dessa vez nao é a Internet. E estou na verdade em um daqueles raros momentos em que eu precisei procurar pelos meus óculos, já que meu ritual noturno que inclui escovar os dentes, pentear os cabelos e tirar a lente já tinha sido cumprido. Já me deitei, me cobri e fechei os olhinhos esperando aquele momento mágico em que a gente simplesmente perde o controle dos pensamentos e deixa a mente fluir num fluxo de imagens e sons que nao condizem exatamente com a realidade dos fatos. A temperatura do corpo se eleva, a respiracao se altera, se torna profunda e serena e todos os músculos relaxam, sucumbindo finalmente ao peso de ter trabalhado um dia inteiro. Mas esse momento nao chegou. E na verdade nao consegui ficar nem muito tempo no estágio em que os olhos estao fechados, mas comecei a repassar mentalmente tudo o que ainda deveria ser feito, o que deveria ser arrumado, comprado, embalado, escrito, agendado, transportado. E de repente abro os olhos apressada, por lembrar de alguma coisa que eu nao posso resolver agora, mas me levanto e acrescento com a letra espremida mais um item à lista que já nao cabe mais em uma só folha. Será que vou conseguir fazer tudo amanha? Nao é melhor tentar adiantar algo hoje? E a voz da consciência, muito maissensata que a dona dela diz que seria muito mais produtivo voltar pra cama agora. Mais produtivo. E volto a repassar todas as atividades a serem feitas mentalmente. E de repente me dou conta de que ainda tinha que ligar para a família, avisando. E ligo pra mae, namorado e até praquela tia distante, com quem eu nao falava há muito tempo. Uma hora mais tarde, o ritual se repete. Deitar de lado. Puxar a coberta até a altura do rosto sem tampar o rosto todo. Fechar os olhos. (…) Mas estranhamente a coberta que sempre foi tao aconchegante hoje está quente demais. E o colchao. Deve ter alguma coisa errada com esse colchao. Nova tentativa, mudando agora de lado. Puxar a coberta, fechar os olhos, pensar em alguma coisa que distraia a mente, sem deixá-la perceber que você está tentando dormir. Sim, esse foi um dia interessante. Ainda preciso escrever sobre isso. E subitamente me vem a consciência de estar escrevendo tao pouco.

– Você devia postar todo dia! – fala a tia distante. E na verdade eu gosto de escrever, só nao escrevo tanto porque acabo ocupando meu tempo livre com outras coisas. O que é bem diferente de dizer que nao tenho tempo e por isso mesmo muito pior. Se eu tivesse mais tempo, o resultado seria eu gastar muito mais tempo fazendo as coisas que eu já faco além de escrever e escreveria proporcionalmente o mesmo tanto.

Mas eu devia postar todo dia. E subitamente me vem a vontade de escrever um post por dia, no mínimo. De contar o que aconteceu, o que nao aconteceu e deveria ter acontecido . De discorrer sobre a infinidade de assuntos que a Alemanha oferece. De contar minhas aventuras de bicicleta, que nunca mais foram mencionadas. De falar dos filmes que vi e dos livros que estou lendo, mesmo que nao esteja lendo nenhum. De contar sobre os supermercados sobre o trânsito sobre a cidade sobre o título na terra da batata que até hoje nao foi tematizado. E falar das histórias passadas que já estao quase esquecidas. A Páscoa, todas as festas tradicionais que já vi por aqui. Falar das pessoas que conheci, de encontros engracados, do brasileiro na sorveteria, das aulas de tango, dos passeios com minha família, das brigas com minha família. Vocês nao sabem de nada disso. E eu na verdade já estou quase esquecendo tanta coisa que é preciso falar. Preciso pelo menos mencioná-las pra um dia ter a decência de compartilhar com vocês.

– Você devia postar todo dia.

Mas isso vai ter que esperar. Nao vou escrever tao cedo durante as próximas duas semanas, talvez três. E talvez por isso tenha deixado toda a lista de coisas a serem feitas de lado e escrito sobre um assunto tao metalingüístico, que nao vai colocar o assunto do blog em dia. E dentro de exatamente 24 horas vao comecar a jorrar assuntos a serem escritos. E eu preciso escrever na minha lista para lembrar de levar um caderninho de anotacoes, como todo escritor que se preze deve ter. E tentar nao fazer como eu fiz no evento da Basf, um resumao pra acontecimentos que dariam no mínimo quatro posts. Vou tentar, juro, um post pra cada cidade, no mínimo, ainda que demore um pouco mais pra ser atualizado… Mais uma coisa pra acrescentar na lista. O roteiro? Ainda nao está muito certo. Ou na verdade até está, mas nao quero contar antes. E nao devia nem ter falado pra família, que sempre parece parar de prestar atencao quando eu chego na metade. Talvez seja coisa demais. Talvez eles esperem que eu fale o nome de três cidades famosas e pronto. Mas duas semanas e meia pra conhecer a Europa é definitivamente muito pouco. E o fato de nao estar conseguindo dormir agora, às 2 e meia da madrugada faz com que amanha nesse mesmo horário, quando eu devo estar no ônibus que vai pro aeroporto, eu nao esteja exatamente tao descansada assim, como eu tinha planejado quando fui pra cama umas 3 horas atrás. E talvez amanha seja ainda pior e eu nao consiga nem fechar os olhos, de ansiedade. Como as noites que antecedem o Natal na nossa infância. O bom dessa época é que somos obrigados a ficar deitados, porque Papai Noel só vem quando a gente está dormindo. Ou pelo menos na minha família (dessa vez a de verdade) ele faz assim. E sem computadores e blogs pra desviar a atencao da nossa mente, acabávamos dormindo. Bons tempos.

E agora, hipnotizados pelo brilho frio do monitor, meus olhos já comecam a protestar pelos seus direitos trabalhistas e exigir adicional noturno pelas horas extras trabalhadas hoje. E ameacam greve. E eu espero, sinceramente, que eles fechem as portas dessa vez. Boa noite.





De personagens e rabos quentes

2 08 2009

Depois de um período consideravelmente longo, estou de volta. Nao sei por quanto tempo, mas pelo menos hoje vocês vao poder me ver por aqui. Agradeco todos os comentários que recebi dos leitores preocupados e acho que foi somente por causa de vocês que resolvi afinal de contas, voltar. Vocês merecem. Mas ao contrário do que poderiam pensar, nao há nenhum motivo para preocupacao. Continuo aqui na mesma família, com mais ou menos a mesma rotina, que vira e mexe se altera um pouco. Tenho sim, muita coisa pra contar, muita coisa pra escrever, mas nem sempre isso é possível. Nao sinto tanta liberdade para falar a respeito aqui. Sendo um diário de viagem, supoe-se que tudo que eu conto aqui atém-se ao que realmente acontece na minha vida. Pode ter um ou outro exagero, mas eu tento ser sincera e mesmo que eu escreva a mentira mais deslavada (ou lavada?) que eu seria capaz de conceber, vocês tenderiam a achar que é verdade e deixariam de confiar em mim se soubessem que foi tudo invencao. Mas nao, nao estou querendo contar nenhuma mentira. Pelo contrário. A questao é que todas as novidades que eu tenho no momento, todas as coisas novas que estou vivenciando nao sao assunto para falar em um blog-diário-de-viagem. Nao que vocês nao merecam saber. O problema é se tornar tao público. E tao sincero. Se algum dia o sonho de publicar um livro sair da minha cabeca e for realmente parar no papel, seria diferente. Em um livro eu poderia contar todas as verdades mais secretas, nos seus mínimos detalhes e chamar de ficcao. Aí fica mais fácil, mesmo que seja ainda mais público. Eu seria minha personagem. E poderia jurar de pés juntos que nada do que está escrito aconteceu. Ou seria apenas misteriosa e responderia com um vago “quem sabe?” quando me perguntassem… De qualquer forma, nao é hora de vocês saberem. E quando chegar a hora nem eu mesma vou saber se aquilo foi realmente só imaginacao.

(…)

Fiquei feliz ao ver uma personagem minha tomando vida e aparecendo efetivamente na minha história. Aí vocês podem ter certeza de que algumas coisas realmente acontecem… Já era tempo, Mayara! Gostei de ler os comentários, mesmo que em todos eles eu tenha sido descreditada. Mas é claro que os leitores sabem que eu nao queria dizer aquilo mesmo. Quer dizer, querer eu queria, senao nao teria escrito, mas só por eu ter escrito nao significa realmente que é minha opiniao mais sincera, mas sim que o efeito literário fica muito melhor com do que sem exageros. É lógico que eu nao achei que ela pegaria minhas pulseiras ou que estava tao bêbada a ponto de nao perceber o que estava acontecendo à sua volta (embora eu tenha CERTEZA que ela nao percebeu que eu nao tomei o licor). E é claro que ela nao disse nada sobre fazer mumu com o rabo quente, o que deve ser realmente difícil, mas nao impossível. Tá bom, a frase ficou estranha mesmo em gauchês, por isso vou tentar me redimir e contextualizá-la…

O gaúcho entra no quarto da chinóca com o cacetinho na mao e diz:

– Ba, guria, tu sabe fazer mumu com o rabo quente?

– Capaz! Nunca fiz nao, tchê!

– Agora eu to embretado! Tava comendo o negrinho na cozinha e a dona Ana chegou e ainda me viu com o cacetinho na mao. Como eu acabei com o negrinho, ela disse que eu tenho que fazer mumu com o rabo quente se eu quiser comer negrinho de novo.

– Ba, achei que tu fosse colhudo! Só por causa desse cacetinho? Ainda se fosse maior… Tu nao vai bater a canastra por isso…

– A la pucha! Eu tô é gastando pólvora em chimango aqui! Cala a boca e abre cancha se nao quiser que eu te passe o relho.

– Mas tu é duro de boca! Como é que quer fazer mumu com o rabo quente, em cima do laco e com o estribo frouxo? Passa esse cacetinho pra cá e eu me viro com o rabo quente. Daí tu come esse negrinho que tá aí no bidê enquanto eu faco mumu.

Mais tarde, a chinóca escreve no seu diário, terminando de contar a história: “Peguei o cacetinho e fiz mumu com o rabo quente enquanto ele comia o negrinho”

Seria ou nao seria possível??? O grande problema é que minha pesquisa sobre gauchês tomou muito mais tempo do que eu esperava e o post vai ter que ficar por aqui. Tá achando que é fácil assim falar gauchês?? Num é nao, sô!! No próximo talvez eu poste umas fotos pra compensar. Mas sim, sim, vai ficar sem traducao de novo. Acho que é sempre mais interessante ver aonde que a imaginacao pode levar quando o que foi escrito nao é explicado… Deixa cada um interpretar o que quiser. Significados sempre pode ter muitos.





Prolixidade

24 06 2009

Pra variar um pouquinho, resolvi contar detalhes demais do evento, por isso está demorando. Acho que vai ter mais de um capítulo também, mas fazer o quê! É o que dá ser prolixa. Nunca consegui fazer uma redacao de escola respeitando o limite de linhas sem ter que espremer muito a letra. Sempre ficava também por último e às vezes ainda dava um jeitinho de ficar além do tempo pra conseguir escrever mais. Como da vez que eu fingi que estava com LER na época das avaliacoes bimestrais. E o meu lado virginiana se manifesta nessas horas, querendo que saia tudo pefeito, embora dificilmente eu consiga manter meu quarto arrumado. Segundo minha professora de leitura artística oral aqui na  Terra da Batata, isso é culpa do meu ascendente em Câncer, que também nao me deixa escolher as coisas com facilidade. Mas eu espero que a conjuntura astral dessa semana esteja boa e que eu consiga terminar logo o(s) posts que comecei antes de criar outro muito maior do que o planejado que nao tem nada a ver com o assunto. O que será que a Tia Tiza tem a dizer sobre isso?