Malas e tralhas

4 02 2010

Nunca imaginei que em um ano pudesse-se acumular tanta coisa. Depois de decidir não pagar uma mala extra, o primeiro passo para arrumar as malas foi me livrar de tudo que estava estragado ou não servia mais de alguma forma. Depois de jogar fora um terço das coisas que eu tinha no meu quarto e metade das coisas que eu já tinha salvado do lixo e ver que ainda estava longe de caber nas duas malas despachadas e na bagagem de mão, tive que me livrar de todas as coisas que eu ainda poderia usar, mas que não eram lá tão bonitas. Depois de jogar fora muitas outras roupas e sapatos e bolsas e mochilas e meias e calcinhas, percebi que não tinha sentido trazer casacos de inverno pro Brasil quando se mora em uma cidade em que 15ºC é frio, mas que também não tinha sentido jogar fora coisas que ainda estavam em perfeito estado de uso, ainda que sejam, sob certo ponto de vista, inúteis. Depois de perguntar com jeitinho se eu poderia deixar algumas coisas na casa dele e de separar cuidadosamente o que seria deixado pra trás, o que talvez poderia ser enviado depois e o que era totalmente inútil, mas que eu não conseguia jogar fora por razões emocionais absolutamente incompreensíveis, descobri que a montanha de coisas a serem deixadas já estava ficando maior que a de coisas a serem levadas e que por mais que ele gostasse de mim o coração (ou o quarto) dele não era grande o suficiente para abrigar tanta tralha. Depois de vencer barreiras emocionais incompreensíveis para a mente alemã e me desfazer de coisas que em outra situação seria inconcebível e perceber que ainda assim não era suficiente, comecei a entrar em desespero. Olhava para as roupas espremidas na mala, cada uma comprada em uma promoção diferente e sabia que tinha que me desfazer delas. Mudei meus critérios. Só entravam na mala coisas absolutamente indispensáveis, impecáveis e imprescindíveis ou que representassem uma ligação emocional forte demais para que fossem deixadas para trás. E depois de pesar as malas descobri que teria que deixar até a ligação emocional de lado. A sensação era de jogar fora uma vida inteira construída nesse ano.

Quando comecei a arrumar as malas, há algumas semanas, decidi que não repetiria o erro da vinda, em que nos últimos minutos eu ainda estava arremessando coisas pra dentro da mala. Por isso quis planejar tudo direitinho, decidir exatamente o que seria levado e tudo o mais. Claro que não deu certo. A minha gast foi compreensiva e me deu os dois dias antes da viagem de folga pra que desse tempo de organizar tudo. E como eu sou eu, é claro que em vez disso eu fui passear, andar de trenó, despedir dos amigos e deixei pra terminar de arrumar as malas e o quarto duas horas antes da viagem. Achei que seria fácil. No fim das contas eu já estava jogando as coisas de qualquer jeito nas malas, jogando coisas fora sem pensar um segundo em relação emocional ou impacto ambiental ou terremoto no Haiti. O plano era sair às 15 horas e quando minha Gast percebeu que eu não cumpriria o prazo, começou a ficar nervosa. Entrou no quarto abrindo gavetas e portas de armários e dizendo onde ainda havia coisas minhas. Eu tinha pensado que talvez poderia deixar algumas coisas pra eles, pras crianças, pra futura au-pair, sei lá. Mas depois que ela disse que queria que eu deixasse tudo vazio, não me importei mais. Foi tudo embora. Coisas que há alguns meses eu certamente resgataria do lixo. coisas que eu de fato resgatara. Coisas que poderiam realmente ser úteis para eles, para mim, para o mundo. Tudo ensacado e empilhado na garagem. Ou encaixotado para ser levado para a casa dele. O quarto que nos últimos meses eu quase não habitara, revelou abrigar mais coisas do que eu um dia sonhei em encontrar nele. Saí de lá levando apenas estritamente a bagagem permitida, aproveitando a brecha no controle da bagagem de mão. Malas despachadas eram duas. Na mão só poderia levar teoricamente uma. Acabei levando três, sem contar o casaco e torcendo para que eles realmente não fizessem o controle.

No fim das contas minha gast se acalmou e resolveu interpretar o atraso de uma hora não como desleixo, mas como uma tentativa inconsciente de prolongar minha despedida. Eu, que achava que estava mais pra desleixo, só estava preocupada se ela se lembraria de me dar o dinheiro que havia prometido – ou eu nem conseguiria voltar pra casa. Mas isso é assunto pra outro post.





Aventura de férias

10 06 2009

Uma das minhas ilusoes de au-pair era a imagem da au-pair totalmente integrada à família, participando das suas atividades de lazer, sendo tratada realmente como uma irma mais velha e logicamente, viajando junto com a família. Sempre achei que na casa da Erika isso nao acontecia porque afinal de contas era a Erika. Mas nao é bem assim. É lógico que nao tem comparacao as duas famílias e que aqui eu me sinto incomparavelmente melhor do que na casa dela. Mas nada é perfeito. E tenho que admitir que foi uma decepcao muito grande perceber que nao, eu nao seria convidada todas as vezes que eles saíam, pior: eu raramente seria convidada e era bem provável que eu teria que ficar em casa cuidando das criancas, ou do bebê ou do cachorro. Mas pode ser até pior, porque às vezes eles levam o cachorro, que na verdade é ela. E eu fico. Nao pretendo escrever um post depressivo, nem ficar me lamentando, mas eu nao consigo evitar as comparacoes inevitáveis que surgem quando a cachorra é convidada e eles nem falam pra onde estao indo. Nao falam pra mim. Ela provavelmente sabe. E eu me pergunto quem faz mais parte dessa família, se eu ou ela e a resposta é óbvia e clara, mas nem por isso muito digerível.

E foi assim que nas últimas férias, que aqui sao no meio de maio, eles foram viajar e me deixaram aqui e nem o cachorro me fez companhia. Passaram um fim de semana na casa de um tio na floresta negra (nao, isso nao é só o nome de uma sobremesa…), e eu acho que nao custaria nada ter me levado também, já que nao teriam gastos extras com hospedagem ou transporte. Mas nao levaram. Depois foram pra Áustria e ficaram uma semana lá, deixando pra mim uma listinha com tarefas a serem feitas, entre elas, claro, passear com a cachorra, que dessa vez também nao foi convidada. Fico pensando às vezes que se toda vez que eles chegassem eu fosse correndo até eles, pulasse e latisse, eles talvez me chamassem pra próxima viagem. Mas acho que o mais provável seria eu acabar no hospício ou pior, no vôo mais próximo, o que me leva a procurar outras opcoes. E minhas opcoes eram simplesmente tentar me divertir – de preferência nao fazendo compras – enquanto eles estavam fora. Tentei encontrar com a Mayara e depois de alguns desencontros e muitos tomates acabou dando certo (e eu falo mais disso depois, ela merece um post exclusivo). Queria ter ido pra Mannheim com ela, que é a maior cidade aqui das redondezas e pra onde a gente nao tinha ido juntas ainda. Que bom – pensa o leitor – ela já está comecando a pensar em outras coisas além de fazer compras!! Que evolucao! Mal sabe o ingênuo leitor que uma das principais atracoes de Mannheim nao sao os parques e monumentos históricos, mas o centro de compras. E que essa cidade é muito barata em comparacao com Heidelberg, que é uma das mais caras da Alemanha (e ainda assim eu consigo boas ofertas! Eu sou boa mesmo nisso…)

Enfim, mesmo nao tendo ido pra Mannheim com ela, nao me saiu da cabeca a idéia de ir pra lá. A última vez que eu tinha ido pra lá foi quando eu comprei meu notebook (além de umas outras bagatelas que acabaram saindo o mesmo preco dele) e exageros à parte e depois de receber o salário seguinte, já estava com saudade de passear por outras lojas que nao as que os meus pés já decoraram o caminho em Heidelberg. Só que apesar de ter me tornado uma consumista compulsiva, nao abandonei minha característica primeira de mao de vaca. E o fato é que a passagem pra Mannheim custa nada menos que 9 dinheuros, o que daria pra comprar duas bolsas, duas blusas ou um casaco, dependendo do que estivesse em promocao. E eu na verdade nunca uso o transporte público daqui, porque tenho uma bicicleta e apesar de todos os seus defeitos, de já ter me jogado no chao no mínimo três vezes, o que decididamente nao foi culpa (apenas) da inabilidade da ciclista, e de, em consequencia do último tombo, eu ainda nao poder movimentar tao bem o meu braco sem que isso me cause uma dor tao forte que eu até esqueca porque é que eu o estava movimentando (e dessa vez sem exageros), apesar de tudo isso ela me serve muito bem. E daí eu tive a brilhante idéia de juntar o útil e nem tao agradável assim ao agradável e muito útil. Ou seja: ir pra Mannheim fazer compras de bicicleta. Essa seria uma forma também de me redimir comigo mesma, por ter saído só pra fazer compras. Afinal, os 22 km pra ir e pra voltar seriam só em si um passeio e tanto. Eu estava com essa idéia desde que a ida pra lá com a Mayara nao deu certo (e isso foi no dia 23 de maio, sábado, pra situar vocês nas datas). Planejei entao que no próximo sábado, dia 30, pra comemorar meu segundo aniversário de namoro em grande estilo, eu faria esse passeio. Nao contava com o fato de que na quinta feira eu levaria o pior tombo de bicicleta da minha vida, chegando a precisar de ajuda pra levantar e sem forca suficiente no braco nem pra segurar o guidao, totalmente molhada e suja porque estava chovendo e eu fui escolher logo em cima duma poca d’água pra cair, tendo que empurrar a bicicleta ladeira acima até em casa e dando gracas a deus pelo fato do meu gastvater ser ortopedista e, como eu descobri logo depois, especialista em ombros e sabendo que mesmo se ele nao fosse suficiente pra resolver meu problema, minha Gastmutter era fisioterapeuta… Mas eu nao precisei dos servicos dela. Sobrevivi à base de Voltaren e compressas de gelo e em um ou dois dias meu braco já estava melhor (embora eu ainda amaldicoasse até a quinta geracao dos gasts quando tentava lavar as janelas – uma das tarefas da listinha – naquelas condicoes). Qualquer pessoa sensata nesse estado sabe que o melhor a fazer é ficar bastante tempo em repouso, nao fazer muito esforco, seguir rigorosamente as prescricoes médicas com compressas de gelo e três voltarens por dia. Mas – e nesse caso certamente até a Erika concordaria comigo – eu nao sou lá muito sensata. E mal consegui fazer o movimento de levantar o braco e segurar o guidao e upa-le-le! Lá vai a Carol de bicicleta pra Mannheim.

Claro que todo mundo sabe que antes de partir numa aventura dessas é necessário olhar no mapa, ver o melhor caminho a ser feito, levar comida, água e cartao de crédito. Ou seja, planejar o mínimo necessário, o que normalmente eu faco até demais. E talvez tenha sido o efeito do voltaren ou a lua ou a felicidade pelos dois anos de namoro completos ou a ânsia de fazer compras, mas dessa vez nao. Cheguei a olhar rapidinho no googlemaps e vi que se eu pegasse a rua tal e seguisse ela direto, um dia eu chegava em Mannheim. E tendo um senso de direcao perfeito como o meu, quem precisava de mapas? Afinal, era só seguir as placas e mais cedo ou mais tarde eu chegava lá. E lá fui eu seguindo as placas, admirando a paisagem, cantarolando enquanto pedalava pelos campos floridos. Nem me preocupei quando saí da rua que eu tinha planejado seguir. Lá ainda tinha uma placa indicando Mannheim e era só continuar nessa direcao. E foi seguindo essas placas que eu conheci o que os alemaes chamam de auto-bahn ou auto-pista ou rodovia com limite de velocidade bem acima dos padroes brasileiros. Talvez eu deveria ter pensado, ao me deparar com a tal pista: ok, caminho errado, meia volta volver e eu ainda acho hoje a ciclovia pra Mannheim. Mas minha reacao foi bem diferente… Caramba, eu to na autobahn! Doidimais, vambora. E lá fui eu na minha humilde bicicleta cor de rosa apostar corrida com os carros a 150 por hora. Eu estava seguindo por uma espécie de acostamento, entao nao tinha problema, né? Tava na direcao certa… Só achava desagradável todo carro passar buzinando do meu lado. Fora isso era até legal. E estava assim tranquila pedalando quando ouvi uma outra buzina, mas dessa vez bem mas perto. Tinha um carro atrás de mim no acostamento buzinando igual louco. Será que ele queria acostar? Continuei em frente pra que ele tivesse espaco suficiente, mas ele nao parava com a buzina. Entao parei, pronta pra xingar o engracadinho. E tive que engolir em seco quando virei pra trás.

Era a polícia.  E o bom é que eu nem precisei dar uma de boba nem nada. Na ocasiao eu realmente era a boba. Ou louca, de ter pedalado na autobahn, correndo risco de nunca mais poder fazer compras… Voce nao sabe que é proibido nao?? Pois é, é proibido. Por isso que os carros passavam buzinando, claro! Pra me avisar. E eu achando que estava finalmente despertando o interesse dos alemaes… Os policiais foram gentis comigo, me ensinaram sobre as placas de trânsito e eu descobri que as ruas normais têm placas amarelas e pode-se andar de bicicleta, mas a autobahn tem placas azuis e só carros têm a permissao pra dirigir nela. Ou seja se você estiver de carro, pode correr. Se estiver a pé ou de bicicleta, saia correndo na direcao oposta. Acabou que eu ganhei uma carona até Mannheim. E nao pra prisao. Somente uma advertência que eles disseram que mandariam pro meu endereco e que ate hoje nao chegou. Mas nao, nao vou precisar pagar nada nem vou ser deportada por causa disso.

Descobri em Mannheim que eu tinha realmente escolhido o dia certo pra ir pra lá. Tinha festa na cidade, com várias barraquinhas de comidas, música ao vivo, bem legal. E as lojas que nao podiam faltar estavam lá, todas abertas, esperando ansiosas por mim. Mas pra mostrar pra vocês como eu nao sou movida só a promocoes, participei um pouquinho da festa sim. Ouvi algumas músicas, fiz um lanche e o meu ombro nem tava doendo tanto assim mais. E na hora de voltar pra casa, tomei o cuidado de nao cruzar com nenhuma plaquinha azul e fui seguindo o rio Neckar, que liga as duas cidades, passando pelos campos. E nem liguei de ter caído de novo bem em cima de uma poca de lama (poxa, mas essa menina dá sorte mesmo). Cheguei um pouquinho suja em casa, mas nada que um banho e uma cuidadosa limpeza das minhas sapatilhas outrora brancas nao resolva. E um bom descanso, depois de mais de 45 km e cerca de 4 horas pedalando.





Hoje

3 06 2009

Andei pensando qual seria minha desculpa agora pra ficar tanto tempo sem escrever: nao tem mais festas nesse mês, tive bastante tempo livre, tenho computador com internet no meu quarto… O que aconteceu? Depois de horas de muita reflexao, que poderiam ter sido aproveitadas para escrever mais um post, cheguei à conclusao de que tudo nao passa na verdade de uma grande preguica. Eu simplesmente nao aguento mais nem pensar no fato de que eu teria que regressar dois meses no tempo e relembrar o que eu estava fazendo, o que aconteceu em tal dia, descrever com detalhes etc, etc, etc. Cheguei a fazer uma lista com a ordem dos posts que eu teria que escrever pra atualizar meu blog. Bem se eu fosse atualizar até o dia de hoje, teria que acrescentar mais no minimo uns 5 itens à lista que já nao era pequena. E até eu escrever todos esses 5, já teria mais uns 7 ou 9 esperando pra serem escritos. E provavelmente voltaria pro Brasil com um dever de casa de tres meses de atraso. Mas eu nao quero isso e acho que voces também nao. Entao, meus caros leitores, devido às circunstâncias anteriormente citadas, tenho o dever e a honra de informar-lhes que a partir de hoje, dia 3 de junho de 2009, todos os posts que porventura sejam publicados nesse blog o serao com a data atual. (tem até um novo template como edicao comemorativa, voces repararam? Bem na verdade está ainda em fase de testes. Se nao agradar muito, eu mudo :-)) Eu ainda tenho muita coisa pra contar desses dois meses sem notícias, mas vou fazendo isso aos poucos, talvez quando surgir um assunto semelhante ou quando nao tiver mais assunto. Mas nao consigo mais deixar de escrever o que eu quero só porque existem outros assuntos com prioridade de data…

Bem, algumas pessoas me perguntaram o que está acontecendo agora, o que eu estou fazendo, onde eu estou, etc. Acho que com tantas idas e vindas, voces comecaram a pensar que eu devo mudar de família todo mês. Mas nao é bem assim. O normal do programa de au-pair é que a menina (ou em casos mais isolados o menino) vai pra família, eles se dao super bem, ou mesmo que nao se deem tao bem assim, o/a au-pair fica lá por um ano, mais ou menos, dependendo dos níveis de saudade, paciência e de quanto estao pagando. Eu é que nao sou lá muito convencional e resolvi dar um rolé por algumas famílias, sabe como é, pra aprender mais da cultura alema em diferentes ambientes. Claro que foi tudo planejado. Mas agora, depois de uma intensa pesquisa nos âmbitos familiares, encontrei uma familia que se encaixa perfeitamente nos meus padroes científicos e oferece muito material para análise. Assim sendo, terei que permanecer mais tempo aqui do que apenas um mês ou uma semana para poder estudá-la a fundo. Sei que provavelmente voces vao pensar que mais material para analise que minha primeira família oferecia é impossível de encontrar em outra. Maaas, como eu nao estudo psicologia e sim letras, a estadia lá nao ia me ajudar muito. Mas se você leitor estuda psicologia e está pensando em fazer um estágio no exterior, posso até indica-lo para ir pra casa branca (embora eu ache que você teria mais chances sem qualquer indicacao minha). Mas chega de papo furado. O que eu quero dizer é que estou aqui ainda em heidelberg, na mesma família que eu contei por último. Nao bati em nenhuma crianca, nao envenenei o cachorro, fiz questao de perguntar qual a tomada certa pra ligar o aspirador de pó e guardo todas as canetas que encontro espalhadas. Enfim, tenho sido uma boa menina e eles têm sido uma boa família. Claro que de vez em quando existem alguns atritos, mas isso acontece em qualquer família – escolhida ou nao.

Estou estudando também, como já contei pra alguns e nao sei exatamente com que clareza eu contei isso aqui. Mas vocês devem se lembrar que eu fiquei sabendo que eu poderia frequentar as aulas da faculdade como ouvinte. Tudo o que eu teria que fazer era ir até a aula, explicar a situacao e perguntar ao professor se eu poderia acompanhar as aulas. Bom, eu fiz isso e estou frequentando cinco matérias desde o comeco de abril. É um pouco difícil de acompanhar as aulas sendo au-pair porque nao se tem tanto tempo livre assim. Quero dizer: eu tenho meu horário de trabalho aqui e tenho tempo suficiente pra ir a todas as aulas, mas nao tenho muito tempo pra fazer deveres de casa, por exemplo. Em algumas matérias eles valem pontos e sao determinantes para se conseguir nota na matéria ou nao. Como eu sou ouvinte e nao posso por isso ter nenhum certificado comprovando que eu frequentei as aulas, nunca fiz nenhum dever de casa, o que é bastante ruim quando se tem o objetivo de aprender a língua. Eu na verdade nem sei mais qual é o meu objetivo aqui. Talvez em algum ponto da história tenha sido aprender alemao. Mas pra ser bem sincera, acho que só vim pra cá por que era o jeito mais alcancavel no momento de morar em outro país. Sempre tive vontade de fazer um intercâmbio e acho que a experiência de morar em outro país é válida independente de quais sejam as metas envolvidas. Mas eu nao sou exatamente o tipo de pessoa que faz alguma coisa pra melhorar o currículo e muito provavelmente eu nao vou trabalhar nessa área de letras, o que faz com que ter ou nao um certificado da faculdade seja de certa forma irrelevante – até porque as matérias daqui normalmente nao sao reconhecidas no Brasil. E isso significa que eu ainda nao resolvi se vou tentar de novo entrar (dessa vez oficialmente) na faculdade no próximo semestre, se vou simplesmente continuar como ouvinte, se tento fazer uma graduacao normal aqui em vez dessa de curto tempo, se deixo pra tentar uma pós graduacao ou qualquer coisa assim depois que eu formar… Enfim, tenho muitas possibilidades e enquanto por um lado eu acho que o que eu teria que pagar pra me tornar estudante poderia ser muito melhor aproveitado se eu pagasse qualquer outra coisa, por outro lado, acho uma pena passar esse tempo todo aqui sem um comprovantezinho qualquer de tudo que eu estudei, mesmo que eu nao vá utilizá-lo. Queria que meus amigos da letras dessem uma opiniao sobre o assunto, mas eles andam tao sumidos daqui que acho que vou ter que me decidir sozinha. Mas bem, ainda tem tempo. Nao muito, mas tem.

Além de trabalhar e estudar eu estava há algum tempo fazendo muitas aulas de danca. Tango, jazz, rock, salsa e até uma aula de teatro. Mas aí comecei a achar que era coisa demais pra uma pessoa só. Acho que estava ficando muito cansada, nao sei, e em uma semana particularmente difícil entre cólicas, lua minguante e crise depressiva, matei várias aulas. E nao voltei mais. Hoje continuo só no tango que eu amo de paixao e na salsa que eu me sinto obrigada a ir pela dívida de gratidao com a Mathilde. Mas acho que vou abandonar também porque, por mais que eu goste da mathilde, as aulas dela ficaram muito chatas depois que acabaram as férias. Parece que só tem iniciantes e pra quem já sabe dancar dá preguica ir em aulas assim. Mas acho que meus horários acabaram ficando muito vazios sem todas essas aulas. E adivinhem como é que eu preencho esses horários vagos??? É triste… e eu me sinto muitas vezes como a pessoa mais fútil do mundo por fazer isso, mas algumas vezes nao consigo fazer diferente e de certa forma talvez isso tenha se tornado uma compulsao. Já falei em alguns posts sobre minhas compras aqui, das bolsas e dos casacos, lembram? Bem, aquelas foram circunstâncias específicas, mas talvez nessa época já se pudesse vislumbrar o que estaria pra acontecer. E o fato é que hoje passo meu tempo livre fazendo compras ou no mínimo passeando pelas lojas em busca de alguma promocao. Pelo menos isso. Nao compro nada caro. Só compro algo depois de ter certeza que eu gosto, que eu vou usar, que é bonito e que o preco realmente vale muito a pena (e talvez todas essas condicoes que eu estabeleco sejam apenas uma forma de eu nao sentir minha consciencia muito pesada depois das compras. Mas tem funcionado). Aqui tem um nome pra isso, que agora nao me lembro direito, mas é algo como “cacadora de ofertas”. O grande problema é que aqui tem muitas ofertas! Eu encontro tanta coisa barata que eu simplesmente nao consigo resistir. Isso, aliado ao fato de que eu recentemente me dei conta do tanto que eu me vestia mal, fez com que em cerca de dois meses eu comprasse mais roupas e sapatos do que já comprei em uma vida inteira. O que é no mínimo preocupante, quando se pensa no limite de bagagem. Mas eu tenho fé e esperanca de que quando eu atingir a meta imaginariamente estabelecida para o meu vestuário eu vou conseguir finalmente ocupar meu tempo livre com coisas mais nobres e elevadas. Se é claro, eu nao encontrar uma outra promocao no caminho.





Mathaisemarkt

16 03 2009

Um amigo meu já dizia que a gente tem que ver o lado bom da coisa. Pensar positivo, ainda que tudo pareca perdido. E o fato é que domingo era o último dia da festa mais badalada do ano de Schriesheim: o Mathaisemarkt. E o fato é que eu queria muito ir pra lá e estava pensando como exatamente eu iria fazer tendo que trabalhar no domingo. Tinha pensado em ir à tarde, alguma coisa assim, depois que a Cláudia me liberasse. Ou pedir pra ela pra sair mais cedo, nao sei. Nao imaginava que ela fosse me liberar tao mais cedo e que eu nem precisaria pedir pra ir. Depois da nossa conversa, ela disse que eu podia ir pro quarto, se eu quisesse, pra refletir um pouco sobre o que eu iria fazer, etc. Bem, eu fui pro quarto. Queria na verdade conversar com a Mayara, contar pra ela. Mas ela nao estava mais lá. E eu nao tinha a menor vontade de ficar lá meditando. Entao fiz o que qualquer pessoa sensata faria. Me arrumei e fui pro Mathaisemarkt.

Saindo do hotel encontro todo mundo, a Mayara, Cláudia, Söhren e as criancas e todos pareciam ter acabado de ter uma reuniao familiar. Mais tarde eu soube que essa reuniao era exatamente pra contar a decisao da Cláudia. As criancas quando souberam, queriam ir correndo até o meu quarto. Mas a Cláudia disse que nao, que eu queria ficar sozinha e tal. Um minuto depois chego eu toda alegre e falo que vou pra Mathaisemarkt. E fui. Deixei o clima tenso pra trás, com a família e vou deixar esse assunto um pouco de lado também, pros meus leitores nao pensarem que eu só sofro nessa vida de au-pair. A desvantagem é que o suspense aumenta mais ainda, já que nao vou contar por enquanto o desenrolar dessa história…

O Mathaisemarkt é uma festa típica de Schriesheim pra celebrar a chegada da primavera. Tudo bem que ainda estava uns 6°C nessa época, mas o objetivo é esse. Sao montadas várias barracas de comidas, bebidas, além de um parque de diversoes. Isso na área central. As ruas laterais ficam lotadas de barraquinhas das coisas mais variadas, roupas, sapatos, utensílios domésticos, artigos de decoracao, etc. Eu precisava comprar luvas, porque em todo esse tempo na Alemanha e em todas as minhas compras eu nao conseguia achar uma luva decente e barata. As luvas boas que eu achava custavam em torno de 40 euros, que eu acho muito pra algo que só vou usar aqui e que é tao fácil de perder (desde que cheguei, já perdi duas). E lá nessas barraquinhas achei um par de luvas muito boas por 10 euros. Mas eu nem tinha pesquisado direito pra comprar, nao sabia que a feirinha era tao grande. Acabei achando outras melhores por 5 euros depois. E comprei as duas também, incluindo uma pra usar na neve, que eu nao tinha. Quando fiz meu primeiro boneco de neve, tive que colocar uma luva normal e pra nao molhar e meus dedos nao congelarem, uma luva cirúrgica por cima. Ridículo. E se eu nao for expulsa do país antes do próximo inverno ainda uso elas.

Mas a feirinha nao é composta só de luvas. E passeando entre as barraquinhas encontrei algo que atraiu muito minha atencao. E nao eram casacos. Bolsas. Eu tenho verdadeira paixao por bolsas. Algo que provavelmente herdei da minha tia Edna. Mas melhor do que achar bolsas bonitas é achar bolsas que além de bonitas sao muito baratas. No Brasil uma bolsa nao muito cara, dessas de feira shop custa em torno de 40 reais (me corrijam se estiver enganada, mas isso é o que eu lembro de ter pagado). Como aqui nao tem feira shop, as bolsas sao mais caras e uma barata aqui custaria uns 25 euros. 15, se nao for muito bonita e se você der sorte. Na barraca de bolsas que encontrei qualquer bolsa custava apenas 5,99 €. E eram realmente bonitas. Entao comprei três. Dessa vez eu tinha pesquisado um pouco mais e a mesma bolsa em outra barraca custava uns 20 €. Mas eu nao sabia ainda que a feirinha era tao grande. E quando eu estava tentando achar uma rua, me perdi e encontrei uma outra barraca de bolsas. Nao tinha tanta variedade como na outra barraca, mas estava com a promocao de 1 por 5 €, 2 por 9 € e 3 por 12 €. Aí nao resisti e comprei mais duas.

Mas nao é só de luvas e bolsas que é feito um Mathaisemarkt. Tem também muitos crepes, incluindo o de nutella, que é realmente bom e… brinquedos!! Tinha mais de um ano que eu estava querendo ir em um parque de diversoes. Tentei ir ao do shopping delrey várias vezes mas ou estava chovendo, ou eu nao tinha tempo ou ninguém queria ir comigo. Aqui eu também nao tinha ninguém pra ir comigo. Mas eu fui. Virei de cabeca pra baixo, gritei muito. Acho que estava precisando disso. Enfim, foi muito bom.

Mais tarde encontrei com a Mayara e os amigos dela. Todos estavam trêbados, estavam bebendo desde a hora do almoco e já era de noite quando a gente se encontrou. A Mayara tava revoltada com a Cláudia e todos os amigos dela também já tavam sabendo da história e ficaram boquiabertos. Acabou que eles me obrigaram a tomar um chocolate quente misturado com qualquer-coisa-alcoólica (sabendo que eu nao bebo) e queriam me empurrar um licor de qualquer coisa também. Fingi que tomei o licor (como estavam bêbados nem perceberam) e guardei a garrafinha, que tenho até hoje. Em seguida fomos pra casa de um dos amigos, que era ali perto, pra ver os fogos de encerramento da festa, que foi lindo, de verdade.

Conclusao da história: se a Claudia nao tivesse me mandado embora, nao teria aproveitado nem um terco do que eu aproveitei do Mathaisemarkt. Tudo tem sempre o seu lado positivo…





Carol no paraiso dos consumistas com frio

7 02 2009

Agora que tenho o aval do meu especialista, posso seguir em frente e continuar contando as novidades (nem tao novas assim) da terra da batata (eu ia fazer um adendo agora para explicar a razao desse nome, mas resolvi que como ia ficar grande demais, talvez meu especialista comecasse a me repreender. Entao, zelando pelo destino desse blog, prometo (e esse blog ja tem tantas promessas que ta parecendo discurso de politico) fazer um outro post sobre o tema depois (espero que contra os parenteses nao haja nada contra :-))).

Aqui na Alemanha e em outros paises da Europa também, acontecem liquidacoes em todo final de estacao nas lojas de roupas e calcados, ou seja, duas vezes por ano, no final das colecoes primavera/verao, outono/inverno. Quem esta no Brasil vai pensar: “ah, aí é só duas vezes por ano? Aqui tem liquidacao todo dia! Pode ser no meio, no comeco da estacao, qualquer hora tem liquidacao e nao é so de roupa nao! De brinquedo, de livro, até de remédio tem liquidacao!” Pois é meu caro leitor, sem querer destruir as suas ilusoes consumistas, mas ja destruindo, a maioria dessas liquidacoes no Brasil nao passam de estrategia de marketing, de um atrativo para os consumidores vorazes acharem que estao diante da maior pechincha de suas vidas e comprarem tudo o que têm direito, o que nao têm e o que vai ficar pendurado no cartao de credito da vizinha. É claro que eu espero que o meu leitor nao esteja nesse perfil. :-) Mas, voltando pra Alemanha, as liquidacoes daqui sao um tantinho diferentes dessas jogadas de marketing. Nas lojas de roupa do Brasil, eu acho que eles nao vendem todas as roupas que sobraram, mas deixam guardado pro proximo ano. Uma vez fui procurar artigos de inverno na c&a e na renner (bem antes de vir pra Alemanha) na época em que tinha acabado de entrar a colecao primavera/verao e nao achei absolutamente nada, sendo que uma semana antes eu tinha ido lá e visto cachecois e essas coisas todas. Por isso eu acho que eles guardam as roupas. Mas deixa eu voltar pra Alemanha de novo. Quando comecam as liquidacoes aqui, todas as lojas comecam mais ou menos ao mesmo tempo. Aqui nao tenho certeza se é assim, mas na Franca, no dia que comeca a liquidacao, as pessoas fazem fila na porta da loja, a cidade toda, o mundo todo vai as compras no dia que comeca. Tem ate uma competicao entre as lojas pra ver quem vai liquidar primeiro. Na Alemanha nao sei bem como é porque cheguei depois dessa primeira fase, mas acho que isso é mais na Franca mesmo. (nao, eu ainda nao fui pra Franca, isso é cultura das aulas de frances do renatô de melô (letras tambem é cultura)). Mas voltando pra Alemanha mais uma vez (nunca viajei tanto em tao pouco tempo…) as liquidacoes de inverno daqui comecam no meio de janeiro. Como eu cheguei aqui no dia 6 de fevereiro ja tinha mais ou menos umas tres semanas que comecaramas liquidacoes. Como meu querido professor de frances tinha me avisado de todos os horrores da batalha do dia das liquidacoes, fiquei com medo de chegar la e so encontrar farrapos de guerra. Entao, mal tinha chegado em casa e no dia seguinte resolvi ir correndo fazer compras. Eu já tinha pesquisado a respeito em casa, na internet (pra quem se interessar, da uma olhada no site www.cunda.de é o site da c&a da Alemanha (und é a conjuncao e, entao, se voce for mudando a conjuncao, pode acessar o site da c&a de varios paises, tipo canda, cya e até ceta (afe, cultura inutil!!) ). Entao, eu tinha visto em casa na internet que comprar roupas de frio aqui era muito mais barato. Um casaco bom de inverno na c&a custa em media uns 39 euros, (ao mesmo tempo que blusas de verao custam uns 15 euros, dependendo da loja e da blusa) entao eu trouxe bastante roupa de verao e fui preparada para comprar um casaco de inverno, talvez dois se estivesse em promocao.

Fui em varias lojas (aqui tem uma rua que se chama hauptstrasse – rua principal – que é só para pedestres e tem milhoes de lojinhas, faz parte do centro historico de Heidelberg (me lembrou curitiba…)), como h&m e nao achei nada. Inclusive, nao recomento essa loja, nunca acho nada nela e é tudo caro (acho que eles tambem guardam a roupa pro proximo ano…). Fui na c&a e vi uns casacos legaizinhos em promocao, de 39 por 29, mas resolvi andar mais. Ai por acaso achei uma loja bem menorzinha, que tinha um cartaz atrativo na frente de algumas roupas incluindo um casaco feinho por 5 euros. Aí resolvi entrar. A loja é a New Yorker. É bem internacional, inclusive na etiqueta das roupas tem o preco numas 20 moedas e paises diferentes. Aí eu vi umas cinco coisas-redondas-onde-os-cabides-ficam-pendurados (como chama isso mesmo?) com casacos por apenas 10, isso mesmo, 10 euros!! Nem acreditei, fiquei muito feliz!! E nao eram quaisquer casacos, eram casacos realmente bons. Foram feitas umas quatro remarcacoes de preco, dava pra ver, naquela etiqueta internacional que eu falei, varias etiquetas laranja berrante coladas uma em cima da outra (depois, em casa, tive o trabalho de descolar as etiquetas e decobri o preco original deles: 59 euros!!) O dificil foi na loja, segurar tantos casacos experimentando um e outro na cabine, voltando com eles pro… pra coisa. [breve explicacao sobre provadores alemaes: aqui nao tem aquela chatice do brasil, de voce ter que pegar uma plaquinha com o numero de pecas, entrar na cabine e depois devolver a plaquinha. Nao fica ninguem vigiando, voce so entra e experimenta. (ah, mas isso é porque na Alemanha é muito mais seguro, ninguem vai sair roubando todas as roupas (talvez, mas em cada casaco tinha duas daquelas coisas-que-disparam-o-alarme-se-voce-tentar-sair-da-loja (acho que to esquecendo o portugues… mas nem sei se essa coisa tem nome!) e dentro da cabine tem um alarme que dispara se voce tentar tirar a coisa (nao a dos cabides, a dos alarmes))] Entao, com toda a dificuldade de carregar tres casacos de cinco quilos cada, alem do que eu ja estava usando e com o medo do tal alarme da cabine disparar acidentalmente enquanto eu experimentava as roupas e os segurancas entrarem na cabine me encontrando em trajes, digamos, inadequados, o que acabou acontecendo é que eu comprei dois casacos que depois percebi que estavam grandes demais. As alemas gostam de usar os casacos mais apertados e a numeracao aqui é diferente, enquanto meu numero no brasil é M, aqui seria P (S) ou PP (XS)!. Como nao tinha experiencia nenhuma com isso, acabei comprando um pouco maiores do que precisavam ser. Dessa vez eu comprei tres. Depois, pra compensar a numeracao errada, comprei outro em outra loja por 10 euros tambem. Comprei outras coisas tambem, tipo bota, cachecol, luvas, etc, mas o mais legal foram os casacos.

Dica do dia: Nao saia afobado para comprar tudo quando comecam as liquidacoes. Espere as rerereremarcacoes e seja um consumista feliz :-)

Tirei algumas fotos dos casacos (e minhas também (ô menina narcisista, que fica tirando foto dela mesma (ta, tudo bem, programei a maquina e sai correndo mesmo, ta bom??))) e vou colocar aqui embaixo. A bota nem é tao legal, mas descobri que na neve ela é essencial (até rimou!)