Jornada para casa

17 02 2010

Não tinha lugar na janela. Não era tão ruim assim, porque a viagem era à noite e não daria para ver paisagens de qualquer forma. O problema é que a janela sempre ajuda no meu sono. Mas ali, no meio do avião, com gente passando o tempo todo ao meu lado, não conseguiria dormir. E resolvi usar as opções disponíveis. Os filmes. Como na viagem de ida, tinha muitas opções. Metade deles eu já tinha visto, outros não eram do meu tipo, mas ainda sobravam uns quatro que eu poderia assistir. E eu assisti. Todos. Ou quase. Até tentei dormir no intervalo entre um e outro. Mas não era exatamente possível, sem o apoio reconfortante da janela. Os dois bancos ao lado estavam vazios e eu e o passageiro na outra ponta firmamos um acordo tácito, que dividia explicitamente os bancos desocupados entre os dois ocupantes: do braço da poltrona pra cá era o meu território e do braço pra lá, o dele.  Ele se enroscou como pôde já depois do primeiro filme. Pernas pra lá, cobertor, travesseiro e parecia satisfeito com o espaço inesperado. Eu tentei me esticar, me encolher, caber de alguma forma confortável nas duas poltronas. Mas ainda que eu tivesse mais espaço que de costume, estava longe de dormir a sono solto como o companheiro ao lado. Eu virava pra um lado e pro outro, tentava todas as posições possíveis nos centímetros de mobilidade que me restavam, tentava todas as técnicas conhecidas e inventadas, mas o máximo que eu conseguia era descansar um pouco os olhos para assistir o próximo filme. E assim foi até que acabaram os filmes. Eu já tinha assistido três. E como ainda não conseguia dormir, tive que apelar pra uma série de tv. Eu já conhecia The Big Bang Theory, mas até o momento só tinha assistido em inglês. E por mais que eu finja saber inglês, tenho que adimitir que quando a gente entende a piada fica muito mais engraçado. E foi nesse momento que me tornei fã incondicional dessa série. Mas era só um episódio e não resolvia o meu problema de insônia e de falta do que fazer nas próximas horas de vôo. E eu não queria jogar paciência ou ouvir música. Passei a lista de filmes novamente, tentando selecionar um mais assistível que os outros ou um bom o suficiente para ser assistido novamente. Foi quando um me chamou a atenção: Star Trek. Eu não conhecia. Era na verdade o tipo de coisa de que ele gostava e eu normalmente não chegava perto. Ou até chegava. Não posso também bancar a metida-que-acha-que-isso-é-coisa-de-homem-que-não-teve-infância, porque não é verdade. Na verdade seria algo como o que eu chamo de síndrome Star Wars. Nunca assisti, então falo que não gosto. Eu devo ser a única pessoa no mundo que nunca assistiu Star Wars. E sempre que as conversas nostálgicas que me fazem sentir com 50 anos de idade desviam dos costumeiros Caverna do Dragão e Cavaleiro do Zodíaco – que eu adoro – para temas mais complexos como Star Wars, Jornada nas Estrelas e uma porção de nomes parecidos que sempre me confundem, tenho que ir ao banheiro às pressas ou inventar uma desculpa qualquer antes de ser crucificada por nunca ter assistido o tal filme. Ou os filmes, o que torna a coisa toda ainda pior. Se eu for assistir vou ter que ficar uma semana inteira só por conta. Sem saber por onde começar, com essa confusão cronológica que nem os fãs entendem, acabo não assistindo (mas se você leitor se identificou com o que eu escrevi e topar uma maratona de Star Wars – ou ainda que seja um só filme – pode me chamar que eu animo). Além disso, como recém-fã de The Big Bang Theory, me identificava incrivelmente com a Penny quando não entendia uma das piadas do universo nerd, que incluem todos os Star-flimes, séries, histórias em quadrinhos e qualquer outra coisa que tenha relação direta ou indireta com esses mundos.

Isso tudo pra dizer que eu resolvi assistir Star Trek. O filme é realmente bom. Não é um filme de ação qualquer. Ele pertence a um universo próprio em que as coisas mais absurdas tornam-se possíveis. Tudo isso sem perder a carga de adrenalina inerente aos filmes de ação. E ainda pior. Nos filmes que meu irmão assiste, por exemplo, antes de você começar a assistir, já sabe que vai vencer o mocinho ou o bandido, caso ele seja o mocinho do filme, passando por muitas explosões, granadas, tiros e toda a tecnologia disponível da época. No Star Trek, é mais ou menos a mema coisa, com uma grande ênfase na tecnologia disponível. Mas a diferença é que você não tem muita certeza do que vai acontecer – ou pelo menos eu, que nunca tinha visto, não tinha. A trama se desenrola em uma linha de tempo alternativa que te leva a desejar não só saber o que vai acontecer, mas entender o que está acontecendo, o que aparentemente só é esclarecido no final, elevando as expectativas do filme a um expoente até então desconhecido pra mim. E foi em um desses momentos de adrenalina mais intensa que eu percebi que talvez não desse tempo de terminar o filme. E eu desejei muito que o vôo durasse algumas horas a mais, quando o James (e eu não consigo lembrar o sobrenome dele) se tornou capitão e eu tive que interromper o filme para assistir a uma programação obrigatória e inútil da Tam sobre os pontos turísticos de São Paulo. Comecei a ficar com raiva de ter assistido a série do Big Bang em vez de ter começado o filme antes. Mas refleti que se o Big Bang me ajudou a tomar a decisão de assistir Star Trek, não assistir à série geraria um paradoxo temporal, o que me levaria talvez  a não assistir Star Trek, criando um futuro desconhecido e alternativo que influenciaria inclusive o meu modo de vida agora, já que boa parte do meu tempo é dedicado à série. E achando que as últimas horas já tinham realidades alternativas suficientes pra uma vida inteira – ou mais, dependendo do ponto de vista-, resolvi só ficar com raiva da Tam mesmo.

E você leitor que não entendeu lhufas deste post, não precisa se preocupar com minha sanidade mental. Essa foi só uma tentativa de ilustrar como eu estava quando cheguei ao aeroporto de São Paulo, sem dormir, sem terminar de ver o filme, despenteada e carregando todos os pacotes e bagagens de algumas horas atrás.





A Chave da Liberdade

15 02 2010

Com fome, cansada e com os músculos doloridos de peso, de stress. Era assim que eu estava na fila do controle. Ele ainda estava lá, há alguns metros, como eu tinha pedido. Fiquei com medo de que acontecesse como na minha primeira viagem, em que fiquei sozinha e totalmente perdida, sem o saquinho para líquidos. Dessa vez, com os saquinhos, o problema era a mala. Dentre as recomendações para bagagem de mão, está que a mala de mão deve medir no máximo 56 x 45 x 35 cm, para que coubesse nas caixas em que a gente coloca a bagagem de mão no controle. Eu tinha comprado a minha mala há pouco tempo, justamente para essa viagem e ao medi-la, descobri que tinha exatamente 56 cm de altura, talvez ainda um pouquinho mais. Fiquei com medo de que o controle fosse rigoroso o suficiente para me mandar despachar a mala por causa de meio centímetro. Mas eu descobri que a alça da mala era retirável e que as dimensões da mala diminuiam um pouco quando retirada. O problema é que eu precisava de uma chave de fenda para isso. E eu não podia embarcar com uma chave de fenda. Por isso pedi que ele levasse uma chave de fenda e ficasse com ela a postos para o caso de eu precisar de seus serviços. Isso tudo observando de longe, já que só podia entrar quem tivesse passagem. Como (ainda) não era o caso, ele esperou pacientemente até que eu estivesse do outro lado do controle. O que nós não sabíamos é que isso demoraria tanto tempo!

Ainda na fila eu já percebi que a chave de fenda só ia servir pra virar história no blog. Muitas malas, até maiores que a minha às vezes nem entravam na tal caixa e eles deixavam passar do mesmo jeito. Chegando minha vez, coloquei minha mala, que não coube 100%, mas passou, o saquinho com os líquidos separados, a mochila do notebook, o notebook separado, a “bolsa pequena de mão” que devia pesar uns 15 kg, o casaco, o moleton por baixo do casaco, o cinto e quase achei que ia precisar tirar a calça também, mas não chegou a tanto. Passei e o aparelho apitou. Agora tinha que tirar o sapato também, que foi pro raio-x, além de ser revistada. Depois de concluirem que eu não corria o risco de explodir o avião ao pisar mais forte, me deixaram passar. E fui lá juntar minhas coisas que saíam do raio-x. Estava tudo lá, menos a mochila. Comecei a olhar pros lados, vendo se alguém tinha pego “por engano”, mas não encontrei ninguém. Foi aí que uma mulher do controle me chamou. E disse que tinha encontrado uma irregularidade nela e que teríamos que abrir. Ela mostrou no raio-x a imagem de uma aparentemente inocente ferramenta de bicicleta, que poderia até ser confundida com uma régua escolar. Mas não foi. E não passou ilesa aos olhares peritos do pessoal do controle. Me perguntei por que diabos eu tinha colocado a tal ferramenta na bagagem de mão… E a resposta ficou clara quando abrimos a mochila. A bagunça só não era comparável à do meu quarto porque as dimensões da mochila não o permitiam. Mas era quase. A quantidade de coisas diferentes e absurdas que lá estavam deixavam claro que eu tinha terminado de “arrumar” as malas há algumas horas. E pela expressão da funcionária, ela também tinha percebido que encontrar a ferramenta perdida não seria tão fácil como ela supusera. Mas nem eu poderia imaginar que seria tão difícil. Depois de tatear e revirar todo o conteúdo da mochila, esbarrando em coisas como cadeados de bicicleta, lanternas, tomadas e roupas íntimas e causando ainda mais desordem em um sistema que já estava irremediavelmente perdido, a tal ferramenta não foi encontrada. Resolvemos mudar de método, a funcionária agora me ajudando a revirar o conteúdo e como ainda não desse resultado, começãmos a tirar coisas da mochila, tão descuidadosamente arrumada. Tiramos metade das coisas e tateamos novamente, incluindo bolsos externos, internos e compartimentos secretos e ainda não encontramos. Ela passou a mochila novamente pelo raio-x, para ver onde devíamos procurar a ferramenta assassina e vimos que ela ainda estava lá, a despeito da incessante procura. Nova tentativa, abrindo nécessaires, bolsas, estojos e tudo o que pudesse por ventura esconder o objeto do crime. Não encontramos.

Percebi pelos olhos da mulher, agora revelando todo seu desejo de desmascarar um terrorista de verdade, que encontrar a ferramenta perdida tornara-se uma questão de honra. E enquanto metade do meu ser preocupava-se em vigiar o resto da bagagem do outro lado e a outra metade se perguntava a que horas eles serviriam o jantar no avião, percebi que talvez até minhas esperanças no jantar poderiam ser frustradas. E ela, já com um quê de cão perdigueiro, só parou de farejar a mochila quando viu que eu já deveria ter embarcado há cerca de 40 minutos. E depois de considerar longamente as possibilidades de eu provocar um atentado terrorista usando uma chave de bicicleta, resolveu me liberar a contragosto. E eu parti, levando comigo a chave assassina e a permissão de liberdade. Pelo menos teoricamente.

Consegui embarcar a tempo, embora tenha sido uma das últimas pessoas a entrarem a bordo. Espremi a bagagem no compartimentoacima, no banco à frente, ao lado, no colo e onde mais foi possível. E depois de muitas horas de viagem, depois de chegar em casa e tirar toda a bagagem das malas, bolsas e mochilas, pude constatar, num misto de incredulidade e surpresa: A chave não estava lá.





Ainda embarcando

11 02 2010

Com o cartão de embarque nas mãos, fomos aproveitar os minutos que ainda nos restavam e tentar transformas os 50.000 pacotes da bagagem de mão em no máximo três. Teoricamente, eu só poderia embarcar com um de no máximo 5 kg. Mas eu sabia que o pessoal da tam – e de qualquer companhia aérea – não controla a bagagem de mão. O item mais leve devia estar pesando uns 15 kg… Mas não pensem que eu sou assim de todo inconsequente. Eu já tinha ligado pra tam uns dias antes para verificar algumas questões da maior importância na arrumação das malas.

— Esse item de bagagem de mão… É só um item mesmo?

— A senhora pode embarcar com um item e um notebook.

— Ah, entendi… E tem problema se o notebook estiver em uma mochila?

— Não senhora.

— Nem se a mochila for um pouco grande?

— Não senhora.

— Ah, que bom. E se além da mala de mão e da mochila eu levar uma bolsa pequena, tem problema?

— Se for pequena não tem problema não.

— E se não for tão pequena assim?

— Então é melhor você conversar com o atendente do check-in.

— É porque além da mala, do notebook e da bolsa eu preciso levar uma pasta, entende?

— Sim, senhora. Conversa com o atendente do check-in no dia do embarque.

Resolvi nem perguntar dos dois casacos e da outra sacola. O homem já tava ficando nervoso. Mas eu sabia também que não adiantaria nada perguntar pro pessoal do check-in, ainda mais quando eles tinham lá uma placa dizendo que era proibido levar mais de um item como bagagem de mão. E eu sabia que o pessoal do controle estava mais preocupado em encontrar líquidos e explosivos do que em contar o número de itens ou pesar a bagagem. Mas depois de alguns passos com todas as minhas bugigangas, eu descobri que não era nada prático carregar tantos itens. E fui desmembrando as sacolas, colocando a pasta dentro da bolsa, enfiando chocolates onde era possível. No fim das contas acabei deixando um dos casacos pra trás.

Olhei no relógio e vi que nossa esperança de fazer um lanche antes do vôo já tinha entrado na lista de coisas que não foram feitas. Eu não tinha preparado nada pra essa despedida. Deixei tanta coisa com ele que nem deu tempo de pensar em um presente. Nem cartinha nem álbum de fotos nem nada que ele pudesse guardar de lembrança. Não sei se era necessário. Eu já estava deixando grande parte do que foi minha vida na Alemanha. ainda que ele achasse que tudo era lixo. Talvez eu não precisasse de nenhuma despedida tão pomposa. Porque afinal não seria pra sempre. Não seria o último beijo ou o último abraço. Se tudo desse certo, essa viagem seria apenas um breve período que passaríamos separados. Juntos, mas separados, apesar de todos os argumentos racionais e lógicos que diziam exatamente o contrário.

Eu não tinha nenhum discurso bonito nem nada que eu pudesse inventar na hora e fazer com que nos sentíssemos melhor. E meu estado de nervosismo era tão grande que acho que foi melhor não ter nem tentado. Nós já sabíamos tudo o que sentíamos. Já tínhamos feito tantas e tão intensas declarações que qualquer palavra fazia-se inútil e desnecessária e quase que podia estragar tudo. Havia coisas mais importantes para se preocupar. O peso da mochila nas minhas costas, o horário de embarque e a fome que não me deixava pensar em mais nada. Demos um abraço engasgado, um beijo desengonçado com um gosto de choro que não vem, mas que fica ali. Fui pra fila do controle. E por mais que o momento exigisse romantismo, o mais próximo disso que eu conseguia chegar era ao pensar nos corações de chocolate que tinham ficado no bolso do outro casaco….





Embarcando

8 02 2010

Se o mundo fosse um lugar perfeito, aconteceria o seguinte: Eu chegaria no aeroporto, iria para a loja da Tam pegar o bilhete com a nova data, fazia o check-in, tinha tempo de tomar um lanche ou qualquer coisa antes de embarcar, eu que não tinha comido quase nada o dia todo.

Mas como nem tudo sai como a gente quer, pra começar os problemas, as filas não estavam nada convidativas. Eu tinha que ainda pegar o meu novo ticket, porque eu remarquei a passagem, o que acrescentaria uma fila além da do check-in. Fui lá, paguei a taxa e entrei na outra fila. Ele podia ter ajudado, ficando na fila do check-in pra mim, mas não quis. E depois de uns bons minutos em pé, peguei o ticket e fui fazer o check-in. Eu, que tinha pesado as malas antes em casa, sabia que estava passando uns dois quilos em cada mala do peso permitido. Mas, como já tinha ouvido muitas histórias de que às vezes eles não falam nada, resolvi arriscar. A dica era sempre: mulher faz check-in com homem, homem faz check-in com mulher. E parece funcionar. Mas como as filas nem sempre seguem padrões estabelecidos pelos desejos humanos, respeitando leis universais e astrológicas próprias e como o Sol estava em oposição a Mercúrio e brigado com o deus protetor das au-pairs desamparadas, fui atendida por uma mulher. Não é tão ruim assim, pensei, me esforçando para fazer o olhar mais simpático e amigável que eu consegui.

Mas antes mesmo que eu pudesse colocar as malas na balança, comecei a ter problemas com o ticket. Ela olhou o papel e disse: você ainda tem que pagar a taxa de remarcação. E não adiantou eu falar que tinha acabado de fazer isso. Teria que voltar lá na outra fila e só depois fazer o check-in. Eu achei, que ela estaria se referindo a uma outra taxa que alguém da Tam me falou em uma das vezes que eu liguei e que nunca mais tinha sido mencionada. Além da taxa de remarcação eu teria que pagar uma outra taxa de reemissão do bilhete. Mas como há alguns meses eles inventaram uma história de que eu nem podia remarcar a passagem para fevereiro, o que mudava sempre que eu ligava novamente, era de se desconfiar. E lá na outra fila, perguntei sobre a tal taxa. A mulher olhou o bilhete e percebeu que em vez de ter colocado “taxa de remarcação”, colocou “excesso de bagagem”. O que ela fez? Riscou o “excesso de bagagem”, é, de caneta mesmo, e escreveu o certo por cima. E voltei lá no check-in com o bilhete rasurado. Nunca imaginei que fosse tão complicado trocar a data de uma passagem. A coitada da atendente precisou da ajuda de toda a equipe de atendentes e de todos os supervisores e gerentes para conseguir fazer o meu check-in. E depois de mais de uma hora nessas idas e vindas, quando eu finalmente pude colocar as malas na esteira, o que ela me diz?

— Está com excesso de peso. Tem que tirar.

Na verdade não precisava tirar. Eu poderia também pagar uma taxa de excesso de bagagem e ir feliz com todos os meus quilos a mais. Mas ela não me deu essa opção. Talvez tenha olhado pra minha cara de farofeira com a quantidade de sacolas e bolsas de bagagem de mão e chegado à conclusão de que eu não teria dinheiro para pagar a taxa. E não tinha mesmo. E mesmo se tivesse não pagaria. E fui lá pro canto da fila desempacotar minha mala. O bom foi que pensando nessa possibilidade, eu já tinha empacotado mais ou menos de um jeito em que ficava fácil tirar as coisas mais pesadas. Eu disse mais ou menos. Isso porque depois de ter tirado o que eu sabia que era o que estava passando do peso, ele veio, com sua mente matemática e precisa: isso aqui não tem nem 900 gramas. E dizia que eu tinha que tirar mais e mais coisas e que era mais fácil colocar depois do que ter que tirar de novo. Eu que já tinha deixado pra trás ou jogado fora mais de dois terços das minhas coisas, quase entrei em desespero. Algumas coisas não podiam ser tiradas.

E foi no meio de uma dessas discussões se iríamos ou não tirar mais coisas que apareceu uma mulher, provavelmente parente da moça do check-in pela simpatia, mandando a gente sair dali, que não era lugar para arrumar malas. Mas depois de explicada a situação, ela até mostrou umas balanças onde podíamos pesar as malas e evitar um bocado de trabalho. E fiquei feliz de ver que a mente matemática dele não era tão perfeita assim, ao perceber que tínhamos tirado das malas muito mais do que o necessário. Que alegria poder empacotar de novo coisas que eu já até tinha me conformado em abandonar. Não tudo, mas pelo menos uma parte delas. E fui feliz pro check-in, fazendo uma anotação mental para comprar cosméticos assim que chegasse ao Brasil.





Nas Garras da Máfia – Parte IV

6 11 2009

Leia a Parte III aqui

Hotel Residenzia

Prezzo massimo della camera 207: 120 €

Prezzi per persona e giorno con buffet di prima colazione

Li duas ou três vezes, antes de ter certeza do que estava escrito. Até recorri ao meu manual de italiano, mas não era tão necessário para entender o que estava escrito ali. Já tinha visto alguns hotéis colocarem o preço na porta dos quartos, mas o preço afixado costumava coincidir com o que era realmente pago pelo quarto. Naquele caso, o preço afixado era 12 vezes mais alto do que eu teoricamente pagaria. E depois de já ter assinado o termo de compromisso contendo o número do quarto e de noites, o que segundo a moca da recepcao seria  praxe do hotel, depois de ter deixado um documento pessoal  como “garantia”, até que eu fizesse check-out, depois de já estar relativamente instalada no quarto que por sinal era o mesmo do Brédi é que fui me dar conta de que ela não tinha me dado nenhum comprovante, nenhuma conta, nada que comprovasse o preço que ela disse que eu pagaria. Como eu não tinha reserva, não tinha também nada que confirmasse o valor que eu tinha conseguido pelo site. Isso somado à história do hotel inexistente e à facilidade com que o preço abaixou só de mencionar o preço da internet gerava supeitas preocupantes. Antes de começar a viagem, tinha lido algumas histórias de turistas que não eram nada convidativas. Histórias de pessoas que foram a restaurantes que cobraram taxas absurdas, inexistentes no cardápio. Caso os clientes se recusassem a pagar ou reclamasse da conta, o garçom trazia dois seguranças no melhor estilo lutador de jiu-jitsu, que sugeriam sutilmente que era melhor o cliente pagar sem reclamar. E fiquei imaginando se isso seria o caso daquele hotel. Não tinha a menor idéia do que eles poderiam fazer caso  eu me recusasse a pagar. E não era tao divertido ficar imaginando isso. Comecei automaticamente a pensar em todas as rotas de fuga possíveis caso eu precisasse fugir – provavelmente um resquício da minha época de polícia. Já começava a gerar planos mirabolantes e provavelmente a falar sozinha quando ouvi uma voz atrás de mim. Me preparei para virar depressa e sair correndo gritando uma daquelas coisas que a gente só ouve em filmes do sbt: “Você não vai me pegar com vida!”, mas me lembrei de que o Brédi ainda estava lá. E consegui me recompor da síndrome 007 a tempo de responder sem que ele achasse que eu estou louca. O que seria pior do que não escapar com vida. E além de constatar que eu preciso rever minhas prioridades, percebi que ele ficou preocupado quando viu o papel, ainda que não quisesse deixar transparecer.

– Estranho, não?

– O que você acha que pode ser isso?

– Sei lá… Mas eu diria que esse hotel não parece ser nenhuma instituição de caridade.

– Parece ser fachada…

– O que a gente faz? Avisa a polícia?

– E se a polícia for cúmplice?

– Avisa o consulado alemão? – a cena do 007 com o homem sendo perseguido dentro da embaixada não saía da minha cabeça. (não, eu não assisto só Amélie Poulain)

– Nem sei se aqui tem consulado… Grande a cidade não é. E não sei em que isso ajudaria também. Até onde eu sei, aqui ainda é União Européia.

– Você leu alguma coisa sobre esse hotel na internet?

– Pouca coisa. Parecia bom. Barato de qualquer forma.

– E você fez reserva?

– Não. Até tentei, mas as reservas pela internet estavam bloqueadas.

– Então você também não tem um comprovante do preço? – começava a ficar mais preocupada.

– Não.

– Você acha que a gente deve perguntar na recepção, qual é o preço de verdade?

– Não sei se isso ajudaria em alguma coisa…

– O que a gente faz então?

– Quer dar uma volta?

E assim, feliz por ter uma companhia (e que companhia, diga-se de passagem) pra passear na cidade, saímos do hotel fantasma e deixamos as preocupações de lado. Ainda que não por muito tempo.

Continua…





Nas garras da Máfia – Parte III

2 11 2009

Leia a Parte II aqui

Não é exatamente normal que homens bonitos tenham muita influência em mim. Na verdade o mais comum é que aconteça o contrário. Todas as amigas reunidas em um típico encontro a la Luluzinha e uma solta uma dessas:

– Mas o Fulano é um gato, não é?

E entre as minhas reações mais prováveis estão:

1. Quem??? (seguida naturalmente de protestos de todas as outras, por eu não conhecer quem está arrasando os corações femininos nas novelas da vida, que eu naturalmente não assisto)

Depois de reconhecido o assunto do dia, fingir que foi reconhecido ou na hipótese mais improvável de eu saber de quem estão falando, a reação pode ser assim:

2. Ah… Mais ou menos, né? (acompanhada de uma cara de muxoxo por minha parte e caretas de indignação de todas as outras, que se levantam das cadeiras sem acreditar como pode um ser humano do sexo feminino classificar o Fulano como “mais ou menos”. Não pode. E sinto que está ficando perigoso quando elas começam a enumerar todos os motivos que fazem do fulano o bambambam do momento, incluindo na descrição a cena tal ou a foto tal que toda fêmea do planeta teria a obrigação civil, moral e religiosa de ter visto. “Você não acha, Carol?” E é nesse momento, com todas as cabeças voltadas para mim, sem coragem de admitir que o único homem quase famoso cujo dia-a-dia eu acompanho tem cerca de 1,60 de altura, é careca e azarado, e sentindo que a minha resposta pode determinar a sobrevivência ou não de muitas amizades, respondo:

3. Tá bom, tá bom, nessa foto ele tá bonitinho sim – e sentindo a respiração profunda que antecede as batalhas verbais mais perigosas, corrijo a tempo – Bonito. Eu quis dizer bonito (e consigo assim acalmar um pouco os ânimos, mesmo que muitas vezes eu não tenha nem mesmo uma idéia muito clara de quem elas estão falando).

Já aconteceu muitas vezes também o contrário: eu acho um certo homem bonito e comento com uma ou mais amigas, que têm ao mesmo tempo uma reação semelhante a que as pessoas têm quando se imaginam comendo um limão. Com casca. Foi assim que eu descobri toda a minha dificuldade em determinar o grau de beleza masculino. Demorei consideravelmente para descobrir, por exemplo, que meu namorado era bonito. Tive que pedir diversas consultorias e só quando uma dúzia – no mínimo – de pessoas concordou comigo, é que pude ter certeza. São realmente raras as vezes em que minha opinião sobre esse assunto converge com a da maioria da população. E é exatamente esse o caso de  fenômenos da natureza como Brad Pitt e o rapaz do hotel, que vamos chamar aqui de Brédi. Isso explica o estado de espírito em que eu fiquei quando o vi na recepção do hotel. Era como ter encontrado o próprio Brad. O Brédi seria sem sombra de dúvida a reunião de todos os requisitos luluzísticos para determinar se um homem é bonito.

E imaginem agora que, ainda sob o efeito dessa visão, sem ter muita certeza de que aquilo tinha realmente acontecido, eu abro a porta do quarto e vejo, sentado em uma das camas, como se fosse uma miragem, ele, o Brédi, ocupado em esvaziar a mochila. Entro no quarto e ele se vira, me dando um sorriso de boas vindas que apagou por um momento qualquer preocupação relacionada a máfia e hotéis. Já estava valendo a pena ficar hospedada ali. Conversamos um pouco no meu inglês de boteco, até que eu descobri, depois de meia dúzia de palavras, que ele era alemão. Respirei aliviada por não precisar mais queimar meus neurônios no território bretão. E só fui voltar a me preocupar com essa história mal-contada do hotel que não existe quando descobri atrás da porta algo que despertou preocupações muito mais sérias que a determinação do grau de beleza masculina…

Continua…





Nas garras da Máfia – Parte II

31 10 2009

Leia a Parte I aqui

Lá estava ele, no topo da montanha (ou no último andar do prédio, como preferirem). Uma mão na cintura, um braço apoiado no balcão e um charme digno de qualquer galã hollywoodiano. Sozinho, meu Deus, sozinho. Passaram várias coisas pela minha cabeça. Provavelmente eu não tinha resistido à escalada, ao peso e à fome reunidos e meu corpo inerte se encontrava em algum ponto da escada. Eu estava sonhando, estava em outra dimensão, estava no céu, mas aquele homem não tinha condições de pertencer à realidade. Uma voz sutil soprava na minha consciência qualquer coisa sobre um namorado no Brasil enquanto eu caminhava em direção ao balcão, meio abobada, meio flutuando, tentando disfarçar enquanto esperava ser atendida. Vi ele pegando a chave e até tentei ver o número (claro que só por curiosidade), mas não consegui. E a moça do balcão teve que me dar bom dia duas vezes (ou talvez até mais) pra eu perceber que tinha chegado minha vez.

Seguindo o esquema de “viagem flexível”, eu tinha apenas olhado na internet se o hotel tinha vagas e o preço, para decidir depois se eu iria ficar mesmo lá. E só descobri a duras penas que é pura perda de tempo deixar para decidir depois se eu acabo invariavelmente escolhendo o mais barato, algumas vezes a altos custos. E pedi uma cama em um quarto para 4 pessoas.

– Custa 15.

– 15? Mas eu olhei na internet e o preco era 10…

– Ah, tudo bem, 10 então.

Achei estranha a rapidez com que o preço abaixou. Até pensei em pechinchar mais um pouco. Você faz por 5 então? Mas ela não parecia gostar muito de brincadeiras. E achei ainda mais estranho quando ela informou que o café da manhã seria servido naquele andar. Dez euros já era barato. Com café da manhã, era ridículo. Não devia ser verdade. Devia ser, no máximo um copo de café. Sem açúcar. Mas isso eu descobriria no outro dia. Resolvi perguntar então porque a recepção estava sendo feita no outro hotel.

– Ah, os dois hotéis são a mesma coisa…

Se eles fossem a mesma coisa, um não chamaria Residência e o outro Darcy. Se eles eram a mesma coisa e a recepção do hotel Residência, em que eu ficaria hospedada, era sempre feita no Darcy, era como se o Residência não existisse. Não estava cheirando muito bem. E não sei porque, a música tema do Poderoso Chefão não parava de tocar na minha cabeça. Mas eu não imaginava que as coisas só estavam começando.

Continua…