Ainda embarcando

11 02 2010

Com o cartão de embarque nas mãos, fomos aproveitar os minutos que ainda nos restavam e tentar transformas os 50.000 pacotes da bagagem de mão em no máximo três. Teoricamente, eu só poderia embarcar com um de no máximo 5 kg. Mas eu sabia que o pessoal da tam – e de qualquer companhia aérea – não controla a bagagem de mão. O item mais leve devia estar pesando uns 15 kg… Mas não pensem que eu sou assim de todo inconsequente. Eu já tinha ligado pra tam uns dias antes para verificar algumas questões da maior importância na arrumação das malas.

— Esse item de bagagem de mão… É só um item mesmo?

— A senhora pode embarcar com um item e um notebook.

— Ah, entendi… E tem problema se o notebook estiver em uma mochila?

— Não senhora.

— Nem se a mochila for um pouco grande?

— Não senhora.

— Ah, que bom. E se além da mala de mão e da mochila eu levar uma bolsa pequena, tem problema?

— Se for pequena não tem problema não.

— E se não for tão pequena assim?

— Então é melhor você conversar com o atendente do check-in.

— É porque além da mala, do notebook e da bolsa eu preciso levar uma pasta, entende?

— Sim, senhora. Conversa com o atendente do check-in no dia do embarque.

Resolvi nem perguntar dos dois casacos e da outra sacola. O homem já tava ficando nervoso. Mas eu sabia também que não adiantaria nada perguntar pro pessoal do check-in, ainda mais quando eles tinham lá uma placa dizendo que era proibido levar mais de um item como bagagem de mão. E eu sabia que o pessoal do controle estava mais preocupado em encontrar líquidos e explosivos do que em contar o número de itens ou pesar a bagagem. Mas depois de alguns passos com todas as minhas bugigangas, eu descobri que não era nada prático carregar tantos itens. E fui desmembrando as sacolas, colocando a pasta dentro da bolsa, enfiando chocolates onde era possível. No fim das contas acabei deixando um dos casacos pra trás.

Olhei no relógio e vi que nossa esperança de fazer um lanche antes do vôo já tinha entrado na lista de coisas que não foram feitas. Eu não tinha preparado nada pra essa despedida. Deixei tanta coisa com ele que nem deu tempo de pensar em um presente. Nem cartinha nem álbum de fotos nem nada que ele pudesse guardar de lembrança. Não sei se era necessário. Eu já estava deixando grande parte do que foi minha vida na Alemanha. ainda que ele achasse que tudo era lixo. Talvez eu não precisasse de nenhuma despedida tão pomposa. Porque afinal não seria pra sempre. Não seria o último beijo ou o último abraço. Se tudo desse certo, essa viagem seria apenas um breve período que passaríamos separados. Juntos, mas separados, apesar de todos os argumentos racionais e lógicos que diziam exatamente o contrário.

Eu não tinha nenhum discurso bonito nem nada que eu pudesse inventar na hora e fazer com que nos sentíssemos melhor. E meu estado de nervosismo era tão grande que acho que foi melhor não ter nem tentado. Nós já sabíamos tudo o que sentíamos. Já tínhamos feito tantas e tão intensas declarações que qualquer palavra fazia-se inútil e desnecessária e quase que podia estragar tudo. Havia coisas mais importantes para se preocupar. O peso da mochila nas minhas costas, o horário de embarque e a fome que não me deixava pensar em mais nada. Demos um abraço engasgado, um beijo desengonçado com um gosto de choro que não vem, mas que fica ali. Fui pra fila do controle. E por mais que o momento exigisse romantismo, o mais próximo disso que eu conseguia chegar era ao pensar nos corações de chocolate que tinham ficado no bolso do outro casaco….

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Mudaram as Estações

17 10 2009

Outono em Heidelberg

Outono em Heidelberg

Ontem eu remarquei minha passagem. Como nao era possível marcar um vôo com antecedência maior que 10 meses quando eu comprei a passagem no Brasil, tive que marcar a volta pra novembro. E agora, em outubro, depois de ter certeza de que eu nao vou mesmo mudar de família de novo, achei que já era hora de remarcar. Pra fevereiro, como planejado. E me veio, pela primeira vez, a sensacao de que eu vou embora. Agora, quando faltam mais de três meses pra isso acontecer. Mesmo que isso sempre tenha sido planejado, nunca tinha percebido tao claramente que um dia eu ia voltar. Agora que as árvores se tingem desse alaranjado que eu sempre achava tao bonito nos filmes e que anuncia a chegada do inverno. Agora que eu nao posso mais usar saias e vestidos e preciso de cachecol e luvas e protetor de orelha pra andar de bicicleta. Agora que as lojas já se enchem de guirlandas e renas e velas de canela e que as criancas aguardam ansiosas pela primeira neve. Para mim, que cheguei aqui no inverno, isso tem um significado muito maior. E sempre que eu esqueco minhas luvas em casa me vem a lembranca nítida de todo o frio que passei nas minhas primeiras pedaladas antes de comprar um par de luvas decentes. E eu nao posso deixar de sentir (literalmente) na pele que o fim está chegando. Nao posso deixar de pensar que mais cedo ou mais tarde eu vou largar a família, a bicicleta, a cidade e todos os amigos e hábitos que eu conquistei durante esses meses. E que vou voltar pra família, pra bicicleta, pra cidade, pros amigos e hábitos que eu deixei no Brasil.

O chato é que eu ainda nao descobri até agora se isso é bom ou ruim.





Pós Aniversário

18 09 2009

Foi bom, no fim das contas. Apesar da manha cinza e vazia, o dia foi se preenchendo de muitas cores e sabores mais que coloridos. Um amigo, talvez o único aqui, me convidou pra tomar café da manha às 2 da tarde, às 4 minha família preparou uma festinha bem no estilo alemao pra mim, com bolo feito em casa, velinhas e suco de maca. Ganhei um curso de tango de 8 semanas, um romance sobre danca e dois ingressos para uma apresentacao do Cirque du Soleil em novembro, já com as passagens de trem. Conversei longamente com minha Gast, como amiga. Contamos histórias, trocamos confidências e ela me deu alguns conselhos que serao certamente úteis. Fui dancar à noite e, como tradicao da danca, ganhei uma “Valsa”, que na verdade nao é valsa, é tango, mas uma música em que todos os homens dancam com a aniversariante. E apesar da vergonha de dancar na frente de todo mundo e da sensacao de estar errando todos os passos, foi bom. Cheguei em casa cansada e com a sensacao de ter aproveitado bem o dia.

Quanto às mudancas que o aniversário sempre me reserva, dessa vez nao foi diferente. E as mudancas que se alinham agora talvez mudem definitivamente o curso da minha história. Mas talvez seja melhor assim. E nao tenho como saber se nao tentar. Se eu vou contar? Aí já é outra história…





23

17 09 2009

Queria escrever um post bonito e animado sobre o dia de hoje. Queria falar da festa que vou fazer, dos amigos que vou encontrar, dos presentes que vou ganhar, dos telefonemas que vou receber. Queria falar que apesar do frio que fez toda a semana e da chuva que caiu, o sol brilhou hoje mais forte e eu acordei com uma vontade imensa de abracar o mundo todo, tamanha a minha felicidade. Queria falar que meu amor me trouxe café da manha na cama e que me acordou cantando baixinho no meu ouvido. E que minha família me recebeu com abracos, surpresas e presentes. E que eu encontrei com cada um dos amigos de quem eu sinto tanta falta agora. Mas nao posso.

Hoje nao tem festa, nao tem amigos, nao tem presentes. Hoje o dia amanheceu nublado e feio como todos os outros dessa semana e nao tem nenhum indício de que hoje seja um dia especial pelo menos para uma pessoa nesse planeta. Hoje eu acordei triste e me senti sozinha e abandonada.

Os amigos que eu tanto queria encontrar nao existem aqui. E nao tem ninguém que eu pudesse convidar se resolvesse fazer uma festa. Mas nao tem festa. E sinceramente nao sei bem se quero comemorar.

Recebi várias mensagens de amigos meus que resolveram falar ao mesmo tempo o quanto gostam de mim, o quanto sentem minha falta e que perguntam quando eu vou voltar. E pela primeira vez em todo esse tempo, tenho vontade de responder: hoje. E de entrar no primeiro aviao para o Brasil só pra dar um abraco apertado em cada um deles. E poder dizer pessoalmente o quanto eu gosto deles também. Mas eu nao posso.

Vou ter que esperar cinco meses ainda até que isso possa acontecer. E usar, enquanto isso, as ferramentas que eu tenho pra falar com eles. E esse blog é talvez a principal delas.

Obrigada a todos vocês que me escreveram. Obrigada pelo carinho que têm demonstrado. Obrigada por serem sempre, apesar de toda essa distância, tao amigos. E obrigada acima de tudo por me lembrarem que eu tenho sim, afinal de contas, algo que comemorar. Amo vocês.





De cafés e amizades

10 07 2009

Às vezes incomoda tanto nao ter alguém pra conversar sobre as coisas mais sérias e mais banais, pra abracar quando se está triste ou apenas carente, pra encontrar a qualquer hora e sorrir sem medo de ser mal interpretada, e se expressar livremente, sem as barreiras e as vergonhas que tanto limitam e emperram. Tive a sorte aqui de poder contar com alguns bons amigos que passaram e deixaram boas lembrancas. A primeira, que merecia um post só pra ela como eu tinha prometido, mas que acabou sendo engolida por todos os outros acontecimentos que embora nao mais importantes, tomaram algum tempo, é a Mayara. A Mayara foi por algum tempo, nao tao longo como eu gostaria, uma grande amiga, sempre presente seja para conversar, reclamar do trabalho escravo ou simplesmente fazer compras. Uma amiga de muito boas risadas. Mas, como vocês devem se lembrar, nós apenas nos conhecemos porque ela já estava com o vôo marcado de volta pro Brasil. E tivemos apenas pouco mais de dois meses de contato antes dela ir embora. No último mês dela aqui, como o trabalho dela era muito mais escravo do que o meu, conseguimos nos encontrar apenas uma vez, apesar das tentativas e planos de por exemplo irmos pra Mannheim juntas. Mas era pelo menos alguém com quem eu sempre podia contar em meus planos, ainda que esses nao fossem concretizados. Foi bom enquanto durou. Mas vou sentir saudades de alguém pra brincar de casinha, pra se dobrar de rir de qualquer história sem graca só pelo mineirês do sotaque, pra conversar ora em português ora em alemao, conforme faltem as palavras de uma ou outra língua. Aprendi muita coisa com ela. Nao só as coisas que ela tinha pra me contar sobre a Alemanha e as experiências dela aqui, mas coisas sobre o Brasil que eu nao imaginava. Além de algumas expressoes idiomáticas bastante… peculiares, como negrinho e mumu, por exemplo. Juntando isso com o vocabulário sulista que eu já conhecia, o resultado é uma frase com significado muito mais inocente do que a mente impura do leitor é capaz de conceber. Se eu dissesse por exemplo que peguei o cacetinho e fiz mumu com o rabo quente enquanto ele comia o negrinho, o leitor certamente iria pensar que eu mudei o estilo literário e resolvi escrever romances pornos. Talvez por isso que os gaúchos tenham toda essa fama. Às vezes eles sao apenas mal interpretados… Mas vou deixar a sua imaginacao inferir os possíveis significados da frase que fica aqui sem traducao. Alguém se habilita?

Mas o fato de a Mayara ser gaúcha, traz alguns problemas muito além das diferencas linguísticas. É engracado pensar como a gente conhece algumas pessoas. Como que a gente veio se conhecer justo aqui na Alemanha… Agora que ela está no Brasil, estamos bem distantes, assim como estou distante de tantos amigos. A diferenca é que quando eu voltar pro Brasil, esses amigos estarao todos de novo perto. A Mayara nao. E uma viagem para encontrá-la levaria mais tempo de ônibus do que o que eu gastaria no meu vôo de volta pra casa, contando tempos de conexao e espera no aeroporto. E isso é alguma coisa. Foi por isso que ao me despedir dela, nao foi uma despedida normal de “a gente se vê daqui a alguns meses”. Nao sei quando ou se vou encontrá-la de novo e isso fez com que a despedida fosse muito mais triste. E de certa forma, às vezes parece mais fácil e mais plausível que a gente volte a se encontrar na Alemanha do que no Brasil, onde tudo é tao longe.  Claro que quero vê-la novamente e devo tentar fazer isso no Brasil, viajar para se encontrar ou qualquer coisa assim, o que nao seria má idéia. Mas é muito incerto pensar nisso. Depois que ela foi embora, ficou de certa forma um vazio, como se eu nao soubesse mais como preencher minhas horas livres ou nao soubesse no mínimo como planejá-las. É claro que tenho outros amigos além dela, mas é diferente. A maioria dos meus amigos eu conheci nas aulas de danca, ou seja, dancando. E como na danca de salao o normal é que as mulheres dancem com homens – a nao ser em caso de escassez extrema de homens no mercado, quando é possível ver mulheres dancando juntas – embora a recíproca nao seja verdadeira e em caso de escassez de mulheres é possível ver no máximo vários homens dancando sozinhos – e considerando que na minha aula de danca há quase sempre o mesmo número de mulheres e de homens, é possível inferir que meus amigos sao praticamente só homens. O que torna as coisas um pouquinho mais complicadas.

Uma das licoes do Grande Manual de Relacionamentos da Alemanha diz que quando um homem está interessado em uma mulher ele nao pode chegar atacando logo de cara, como acontece no Brasil. Eles precisam se conhecer primeiro, o que acontece normalmente através de um simples e inocente café. O homem chega para a mulher e pergunta: – Você gostaria de tomar um café comigo? (o que nao precisa ser necessariamente um café, pode ser capuccino, chocolate, suco e até mesmo água, mas a pergunta mágica é sempre a mesma) Dependendo do café, se foi bom pros dois ou nao, eles podem repetir a dose, com um outro café na próxima semana, por exemplo e assim sucessivamente, até que os dois se conhecam o suficiente e tenham certeza da reciprocidade dos sentimentos. Isso dura em média uns 5 cafés, o que vai depender da frequência com que o casal em questao se encontra, podendo variar de uma semana a dois meses. O engracado é que entre esses cafés, enquanto ainda nao se tem certeza do que vai dar essa relacao, eles dificilmente vao tentar algo além dos cafés. Entao é muito comum acontecer de um alemao chamar a menina pra ir na casa dele – lembrando que aqui a partir dos 18 anos o normal é morar sozinho – e eles ficarem jogando dominó, assistindo televisao, conversando, sem que nenhuma sugestao além seja feita, nenhum contato físico seja estabelecido. Até o momento em que eles se sentem confiantes o suficiente para chamá-la para, digamos, tomar um café no quarto.

Apesar de saber de tudo isso, sempre foi difícil pra mim aceitar tomar um café com alguém. Nao necessariamente esse café significaria um interesse explícito. Poderia ser sim, apenas um início de amizade e mesmo que nao fosse, dificilmente eu correria o risco de ser atacada no primeiro café. Mas saber que esse é o primeiro passo de todo esse ritual de acasalamento, fez com que eu sempre recusasse os cafés, inventasse uma desculpa, falasse que nao tinha vontade. E sendo todas as pessoas com que eu mais tinha contato homens, a conclusao óbvia é que eu fiquei sem amigos.

Sempre achei que isso seria fácil, ficar sozinha. Nao imaginava que seria tao doloroso ter o tempo livre e nao ter o que fazer com ele além de fazer compras, ficar com a família – o que acaba equivalendo a trabalho – ou simplesmente ficar sozinha. Tive a felicidade que acho que nem todos que saem do Brasil têm de receber algumas visitas brasileiras. Quando a Renata e a Nat passaram por aqui, ainda que tenha sido por tao pouco tempo, deixaram comigo essa sensacao gostosa que a gente tem quando percebe que é querida e que existem pessoas no mundo pra quem a gente é importante. Mas elas vieram e se foram e com elas essa sensacao também. Estava bastante deprimida até algum tempo atrás, quando os meus amigos e a minha família do Brasil resolveram meio que esquecer que eu existo. A questao é que pra mim é muito mais fácil – em outras palavras muito mais barato – telefonar pro Brasil do que o contrário, o que significa que sou sempre eu quem ligo pra lá e de certa forma sou a responsável por manter contato com eles. Mas eu gosto também de saber que meus amigos se preocupam comigo e adoro quando eles escrevem um e-mail, deixam um comentário, um recado, ou até em alguns casos bem esparsos, me ligam. E foi numa época assim, em que eu estava totalmente sozinha e deprimida, me sentindo a última pessoa da terra da batata, que todos ao mesmo tempo resolveram esquecer que eu existo. Nenhum e-mail, nenhum recado, nenhuma alma viva pra ler os meus desabafos no blog. Telefonema? Nem sabia mais como era o toque do meu telefone… Foi numa dessas que eu dei por mim e percebi que já era hora de aceitar tomar alguns cafés.

E acabei descobrindo um outro lado da vida na Alemanha: os alemaes. E nao só os alemaes, mas os italianos, americanos e até chineses, que frequentam o curso de alemao. Foi só aceitar tomar um café que todos os meus colegas e até alguns professores resolveram comecar a sair e marcar vários encontros. E eu fui junto. E agora resolvi seguir um dos mandamentos da Nat para intercâmbios bem-sucedidos: “Aceite ir pra qualquer lugar que te chamarem, mesmo que seja na padaria da esquina”. Pra qualquer lugar nao sei se aceitaria, mas por tudo que eu já vivenciei só nesse tempinho, devo dizer que a Alemanha tem coisas muito mais interessantes que padarias…