Nas Garras da Máfia – Parte IV

6 11 2009

Leia a Parte III aqui

Hotel Residenzia

Prezzo massimo della camera 207: 120 €

Prezzi per persona e giorno con buffet di prima colazione

Li duas ou três vezes, antes de ter certeza do que estava escrito. Até recorri ao meu manual de italiano, mas não era tão necessário para entender o que estava escrito ali. Já tinha visto alguns hotéis colocarem o preço na porta dos quartos, mas o preço afixado costumava coincidir com o que era realmente pago pelo quarto. Naquele caso, o preço afixado era 12 vezes mais alto do que eu teoricamente pagaria. E depois de já ter assinado o termo de compromisso contendo o número do quarto e de noites, o que segundo a moca da recepcao seria  praxe do hotel, depois de ter deixado um documento pessoal  como “garantia”, até que eu fizesse check-out, depois de já estar relativamente instalada no quarto que por sinal era o mesmo do Brédi é que fui me dar conta de que ela não tinha me dado nenhum comprovante, nenhuma conta, nada que comprovasse o preço que ela disse que eu pagaria. Como eu não tinha reserva, não tinha também nada que confirmasse o valor que eu tinha conseguido pelo site. Isso somado à história do hotel inexistente e à facilidade com que o preço abaixou só de mencionar o preço da internet gerava supeitas preocupantes. Antes de começar a viagem, tinha lido algumas histórias de turistas que não eram nada convidativas. Histórias de pessoas que foram a restaurantes que cobraram taxas absurdas, inexistentes no cardápio. Caso os clientes se recusassem a pagar ou reclamasse da conta, o garçom trazia dois seguranças no melhor estilo lutador de jiu-jitsu, que sugeriam sutilmente que era melhor o cliente pagar sem reclamar. E fiquei imaginando se isso seria o caso daquele hotel. Não tinha a menor idéia do que eles poderiam fazer caso  eu me recusasse a pagar. E não era tao divertido ficar imaginando isso. Comecei automaticamente a pensar em todas as rotas de fuga possíveis caso eu precisasse fugir – provavelmente um resquício da minha época de polícia. Já começava a gerar planos mirabolantes e provavelmente a falar sozinha quando ouvi uma voz atrás de mim. Me preparei para virar depressa e sair correndo gritando uma daquelas coisas que a gente só ouve em filmes do sbt: “Você não vai me pegar com vida!”, mas me lembrei de que o Brédi ainda estava lá. E consegui me recompor da síndrome 007 a tempo de responder sem que ele achasse que eu estou louca. O que seria pior do que não escapar com vida. E além de constatar que eu preciso rever minhas prioridades, percebi que ele ficou preocupado quando viu o papel, ainda que não quisesse deixar transparecer.

– Estranho, não?

– O que você acha que pode ser isso?

– Sei lá… Mas eu diria que esse hotel não parece ser nenhuma instituição de caridade.

– Parece ser fachada…

– O que a gente faz? Avisa a polícia?

– E se a polícia for cúmplice?

– Avisa o consulado alemão? – a cena do 007 com o homem sendo perseguido dentro da embaixada não saía da minha cabeça. (não, eu não assisto só Amélie Poulain)

– Nem sei se aqui tem consulado… Grande a cidade não é. E não sei em que isso ajudaria também. Até onde eu sei, aqui ainda é União Européia.

– Você leu alguma coisa sobre esse hotel na internet?

– Pouca coisa. Parecia bom. Barato de qualquer forma.

– E você fez reserva?

– Não. Até tentei, mas as reservas pela internet estavam bloqueadas.

– Então você também não tem um comprovante do preço? – começava a ficar mais preocupada.

– Não.

– Você acha que a gente deve perguntar na recepção, qual é o preço de verdade?

– Não sei se isso ajudaria em alguma coisa…

– O que a gente faz então?

– Quer dar uma volta?

E assim, feliz por ter uma companhia (e que companhia, diga-se de passagem) pra passear na cidade, saímos do hotel fantasma e deixamos as preocupações de lado. Ainda que não por muito tempo.

Continua…





Nas garras da Máfia – Parte III

2 11 2009

Leia a Parte II aqui

Não é exatamente normal que homens bonitos tenham muita influência em mim. Na verdade o mais comum é que aconteça o contrário. Todas as amigas reunidas em um típico encontro a la Luluzinha e uma solta uma dessas:

– Mas o Fulano é um gato, não é?

E entre as minhas reações mais prováveis estão:

1. Quem??? (seguida naturalmente de protestos de todas as outras, por eu não conhecer quem está arrasando os corações femininos nas novelas da vida, que eu naturalmente não assisto)

Depois de reconhecido o assunto do dia, fingir que foi reconhecido ou na hipótese mais improvável de eu saber de quem estão falando, a reação pode ser assim:

2. Ah… Mais ou menos, né? (acompanhada de uma cara de muxoxo por minha parte e caretas de indignação de todas as outras, que se levantam das cadeiras sem acreditar como pode um ser humano do sexo feminino classificar o Fulano como “mais ou menos”. Não pode. E sinto que está ficando perigoso quando elas começam a enumerar todos os motivos que fazem do fulano o bambambam do momento, incluindo na descrição a cena tal ou a foto tal que toda fêmea do planeta teria a obrigação civil, moral e religiosa de ter visto. “Você não acha, Carol?” E é nesse momento, com todas as cabeças voltadas para mim, sem coragem de admitir que o único homem quase famoso cujo dia-a-dia eu acompanho tem cerca de 1,60 de altura, é careca e azarado, e sentindo que a minha resposta pode determinar a sobrevivência ou não de muitas amizades, respondo:

3. Tá bom, tá bom, nessa foto ele tá bonitinho sim – e sentindo a respiração profunda que antecede as batalhas verbais mais perigosas, corrijo a tempo – Bonito. Eu quis dizer bonito (e consigo assim acalmar um pouco os ânimos, mesmo que muitas vezes eu não tenha nem mesmo uma idéia muito clara de quem elas estão falando).

Já aconteceu muitas vezes também o contrário: eu acho um certo homem bonito e comento com uma ou mais amigas, que têm ao mesmo tempo uma reação semelhante a que as pessoas têm quando se imaginam comendo um limão. Com casca. Foi assim que eu descobri toda a minha dificuldade em determinar o grau de beleza masculino. Demorei consideravelmente para descobrir, por exemplo, que meu namorado era bonito. Tive que pedir diversas consultorias e só quando uma dúzia – no mínimo – de pessoas concordou comigo, é que pude ter certeza. São realmente raras as vezes em que minha opinião sobre esse assunto converge com a da maioria da população. E é exatamente esse o caso de  fenômenos da natureza como Brad Pitt e o rapaz do hotel, que vamos chamar aqui de Brédi. Isso explica o estado de espírito em que eu fiquei quando o vi na recepção do hotel. Era como ter encontrado o próprio Brad. O Brédi seria sem sombra de dúvida a reunião de todos os requisitos luluzísticos para determinar se um homem é bonito.

E imaginem agora que, ainda sob o efeito dessa visão, sem ter muita certeza de que aquilo tinha realmente acontecido, eu abro a porta do quarto e vejo, sentado em uma das camas, como se fosse uma miragem, ele, o Brédi, ocupado em esvaziar a mochila. Entro no quarto e ele se vira, me dando um sorriso de boas vindas que apagou por um momento qualquer preocupação relacionada a máfia e hotéis. Já estava valendo a pena ficar hospedada ali. Conversamos um pouco no meu inglês de boteco, até que eu descobri, depois de meia dúzia de palavras, que ele era alemão. Respirei aliviada por não precisar mais queimar meus neurônios no território bretão. E só fui voltar a me preocupar com essa história mal-contada do hotel que não existe quando descobri atrás da porta algo que despertou preocupações muito mais sérias que a determinação do grau de beleza masculina…

Continua…





Nas garras da Máfia – Parte II

31 10 2009

Leia a Parte I aqui

Lá estava ele, no topo da montanha (ou no último andar do prédio, como preferirem). Uma mão na cintura, um braço apoiado no balcão e um charme digno de qualquer galã hollywoodiano. Sozinho, meu Deus, sozinho. Passaram várias coisas pela minha cabeça. Provavelmente eu não tinha resistido à escalada, ao peso e à fome reunidos e meu corpo inerte se encontrava em algum ponto da escada. Eu estava sonhando, estava em outra dimensão, estava no céu, mas aquele homem não tinha condições de pertencer à realidade. Uma voz sutil soprava na minha consciência qualquer coisa sobre um namorado no Brasil enquanto eu caminhava em direção ao balcão, meio abobada, meio flutuando, tentando disfarçar enquanto esperava ser atendida. Vi ele pegando a chave e até tentei ver o número (claro que só por curiosidade), mas não consegui. E a moça do balcão teve que me dar bom dia duas vezes (ou talvez até mais) pra eu perceber que tinha chegado minha vez.

Seguindo o esquema de “viagem flexível”, eu tinha apenas olhado na internet se o hotel tinha vagas e o preço, para decidir depois se eu iria ficar mesmo lá. E só descobri a duras penas que é pura perda de tempo deixar para decidir depois se eu acabo invariavelmente escolhendo o mais barato, algumas vezes a altos custos. E pedi uma cama em um quarto para 4 pessoas.

– Custa 15.

– 15? Mas eu olhei na internet e o preco era 10…

– Ah, tudo bem, 10 então.

Achei estranha a rapidez com que o preço abaixou. Até pensei em pechinchar mais um pouco. Você faz por 5 então? Mas ela não parecia gostar muito de brincadeiras. E achei ainda mais estranho quando ela informou que o café da manhã seria servido naquele andar. Dez euros já era barato. Com café da manhã, era ridículo. Não devia ser verdade. Devia ser, no máximo um copo de café. Sem açúcar. Mas isso eu descobriria no outro dia. Resolvi perguntar então porque a recepção estava sendo feita no outro hotel.

– Ah, os dois hotéis são a mesma coisa…

Se eles fossem a mesma coisa, um não chamaria Residência e o outro Darcy. Se eles eram a mesma coisa e a recepção do hotel Residência, em que eu ficaria hospedada, era sempre feita no Darcy, era como se o Residência não existisse. Não estava cheirando muito bem. E não sei porque, a música tema do Poderoso Chefão não parava de tocar na minha cabeça. Mas eu não imaginava que as coisas só estavam começando.

Continua…