Sem surpresas

31 01 2010

Minha maior referência em intercâmbios, desde que eu comecei a pensar em me aventurar por essas terras incertas, sempre foi a Nat. Pra quem não sabe, a Nat, além de uma grande amiga e fiel leitora, foi a primeira amiga e acho que a primeira da nossa turma a morar fora do país. Acredito que essa onda de intercâmbio seja um pouco mais recente… Hoje da nossa turma uns já foram pra Inglaterra, pros EUA, uns pra Alemanha, um ainda está no Japão e tem uns e outros querendo ir pro Canadá… Isso hoje. Na época, a viagem da Nat foi a notícia do ano. Um ano no México, que precisou de alguns preparativos, entre cartas, abraços, surpresas, lágrimas, presentes e muitas, muitas comemorações. Intercâmbio pra mim sempre esteve intimamente ligado a festas. De preferência surpresa. Tinha que ter a festa de despedida, organizada secretamente pela família, com uma lista em ordem alfabética dos amigos convidados, com direito a presentes e surpresas cuidadosamente preparadas pelos mesmos. Tinha que ter o maior número possível de amigos, parentes, vizinhos e bichos de estimação acompanhando até o aeroporto – de preferência com mais presentes e surpresas… A Nat teve a sorte de ter uma mãe com uma mente altamente capacitada para a organização de festas surpresa. O método: saber o nome do melhor amigo e o telefone dele. Distribuir tarefas. Dar alguns telefonemas. Pronto. Simples e eficiente. Já a minha mãe, coitada, na única vez que ela tentou organizar uma festa surpresa pra mim – depois de eu durante anos quase implorar por isso – chamou meu namorado num canto – o que já é de se desconfiar – e disse em alto e bom tom: “Mês que vem é aniversário da Carol. O que a gente vai fazer?”. Eu até tentei ajudar, chegando a fazer lista de convidados, decidindo o lugar e a decoração… Mas a festa, que só era surpresa pros organizadores dela teve além da família – leia-se: pessoas que moram comigo, tirando um ou dois que nem estavam presentes – um único amigo e o tal namorado. Não sei nem se pode ser considerada. Mas valeu a intenção. Considerando o histórico familiar, eu não estava exatamente contando com uma festa surpresa antes da minha viagem para cá. Acabei organizando pessoalmente a festa, as despedidas e tudo mais. Foi bom, no fim das contas. Mas hoje, às vésperas de voltar para o Brasil, ainda não consigo deixar de pensar nas festas da Nat como referência… Lembro da recepção no aeroporto… Metade das pessoas no saguão devia ser parentes da Nat. A outra metade, amigos. E a outra metade (sim, tem mais de duas), vizinhos. E a quarta metade repórteres e curiosos atraídos pela multidão. A mente de agente secreto da mãe da Nat fez com que ela pudesse organizar tudo mesmo tendo ido buscar a filha no México. A organização incluía, além da festa, já devidamente preparada, com DJ, buffet e uma lista de convidados condizente com o nome “festa”, um ônibus para transporte dos convidados, presentes e buquês gigantescos, que faziam o nosso vasinho de crisântemos ficar até com vergonha. Pelo menos é o que eu me lembro. Claro que algumas coisinhas contribuíram para isso: a gente estar de férias (estava, não estava?) e a chegada ser no aeroporto da Pampulha contribuíram bastante pro número de pessoas que compareceu. Ou no mínimo é esse o meu consolo quando eu penso que a minha partida foi acompanhada de três ou quatro pessoas, assim como a volta provavelmente vai ser. Hoje, faltando três dias para minha chegada, não me dou ao luxo de esperar nem metade do que esperou pela Nat. Também seria bastante improvável que em uma quarta-feira de manhã as pessoas – ainda que sejam amigos tão queridos – saiam do conforto de suas camas e viajem até os confins de um lugar distante para esperar uma menina descabelada e cansada da viagem de 16 horas que traz como única riqueza um saco de moedas – de chocolate… Mas é claro que eu não posso deixar de ficar feliz ao descobrir que um e outro amigo vão estar lá para abraçar a amiga descabelada. E mesmo não podendo deixar de sentir uma pontinha de inveja da Nat, mesmo sabendo que minha recepção não será nem metade do que a dela foi, não posso deixar de esperar que seja pelo menos um quinto. E mal posso esperar pelos abraços, mesmo poucos, mas sinceros, que estão me esperando.





Famílias

24 01 2010

O que dizer? Sei que está ficando repetitivo eu contar que estou arrumando as malas e tal. Mas não tem muito mais o que dizer. Os últimos dias passaram tão depressa que me assustei ao descobrir que em menos de duas semanas eu chegarei no Brasil. E me assustei mais ainda ao abrir a carteira e descobrir que au-pairs realmente não conseguem ficar ricas. Pelo contrário. E mesmo tendo algumas outras novidades, fica difícil pensar em outra coisa que não seja essa viagem. A sensação, o frio na barriga, é mais ou menos o mesmo que eu senti antes de vir pra cá. A sensação de descobrir um mundo novo, de não saber ao certo como vai ser o meu futuro e minha vida nesse outro mundo. Planejar, é claro que eu planejo. Da mesma forma que planejei antes de vir. Mas vocês como bons leitores sabem que as coisas não saíram exatamente do jeito que eu havia previsto. Melhor, talvez, mas diferente. Imprevisível. E nada impede que aconteça exatamente o mesmo. Depois de tanto tempo aqui, algumas coisas ainda me surpreendem. Como a gente pode se apegar a algumas pessoas a ponto de quase não querer mais ir embora. Como que algumas podem ser tão simpáticas e agradáveis apenas sendo exatamente como elas são. E como outras, ao contrário, podem ser antipáticas a ponto de não cumprimentarem alguém que praticamente mora na mesma casa. Como os valores podem ser diferentes. Como pessoas que recebem por dia mais do que eu em um mês inteiro podem negar um valor que não representa mais do que um par de horas para alguém que dedicou tantas e tantas horas a eles. Muitas vezes de graça. E como pessoas que precisam trabalhar dias, semanas para conseguir esse mesmo valor, o entregam sem pedir nada em troca. É nessas horas que percebo o quanto que valem a amizade e o carinho sinceros. Gostar de alguém sem saber explicar o porquê. Estar com alguém porque quer, não por ser obrigado a fazê-lo. Presentear com gosto, de coração. E é nessas horas que percebo que por mais que eu goste deles e que eles digam que gostem de mim, nunca, nunca cheguei nem perto de fazer parte da família deles. E nem eles da minha. Pra isso eles teriam que comer muito arroz com feijão!





Arrumando as malas

17 01 2010

… E de repente eu começo a arrumar as malas. A separar o que vai, o que fica, o que vai pro lixo. A sensação de contagem regressiva é cada vez mais forte. E está tão perto que nada mais parece valer a pena. Mas como vale! De repente faço tudo como se fosse a última vez. E já nem reclamo do frio, da neve, de ter que acordar cedo, de trabalhar muito. Porque eu sei o quanto vou sentir falta disso tudo. Passei a relevar muita coisa. E minha família nem reclama mais quando me vêem assim com um ar meio perdido. Ou até pensam em falar alguma coisa, mas se lembram e suspiram. E de repente ninguém tem nada mais a dizer porque nada do que for dito poderá mudar o que já é. Eles queriam que eu ficasse. Ele queria que eu ficasse. E eu… Ah! Eu queria poder ser duas e não precisar escolher. Mas a vida é feita de escolhas. E essa foi uma decisão tomada há muito tempo.  Não, eu não vou voltar atrás. Ou melhor, vou. Vou voltar, como prometido. Ainda que seja apenas por um tempo suficiente para atar os fios soltos. Mas fiquem tranquilos que com o emaranhado de linhas que deixei no Brasil, vocês vão ter Carol o bastante para matar a saudade, se cansar e mandar de volta. Ou não.





Contagem regressiva

3 01 2010

Quando eu penso no ano que se passou, não consigo conceber que tudo o que eu vivi aconteceu em apenas um ano.

Em um ano vivi em quatro famílias diferentes, em um país e uma cultura muito mais estranhos do que eu imaginava. Aprendi a gostar de criança, desisti de ter filhos tão cedo e descobri coisas sobre mim mesma que de nenhuma outra forma eu descobriria. Conheci muita gente, amigos que vieram e se foram, pessoas que me marcaram para uma vida toda, pessoas que duraram apenas uma dança. E uma que me faz querer ficar aqui pra sempre. Entre aventuras, coincidências, eventos imprevisíveis, bolos de cenoura, viagens inusitadas e histórias indizíveis, apesar de todos os pesares, apesar de todas as dificuldades que eu tive no começo e de todas as pedras no caminho, posso dizer que 2009 foi um dos melhores anos da minha vida. E mesmo que alguns fatores me façam quase desistir de ir embora, existe também a saudade, existem os amigos e a família e um milhão de coisas para serem resolvidas no Brasil. Existe a promessa de que eu voltaria. E eu vou voltar. Mas eu preciso dizer que esse inverno, esse final de ano foi marcado pelo sentimento de que o tempo está acabando. O Reveillon foi regado a tango, fogos de artifício, beijos e lágrimas sinceras, por sentir que eu estou abandonando muito mais do que a Alemanha. Estou deixando uma parte da minha vida aqui.

A partir de hoje, começa a contagem regressiva. Dentro de exatamente um mês eu vou estar chegando naquele mesmo aeroporto de onde saí um ano atrás, entre abraços e olhares tristes. O meu olhar hoje talvez não esteja tão feliz como eu há alguns meses imaginei que estaria. Mas é um olhar certamente diferente do que eu tinha, com muito mais vivências, muito mais emoções. De certa forma, era isso o que eu queria. Aprender a ver o mundo com outros olhos. E só o fato de ter conseguido isso, faz com que eu possa dizer, apesar de toda e qualquer consequência: Valeu a pena!

Desejo a todos vocês um ano repleto de experiências novas e enriquecedoras. Que 2010 possa ser ainda melhor do que o ano que passou.





Natal Branco

24 12 2009

Sempre quis ter o gostinho de ter um “Natal branco”, como dizem os alemães. Como a gente vê nos filmes. Um tapete branquinho e macio se estendendo no jardim onde a gente pode modelar as formas mais variadas possíveis. A sensação de estar quentinho em casa, a árvore acesa, as ruas escuras, e os flocos de neve caindo mansinho lá fora. Um Natal onde o Papai Noel não precisa inventar desculpas pra andar tão agasalhado. E que a árvore é um pinheiro de verdade, buscado na floresta. Tudo parece fazer mais sentido assim.

Esse ano, porém, o clima de Natal veio um pouco antes do esperado. Há uma semana, as ruas estavam branquinhas, as crianças saíram no quintal e bombardeavam os adultos desavisados com a munição branca e gelada, os adultos se reuniram na praça para tomar vinho quente com canela, as famílias assaram mais biscoitos de natal para deixarem as casas ainda mais aconchegantes. E a esperança de todo mundo era que essa semana se prolongasse por mais alguns dias, e que a troca de presentes, a ceia, as músicas ao piano pudessem ser coroada por alguns floquinhos de neve dançando pela janela.

Mas não foi possível. Alguns dias depois dos dias mais frios da minha vida, que chegaram a cerca de -15ºC, o sol voltou, o vento parou, o tempo esquentou e a neve, ah! a neve… não resistiu ao calor repentino de +9ºC. Quase verão.

Agora, no Natal, está frio, sim. Mas da neve só ficaram algumas poças rasas, alguma sujeira nos sapatos e a vontade de um Natal branquinho, que ainda não passou.

Mas, já que eu não posso ter neve agora, pelo menos que meus leitores tenham. Por isso os floquinhos caindo daí de cima.

Então, aproveito o clima aconchegante pra desejar a vocês um ótimo Natal (e um bom ano novo também, mas eu acho que escrevo antes disso).





22 12 2009

Perdida no meio dos preparativos de Natal… Assunto pra escrever não falta. O problema é tempo mesmo.

Desejo a vocês todos, leitores e não leitores, família e não família, amigos e não amigos (porque inimigos eu acho que não tenho – ou ao menos espero) um feliz Natal e um ano novo repleto de realizações e muitas, muitas novas batatas.

Abraço,

Carol





Surpresas da noite

1 12 2009

Hoje* aconteceu uma coisa completamente inesperada.

*E claro que hoje nesse texto significa, assim como no da nuvem, que foi há muito tempo, mas só agora eu consegui digitar o texto escrito há mais de um mês. Mas vamos lá contar o que aconteceu.

Um amigo me pediu o cesto da minha bicicleta emprestado. A bicicleta dele não tem cesto nem garupa pra pôr o cesto, porque “isso é coisa de menina”. Apesar de a metade das bicicletas aqui, até de meninos, terem cesto. E acho realmente prático ter um cesto, seja pra colocar a bolsa, pra fazer compras ou pros outros jogarem lixo dentro. E mesmo que a última finalidade não seja nada desejada, todas as outras compensam essa desvantagem. Meu amigo reconhece todas essas vantagens. Mas aparentemente elas não são suficientes para convencê-lo a deformar a imagem “máscula” de sua bicicleta (ainda que ela seja vermelha com acessórios combinando). Tudo pela aparência. E como não adiantaria muito eu dar o cesto pra ele, já que ele não teria lugar para colocá-lo na bicicleta sem garupa, fui com ele fazer compras. Bom também, para assegurar que ele não teria só cenouras em casa quando resolvêssemos cozinhar outra vez.

O único supermercado que fica aberto depois das 10 fica dentro de uma espécie de shopping. Eu queria entrar pelo fundos, que era mais perto, mas ele disse que podia estar fechado. Não estava, dava pra ver. Mas fomos pela entrada principal. Questão de costume. O chato de usar a entrada principal àquela hora é que ela fica rodeada de mendigos bêbados, adolescentes bêbados, turcos bêbados e toda a sorte de seres que recorrem ao único lugar da cidade onde é vendido álcool na versão engradado até meia-noite. Tranquei a bicicleta depressa, prendendo a respiração. Era o máximo que eu podia contra a nuvem de cigarro que envolvia o ambiente. E tentando desviar de uma segunda nuvem que vinha em minha direção, entrei correndo no supermercado, seguida por meu amigo. Meu amigo aproveitava a oportunidade e comprava mais do que precisava. mais do que ele conseguiria carregar sozinho. Depois de comprar mais cenouras, passar cerca de uma hora só resolvendo o que levar,  enfrentar no mínimo mais meia hora de fila no único caixa aberto, dividir as compras entre mochila do amigo e a sacola que iria no cesto, nos preparamos para mais uma lufada de cigarro na cara.

Já tinha até levantado a sacola para colocar no cesto quando percebi:

– Cadê o cesto?

Sabe aqueles momentos que você acha que não está enxergando direito? O cesto devia estar lá, o problema era com meus olhos.

– Como assim, cadê o cesto?

– O cesto da minha bicicleta. Sumiu.

– Tem certeza?

– Claro que eu tenho certeza! Eu estou vendo a bicicleta, não estou vendo o cesto, que devia estar onde eu deixei. Logo, o cesto sumiu.

– Que merda!

Eu que devia dizer isso. Tinha ido lá só por causa do cesto pra ficar justamente sem ele. Ironia do destino? Olhei para os lados e vi alguns bêbados remanescentes. Até procurei por algum sinal dele, talvez abandonado em algum canto escuro da rua, depois de perceberem que ele estava estragado.

No Brasil eles teriam dado um jeito de levar a bicicleta toda. Talvez o cesto (ou eu mesma, considerando o trânsito de BH) não durasse um dia. Mas na Alemanha, onde normalmente pode-se deixar até a bicicleta inteira sem cadeado, foi realmente inesperado, mas (só pra rimar) roubaram meu cesto quebrado.

O amigo disse que deve ter sido um dos bebuns adolescentes: “Olha, que legal! Agora temos lugar pra pôr as bebidas”. A maior sacanagem foi o lugar onde aconteceu: na porta de um supermercado, justamente quando as pessoas precisam do bendito cesto, que mesmo quebrado costuma quebrar um bom galho.

Resultado da brincadeira: Tivemos que nos virar com sacolas penduradas no guidão ou no pescoço, desequilibrando até em casa. E eu me virei sem o cesto por bastante tempo, até a semana passada, quando comprei um maior do que o outro e um bom cadeado. Por via das dúvidas, agora eu sempre tranco.